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Esta escola em Santos ensina os truques secretos dos efeitos especiais no cinema

Entre explosões, próteses, maquiagem, robótica e ilusões, Escola de Efeitos Especiais transforma a região em referência nacional para quem quer descobrir como o cinema cria aquilo que parece impossível

Tempo de leitura: 10 minutos

Você lembra qual foi sua reação quando viu Michael Jackson se transformar em lobisomem diante dos seus olhos? Ou quando Regan rodava a cabeça e vomitava um jato verde em O Exorcista?

E quando Spielberg fez todo mundo acreditar que os dinossauros tinham voltado à Terra? Anos antes, Superman se vendia como “o filme que vai te fazer acreditar que o homem pode voar”. E conseguiu.

Para os mais jovens, A Substância trouxe outro tipo de pesadelo. O body horror foi tão convincente que fazia parecer possível ver Demi Moore se transformar em uma versão grotesca de Quasimodo.

Tudo bem, posso ter me empolgado um pouquinho. Mas estamos falando daquela sensação única que o cinema provoca quando consegue enganar nosso cérebro a ponto de nos fazer pensar: “calma, isso é real mesmo?”.

Essa magia tem nome: efeitos especiais. E, curiosamente, ela nasceu como mágica.

O cinema é conhecido como a sétima arte. Antes dele, vieram a música, as artes cênicas, a pintura, a escultura, a arquitetura e a literatura. A própria ideia do cinema como uma espécie de síntese dessas linguagens ajudou a consolidar o título de “sétima arte”.

Só que a lista não dá conta de tudo o que acontece dentro de uma sala de cinema. Um filme pode juntar música, fotografia, teatro, literatura, arquitetura, dança e, claro, uma boa dose de ilusionismo.

Afinal, fazer um ator parecer atingido por um tiro, transformar um rosto, criar uma explosão ou fazer um objeto se mover sozinho não é exatamente uma questão de apertar o rec e torcer para dar certo.

Muito antes dos efeitos digitais dominarem Hollywood, o cinema já fazia truques de mágica.

Quando o ilusionismo encontrou o cinema

A história começa ainda no fim do século XIX, quando o cinema estava nascendo.

www.juicysantos.com.br - viagem a lua

Em 1895, os irmãos Auguste e Louis Lumière apresentaram o cinematógrafo em Paris. Entre os espectadores estava Georges Méliès, mágico, ilusionista e dono do Teatro Robert-Houdin.

Méliès entendeu rapidamente que aquela nova invenção poderia fazer algo além de simplesmente registrar imagens. Ele queria levar a câmera para o território onde já trabalhava, o da ilusão.

Depois de conseguir seu próprio equipamento, começou a experimentar. Até que uma falha técnica revelou uma possibilidade que mudaria o cinema. Durante uma filmagem, a câmera parou. Quando voltou a funcionar, o objeto que estava diante dela havia mudado. Na projeção, parecia que uma coisa tinha simplesmente se transformado em outra.

Méliès percebeu que a câmera podia manipular o tempo, o espaço e aquilo que o espectador acreditava estar vendo. Nascia ali uma das bases dos efeitos especiais cinematográficos.

Em 1902, ele lançou Viagem à Lua, uma de suas obras mais conhecidas, combinando cenários, narrativa, cortes e técnicas que ajudaram a estabelecer uma nova linguagem para o cinema. Entre elas estava a filmagem quadro a quadro, o stop motion.

Ou seja, aquela pergunta que fazemos até hoje diante de uma cena absurda, “como fizeram isso?”, acompanha o cinema praticamente desde o começo.

Mais de cem anos depois, a resposta pode envolver explosivos, próteses, maquiagem, robótica, mecanismos, sangue cenográfico e uma mistura de técnicas que pouca gente vê quando está sentada na poltrona.

E é justamente esse universo que uma escola da Baixada decidiu transformar em conhecimento.

A primeira escola de efeitos especiais do Brasil fica na Baixada

A EEFX – Escola de Efeitos Especiais foi criada em 2019 por Delson Gomes e se apresenta como a primeira escola de efeitos especiais no Brasil dedicada à formação na área.

A sede jurídica fica em São Vicente, enquanto os cursos presenciais acontecem principalmente em Santos. A empresa também oferece cursos online e atua diretamente em produções audiovisuais e cênicas.

www.juicysantos.com.br - ecobag efeitos

Gomes é doutor em Cinema, pesquisador de efeitos especiais e professor universitário. A trajetória acadêmica começou na Produção Multimídia e passou por especializações, mestrado e doutorado em Comunicação.

O interesse pelos efeitos especiais surgiu justamente do encontro entre pesquisa e prática. Ao começar a trabalhar com cursos online, ele percebeu que havia um buraco no mercado brasileiro.

“Minha intenção inicial era atuar somente online, produzindo cursos focados em efeitos especiais, pois não havia no Brasil ninguém ensinando técnicas complexas, como o tiro em corpo.”

A técnica envolve a simulação do impacto de um disparo sobre o corpo de um personagem. É aquele tipo de efeito que o público vê em filmes, mas raramente pensa no trabalho necessário para coloca-lo diante da câmera.

A escola começou com cursos gravados sobre tiros e explosões. Com o avanço da pesquisa, porém, o profissional percebeu que havia uma questão maior.

“Conforme avançava nas pesquisas acadêmicas, percebi que os efeitos especiais eram um campo não estudado no Brasil”. 

A partir daí, o projeto passou ensinar mais do que técnicas.

Do online para os sets de filmagem

O crescimento dos cursos levou a escola para além da internet. O público começou a procurar formação presencial e, pouco a pouco, a atuação em produções cinematográficas também aumentou.

