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Trem entre Santos e Cajati: o projeto que pode mudar a vida no litoral sul

O projeto de engenharia avança. A CPTM quer concluir os estudos até 2028. E Santos pode estar a menos de 3 horas de trem do Vale do Ribeira.

Tempo de leitura: 4 minutos

Imagine embarcar na estação de Santos, sentar numa janela, assistir o litoral sul ir passando — Praia Grande, Mongaguá, Itanhaém, Peruíbe — e chegar em Cajati sem encarar a Anchieta nem a Imigrantes. Sem congestionamento. Sem estresse. Esse cenário ainda é projeto, mas está mais próximo do que parece.

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Foto: CPTM

A Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) confirmou que o anteprojeto de engenharia da nova ligação ferroviária entre Santos e Cajati está em execução. A previsão é concluir essa etapa até 2028, abrindo caminho para a fase seguinte: licitação ou concessão. O investimento estimado chega a R$ 21 bilhões.

223 km, 13 cidades, uma virada logística

O projeto prevê 223 quilômetros de trilhos ligando Santos a Cajati, com paradas em São Vicente, Praia Grande, Mongaguá, Itanhaém, Peruíbe, Itariri, Pedro de Toledo, Miracatu, Juquiá, Registro e Jacupiranga.

São 13 cidades, muitas delas historicamente deixadas à margem das grandes obras de infraestrutura do estado. O Vale do Ribeira, uma das regiões mais pobres de São Paulo, finalmente entraria no mapa ferroviário.

A estimativa é de até 32 mil passageiros por dia. Não é pouca coisa: é a população inteira de algumas cidades do trajeto se movendo diariamente. Além disso, o trem também transportaria cerca de 600 contêineres diários, o que coloca o projeto numa outra dimensão, a do Porto de Santos.

O serviço expresso percorreria o trajeto completo em aproximadamente 2 horas e 20 minutos. O trecho Santos–Peruíbe levaria cerca de 48 minutos.

O que falta

A CPTM já concluiu o mapeamento e o projeto funcional, incluindo o levantamento aerofotogramétrico (é como tirar uma “radiografia” detalhada do chão antes de começar a planejar a obra). Agora, o anteprojeto de engenharia define a concepção técnica da linha, o planejamento das obras e os serviços necessários.

Esse documento é essencial para viabilizar a contratação integrada ou uma concessão. Ou seja: sem ele, não há leilão. Sem leilão, não há trem.

A previsão é entregar esse anteprojeto até 2028. Só então a fase seguinte, e mais concreta, começa. Ainda não há prazo para o leilão.

Contudo, o avanço em si já é simbólico. Por décadas, projetos ferroviários no litoral sul naufragaram ainda no papel.

Integração com VLT e Trem Intercidades

Uma das apostas mais interessantes do projeto é a integração com o VLT da Baixada Santista e com o futuro Trem Intercidades (TIC) Santos–São Paulo. Os três sistemas formariam um eixo ferroviário contínuo.

Na prática, isso significaria sair de cidades do Vale do Ribeira e chegar à capital paulista usando trilhos durante praticamente todo o trajeto. Algo inédito para a região.

Além disso, o sistema prevê composições adaptadas às demandas de cada trecho: trens menores de dois carros (126 passageiros) para o Vale do Ribeira e composições maiores de quatro carros (274 passageiros) para a Baixada Santista.

Além da mobilidade

O trem Santos–Cajati não é só uma questão de transporte. É uma questão de quem tem acesso à cidade e ao mercado de trabalho.

Hoje, boa parte dos trabalhadores do litoral sul depende de ônibus lotados, rodovias congestionadas e horas perdidas no deslocamento. O Vale do Ribeira, apesar de sua biodiversidade única e potencial turístico enorme, segue desconectado ao restante do estado.

Portanto, conectar essas cidades por trilhos é também reconhecer que a prosperidade do litoral paulista não começa nem termina em Santos. Ela passa por Peruíbe, por Registro, por Jacupiranga.

Santos no centro de uma rede

Se o projeto se concretizar, Santos deixa de ser o ponto final de uma ferrovia e passa a ser o centro de uma rede. O porto integrado ao trem de carga. O centro histórico conectado ao litoral sul. A Baixada Santista ligada ao interior por trilhos.

Isso tem implicações diretas para o turismo, para o comércio, para os pequenos negócios da orla e para os moradores que hoje escolhem Santos para morar mas trabalham, ou gostariam de trabalhar em outras cidades.

Projetos assim costumam demorar. E frequentemente não saem do papel. Mas desta vez, com o anteprojeto em andamento e prazos institucionais definidos, há mais razões para acompanhar do que para ignorar.

Vale ficar de olho. E cobrar.

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