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No Guarujá, Cineclube Casa3 cria espaço gratuito de encontro e cinema brasileiro

Cinema também pode ser um espaço de convivência, troca e pertencimento

Tempo de leitura: 5 minutos

Você provavelmente conhece alguém que ainda fala de “cinema nacional” com aquele tom de quem já espera algo ruim. E sabemos que isso nunca foi uma verdade!

Tem cidade que trata cinema como apenas um entretenimento de shopping. Luz apagada, pipoca cara, o filme termina e cada um volta para casa olhando o celular.

No Guarujá, um grupo resolveu fazer o contrário.

Desde 2022, o Cineclube Casa3 transforma sessões gratuitas de cinema brasileiro em encontros que misturam arte, debate, café e conversas. Tudo isso longe da lógica acelerada dos streamings e dos algoritmos que decidem o que as pessoas assistem.

Enquanto muita gente ainda conhece o cinema nacional apenas quando um filme aparece no Oscar, o cineclube aposta justamente no que costuma ficar fora do radar. Filmes recentes, obras independentes, histórias regionais e produções que falam diretamente sobre o Brasil real.

E é bem aí que mora a força de espaços assim.

Um lugar para assistir. E principalmente conversar

O Cineclube Casa3 nasceu da vontade do produtor e programador Eduardo Bordinhon e Marcelo Wallez, responsável pelo espaço cultural Casa3, de criar um ambiente permanente de encontro em torno do cinema.

Mais do que exibir filmes, a ideia era criar um espaço onde as pessoas pudessem conversar sobre o que sentiram, discordar, trocar referências e conhecer outras perspectivas.

“Acho que esse é um espaço que falta em muitas cidades”, comenta Bordinhon.

A escolha pelo cinema brasileiro veio como posicionamento cultural. Segundo ele, ainda existe uma distância entre o público e a produção nacional contemporânea. Muito além dos grandes sucessos ou das premiações internacionais, existe um volume enorme de filmes brasileiros produzindo novas linguagens, discutindo trabalho, maternidade, raça, memória, periferia e relações humanas.

“Tem toda uma produção que tem pouco espaço de exibição e que está produzindo uma estética e falando de temas que nos tocam diretamente. É ela que me interessa trazer para cá”, explica Bordinhon.

Os temas atravessam também a realidade da Baixada Santista.

Aliás, Santos e região já convivem há anos com debates sobre acesso à cultura, ocupação de espaços públicos e democratização artística. O próprio crescimento de feiras culturais, ocupações e eventos independentes mostra isso.

O papo continua depois dos créditos

Quem frequenta cineclube sabe: o filme raramente termina quando a tela escurece.

No Casa3, a conversa pós-sessão virou parte essencial da experiência. E não em um formato professoral ou acadêmico distante.

A mediação é conduzida por Juliana Melhado, que incentiva um ambiente aberto, onde ninguém precisa “entender de cinema” para participar. A proposta não é explicar o filme. É compartilhar percepções.

“Queremos criar um senso de comunidade. Assim, as pessoas se sentem também promotoras do Cineclube”, comenta.

Além disso, o espaço aposta em pequenos gestos que mudam completamente o clima da sessão. Comes e bebes são oferecidos entre o filme e o debate. Quem quiser também pode levar algo para dividir.

Parece detalhe. Mas não é.

Porque o cinema deixa de ser consumo individual e vira convivência. Gente que chega sem conhecer ninguém acaba ficando para conversar sobre trabalho, cidade, relações familiares ou memórias despertadas pelo filme.

Segundo Eduardo, o mais forte nesses anos foi perceber como muitas pessoas começaram a enxergar o cinema brasileiro como algo próximo das próprias vidas.

“O filme se torna o insumo, o disparador do encontro humano e cidadão.”

Cinema também é direito de acesso

Manter um projeto cultural gratuito no Brasil nunca é simples. E talvez essa seja uma das discussões mais importantes levantadas pelo Cineclube Casa3.

O projeto funciona gratuitamente desde o início e pretende continuar assim.

A avaliação da equipe é direta: cobrar ingresso, mesmo simbólico, pode afastar pessoas interessadas. E um espaço que nasce para ser plural perde sentido quando cria barreiras de acesso.

Por isso, o cineclube depende de políticas públicas, parcerias e apoio institucional.

Em 2024, o projeto recebeu recursos da Lei Paulo Gustavo. O financiamento permitiu ampliar as atividades, realizar sessões infantis, debates com cineastas e ações de formação audiovisual.

Além disso, o Cineclube Casa3 também realizou uma mostra no SESC Santos sobre atuação no cinema brasileiro.

Nos demais períodos, grande parte do trabalho acontece de forma voluntária. Distribuidoras e produtores também colaboram liberando filmes para exibição gratuita.

Entre os parceiros atuais estão a Vitrine Filmes e a Embaúba Filmes.

O que acontece quando uma cidade cria espaços assim?

Talvez o maior mérito de um cineclube não seja formar especialistas em cinema. Talvez seja formar pessoas mais abertas ao outro.

Em cidades onde o custo de lazer sobe constantemente e boa parte da cultura ainda parece concentrada em poucos espaços, iniciativas como o Casa3 ajudam a criar pertencimento.

E isso conversa diretamente com a Baixada Santista.

Uma região marcada por contrastes sociais, deslocamentos longos e pouca oferta cultural gratuita fora dos grandes centros comerciais precisa de espaços onde as pessoas simplesmente possam existir juntas.

Enquanto muitas cidades perdem espaços de convivência, um cineclube gratuito no Guarujá insiste em algo quase revolucionário para 2026: sentar, assistir, ouvir e conversar.

Pode parecer pouco, mas talvez seja exatamente o tipo de encontro que anda fazendo falta. 

Serviço

Realização: Casa3 e Instituto Eita
Produção e programação: Eduardo Bordinhon
Produção Espaço Casa3: Marcelo Wallez
Mediação: Juliana Melhado
Responsável técnico: Fernando Góis