Nova lei em Santos tenta resolver barreira invisível para famílias atípicas
A história de Michele e seu filho Levi não é exceção e ajuda a explicar por que uma nova lei que passa a vigorar em Santos foi recebida com entusiasmo por tantas famílias atípicas da cidade
Dar um rolê no shopping, jogar futebol na orla ou curtir um show são programas comuns que raramente exigem um plano B.
Mas você já parou para pensar que existem famílias que aprendem a mapear saídas de emergência antes de aproveitar a atração? Que observam o volume do som antes de escolher onde sentar. Que carregam na mochila muito mais do que água e documentos.
Porque, às vezes, um ambiente pensado para milhares de pessoas esquece justamente quem mais precisa de atenção.

Foi por isso que Michele Teles demorou anos para viver experiências que muitos pais consideram banais. Levar o filho à praia e voltar para casa sem uma crise só aconteceu quando Levi tinha 6 anos. Passear pelo shopping sem o medo constante de precisar ir embora às pressas veio ainda depois.
Sair de casa exige planejamento
Para quem não convive com o autismo, a criação de uma sala sensorial pode parecer apenas um detalhe estrutural. Porém, para muitas famílias, ela representa a diferença entre participar de um evento ou desistir dele.
Michele conhece essa realidade de perto. Mãe de Levi, hoje com 7 anos, ela recebeu os primeiros sinais de que o filho poderia ser autista pouco antes de ele completar 2 anos. Depois do impacto inicial, vieram as terapias, os estudos e uma nova rotina. As primeiras palavras de Levi só apareceram aos 4 anos.
“O mundo desabou. É impossível uma mãe ouvir algo assim sem sentir o chão desaparecer. Cada conquista foi construída com muito amor, constância e terapia. Hoje eu vejo o quanto tudo isso transformou a vida dele.” relembra.
Com o tempo, Michele passou a conhecer outras famílias e percebeu que muitos desafios ultrapassavam os consultórios.
“Existem pais que deixam de sair, viajar ou frequentar determinados lugares porque não sabem como seus filhos serão recebidos.” comenta.
E ela sabe exatamente do que está falando.
Respeito, acolhimento e dignidade
Michele costuma dizer que o autismo entrou na vida da família junto com o diagnóstico de Levi. Com isso vieram as terapias, os aprendizados e uma rotina completamente diferente da que ela imaginava viver quando se tornou mãe.
Ao longo do caminho, porém, ela percebeu que os desafios não estavam apenas dentro de casa. Muitos deles apareciam justamente do lado de fora.
“Quem vive essa realidade sabe que, muitas vezes, deixamos de passear, viajar ou frequentar determinados lugares por medo. Não porque não queremos sair, mas porque não sabemos como nosso filho será recebido ou se o local tem preparo.”
A fala ajuda a explicar uma realidade compartilhada por muitas famílias atípicas. Nem sempre a preocupação é com o evento em si. Às vezes, ela está na possibilidade de uma crise acontecer em um ambiente despreparado.
Michele lembra de uma situação durante uma viagem de avião com Levi. Na volta para casa, ele enfrentou uma crise intensa que durou mais de duas horas. O cenário só começou a mudar quando funcionários do aeroporto perceberam a situação e os conduziram para uma sala preparada para acolher crianças neurodivergentes.
“Aquilo fez toda a diferença. Conseguimos acalmá-lo e seguir a viagem com apoio e respeito. Para quem está de fora, pode parecer algo pequeno. Para uma família atípica, é acolhimento de verdade.”
Experiências como essa ajudam a explicar por que a nova legislação foi recebida com tanto entusiasmo por pais e mães da cidade.
O que muda com a nova lei?
A nova lei em Santos que exige espaços adaptados para autistas é a de nº 1.328 e foi publicada no Diário Oficial no dia 17 de julho de 2026, porém só passa a valer dentro de 180 dias desta data.
Na prática, a norma alcança estádios, arenas, centros esportivos, ginásios e outros espaços de grande porte utilizados para eventos e competições.
Além das salas de integração sensorial, a legislação prevê uma série de medidas para reduzir barreiras durante eventos.
Os espaços deverão oferecer:
- Salas sensoriais para redução de estímulos
- Assentos garantidos para acompanhantes
- Abafadores de ruído
- Acessos exclusivos e sinalizados
- Emissão de ingressos específicos para pessoas autistas
Nos jogos de futebol, a responsabilidade ficará com os clubes mandantes. Nos demais eventos, a organização caberá às produtoras responsáveis.
Embora a estrutura física seja importante, especialistas lembram que ela representa apenas uma parte da inclusão.
Além dos equipamentos
Psicomotricista e membro da Associação Brasileira de Psicomotricidade, Fernando Mezadre acredita que iniciativas como a nova lei podem ampliar a participação social de pessoas autistas e de suas famílias.
“Isso melhora a qualidade de vida das crianças, dos adultos autistas e também das famílias. Quando existe uma lei, as pessoas passam a enxergar essa necessidade com mais naturalidade.”
Segundo ele, o receio de enfrentar ambientes sem preparo ainda afasta muitas pessoas de shows, festivais e eventos públicos.
“Eu já acompanhei muitas famílias que deixaram de frequentar determinados lugares. Ambientes preparados trazem conforto e segurança. Além disso, ajudam a criança ou o adulto neurodivergente a se reorganizar mais rapidamente em momentos de crise.”
Fernando também faz uma reflexão importante sobre o futuro da inclusão.
“Quando existe conscientização, as estruturas acabam surgindo. O que acontece é que muitas pessoas só entendem essa realidade quando vivem ela de perto.”
Santos finalmente começa a olhar para uma demanda que já existia
Nos últimos anos, a discussão sobre acessibilidade avançou em diferentes áreas da sociedade. Rampas, elevadores e assentos preferenciais passaram a fazer parte da paisagem urbana. No entanto, a acessibilidade sensorial ainda caminha em ritmo mais lento.
Por isso, medidas como a nova lei ajudam a ampliar o entendimento sobre inclusão.
Afinal, participar de um jogo na Vila Belmiro, assistir a um show na praia ou acompanhar um grande evento da cidade deveria ser uma possibilidade para todos e Michele resume essa expectativa de forma simples.
“Essa conquista diz para nossas crianças que elas pertencem a esses lugares.”
Talvez esse seja o principal desafio daqui para frente. Não apenas construir salas adaptadas, mas criar uma cultura em que nenhuma família precise pensar duas vezes antes de aceitar um convite para viver a cidade.
Serviço
Lei Complementar nº 1.328
- Publicada no Diário Oficial de Santos em 17 de julho de 2026
- Entrada em vigor: 180 dias após a publicação
- Abrange locais para eventos com capacidade igual ou superior a 5 mil pessoas
- Prevê salas de integração sensorial, abafadores de ruído, acessos exclusivos e ingressos específicos para pessoas com TEA