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Por que tantas mulheres autistas vivem sem diagnóstico?

A compreensão da neurodivergência feminina está transformando a saúde mental e ajudando mulheres a abandonarem "personagens" sociais

Tempo de leitura: 5 minutos

Quando você pensa em uma pessoa com autismo, qual imagem vem à cabeça? Se foi a de um menino com dificuldade de falar e evitando contato visual, você está repetindo o mesmo erro que a medicina cometeu por décadas. Esse estereótipo deixou – e ainda deixa – milhares de mulheres sem diagnóstico, sem suporte e, muitas vezes, medicadas por depressão ou ansiedade quando, na verdade, estão no espectro autista.

www.juicysantos.com.br - Por que o autismo em mulheres ainda é tão subdiagnosticado?

O tema chegou com mais força ao debate público nos últimos anos. E é importante: estima-se que, para cada menina diagnosticada com Transtorno do Espectro Autista (TEA), três meninos recebem o mesmo diagnóstico. Não porque o autismo afeta menos as mulheres, mas porque elas aprendem, desde cedo, a esconder.

O que é camuflagem social

Existe um fenômeno chamado masking, ou camuflagem social. Na prática, é quando uma pessoa autista imita comportamentos de quem não está no espectro para se encaixar socialmente. Forçar contato visual. Sorrir na hora certa. Criar roteiros mentais antes de uma conversa. Fingir que aquele barulho alto não incomoda. Guardar o assunto favorito porque sabe que vai “cansar” os outros.

Qualquer pessoa faz alguma adaptação social. A diferença é o custo. Para uma mulher autista, esse esforço é constante, calculado e exaustivo. Não é timidez. É trabalho cognitivo pesado acontecendo o tempo todo, em silêncio.

Portanto, não é surpresa que muitas dessas mulheres cheguem ao consultório com burnout, crises de ansiedade e depressão — e saiam de lá com diagnósticos que tratam os sintomas, mas ignoram a causa.

A neurociência explica

O cérebro feminino, de forma geral, tende a ser mais voltado para a leitura de contextos sociais e para a empatia. Isso significa que uma menina autista frequentemente desenvolve habilidades de observação e imitação muito refinadas — e as usa para se adaptar de um jeito que um menino autista talvez não consiga.

Além disso, o que a sociedade espera de meninas ajuda a disfarçar os sinais. Uma menina quietinha, que obedece, que fala pouco e parece “no mundinho dela” raramente levanta suspeitas. Pelo contrário: é elogiada.

Contudo, esse processo tem um prazo de validade. Na adolescência e na vida adulta, as demandas sociais aumentam. E o que funcionava como camuflagem começa a rachar.

O diagnóstico tardio muda tudo — inclusive para o bem

Muitas mulheres descobrem o autismo já adultas. Algumas por acidente: um filho ou sobrinho recebe o diagnóstico, e elas se reconhecem nos critérios. Outras chegam ao limite do esgotamento e, em uma avaliação mais aprofundada, finalmente entendem por que sempre se sentiram “fora do lugar”.

Assim, o diagnóstico tardio — apesar do nome — não chega tarde demais. Para a maioria das mulheres, ele representa um divisor de águas. Entender que existe uma razão neurológica para as dificuldades sociais diminui a autocrítica, reduz a sensação de não pertencimento e, muitas vezes, permite que elas abandonem a camuflagem aos poucos.

Além disso, o diagnóstico correto abre caminho para suportes mais adequados — terapias, acomodações no trabalho e estratégias personalizadas que fazem diferença real no dia a dia.

Sinais que costumam passar despercebidos em mulheres

Não existe uma lista definitiva, mas alguns padrões aparecem com frequência em mulheres autistas que chegaram ao diagnóstico na vida adulta:

  • Hiperfoco em pessoas ou assuntos específicos — não é obsessão, é uma forma de processamento intenso
  • Exaustão extrema após interações sociais, mesmo que tenham “ido bem” na aparência
  • Sensibilidade sensorial intensa — sons, texturas, cheiros ou luzes que parecem insuportáveis
  • Dificuldade com mudanças de planos ou ambientes muito imprevisíveis
  • Histórico de ansiedade, depressão ou transtornos alimentares que nunca tiveram uma explicação totalmente satisfatória
  • Sensação constante de estar atuando — de que existe uma versão “de fachada” para o mundo

O problema também passa pela medicina

Historicamente, os critérios diagnósticos de autismo foram construídos com base em estudos feitos majoritariamente com meninos. Isso criou um viés: os avaliadores aprenderam a identificar o autismo com uma cara que raramente é a das meninas.

Portanto, profissionais de saúde que não conhecem a camuflagem social podem simplesmente não enxergar o TEA numa mulher que mantém contato visual, conversa bem e parece “se virar”. O que parece adaptação, na verdade, pode ser um esforço monumental disfarçado de normalidade.

A boa notícia é que esse cenário está mudando. Pesquisas recentes têm ampliado a compreensão sobre o autismo feminino, e mais profissionais começam a questionar o diagnóstico de ansiedade antes de fechar o caso.

E tem espaço aqui para essa conversa?

A Baixada Santista concentra uma população grande de mulheres de todas as idades que podem estar vivendo esse processo sem nome e sem apoio. Grupos de neurodivergentes têm crescido na cidade e na região. São espaços onde é possível trocar experiências sem precisar se camuflar.

Se você se reconheceu neste texto — ou reconheceu alguém próximo —, vale buscar uma avaliação neuropsicológica especializada. Não para colocar um rótulo, mas para, finalmente, entender como esse cérebro funciona. E parar de se cobrar por não funcionar como os outros.

Fontes: Autismo e Realidade / Drauzio Varella / CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA)

Vitor Fagundes
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