A equipe já trabalhou em diferentes estados brasileiros. Em Rondônia, participou de um filme sobre garimpo ao lado de uma equipe premiada no Festival de Gramado. A escola também passou a realizar capacitações em diferentes cidades.

www.juicysantos.com.br - escola de efeitos especiaisFoto: Gabrielly Thaina

A proposta atual funciona como uma imersão de dois dias. No primeiro, os alunos aprendem diferentes técnicas de efeitos. No segundo, colocam o conhecimento em prática na produção de um curta-metragem.

“No segundo dia, a turma produz um curta-metragem executando todos os efeitos, enquanto eu assino o roteiro e a direção.”

A ideia é fugir daquele modelo em que o aluno assiste a uma aula, anota algumas informações e vai embora. Aqui, a proposta é por a mão na massa.

E isso ajuda a explicar por que as turmas atraem gente de longe. Nas edições recentes, a escola recebeu alunos de Minas Gerais, Brasília, Amazonas, Região Sul, Rio de Janeiro e interior de São Paulo.

Para quem chega de outro estado, o investimento não termina na inscrição. Existe também deslocamento, hospedagem e tempo. Mesmo assim, a procura pelo curso de efeitos especiais para cinema segue em alta.

Não é só explosão

Se a expressão “efeitos especiais” faz você pensar automaticamente em uma explosão de Hollywood, a escola tem uma lista bem maior.

www.juicysantos.com.br - Escola de Efeitos Especiais da Baixada ensina os truques secretos do cinema

Segundo Delson, existem mais de 15 classes de efeitos especiais. Entre elas estão robótica, tiros, explosões, maquiagem e stop motion.

O diferencial da escola está justamente na possibilidade de combinar essas técnicas.

“Nosso diferencial é atuar com múltiplos efeitos combinados: uma maquiagem recebe uma prótese, que por sua vez pode explodir ou expelir sangue por mangueiras sob pressão.”

É aí que o assunto fica ainda mais interessante, o efeito especial não depende apenas do cinema. Ele pode cruzar conhecimentos de química, física, engenharia, maquiagem, robótica e educação.

Um profissional de química, por exemplo, pode trabalhar no desenvolvimento de materiais para a área. Já a robótica pode entrar na criação de mecanismos usados em cenas e experiências.

A falta de profissionais virou oportunidade

O crescimento da produção audiovisual brasileira também aumentou a procura por profissionais especializados em efeitos especiais.

Segundo Gomes, a quantidade de produções aumentou com o avanço das políticas públicas de incentivo, mas a formação técnica não acompanhou esse movimento na mesma velocidade.

“Muitas produções possuem boas ideias, mas não sabem como executá-las por desconhecimento dos efeitos especiais.”

É uma diferença importante. Ter dinheiro para produzir um filme não significa automaticamente ter profissionais preparados para executar tudo o que o roteiro pede. Nesse cenário, a escola tenta ocupar um espaço que ainda tem pouca gente especializada.

A atuação acontece tanto na formação quanto diretamente nas produções. Por isso, a Escola de Efeitos Especiais funciona ao mesmo tempo como centro de ensino, produtora e editora. E os efeitos também escapam da tela grande.

Delson já criou mecanismos para eventos, como um vestido que acendia durante uma festa de debutante. Desenvolveu, ainda, um efeito de tiro em corpo para a abertura de uma palestra de um advogado criminalista.

“É um mercado em franca expansão e com diversas possibilidades de aplicação.”

O conhecimento que não deveria ficar escondido

Existe ainda outra frente nesse trabalho: transformar um conhecimento que circulava entre poucos profissionais em material acessível para quem quer entrar no mercado.

No fim de 2025, Gomes escreveu um livro em parceria com um efeitista do Rio de Janeiro especializado em técnicas de fogo e explosão. O profissional atua em produções como Impuros e DNA do Crime.

A escola também captou recursos via Facult 12 e Lei Rouanet para desenvolver o primeiro livro do país dedicado aos efeitos especiais, com abordagem sobre tipologias e interdisciplinaridade.

A proposta é transformar a experiência prática em conhecimento organizado.

“Os saberes antes ficavam restritos à transmissão oral entre efeitistas. Nosso trabalho abre caminho para a capacitação de novos profissionais na economia criativa.”

www.juicysantos.com.br - Frederico Farfan

Esse movimento também aproximou a escola de profissionais experientes do setor. O efeitista Federico Farfán, que trabalhou em produções internacionais como Rambo e filmes de Guillermo del Toro, participou de um bate-papo com os alunos em uma das atividades presenciais.

Enquanto isso, a escola prepara o primeiro Congresso de Efeitos Especiais, marcado para novembro na UniSantos. A proposta reúne profissionais e pesquisadores de cinema, publicidade, química, física e educação.

A intenção é gerar mais debates sobre uma área que, apesar de estar presente em praticamente todo filme que exige algum grau de ilusão, ainda recebe pouca atenção acadêmica no Brasil.

Da Baixada Santista para o cinema nacional

A escola não nasceu em Hollywood, São Paulo ou Rio de Janeiro. É cria da Baixada Santista.

Hoje, a sede jurídica está em São Vicente, Gomes vive em Praia Grande e boa parte dos cursos presenciais acontece em Santos. A escola também já desenvolveu ações em parceria com com o Museu da Imagem e do Som de Santos.

A região, que já possui uma relação histórica com o audiovisual, também reconhecida pela UNESCO com o título de Cidade Criativa do Cinema para Santos, passa a abrigar uma iniciativa que olha para uma parte bastante específica dessa cadeia.

Porque cinema não é só câmera, ator e diretor.

Tem quem escreva, quem ilumine, quem monte, quem crie cenários, quem pense o som e quem faça o público acreditar que aquilo que está na tela realmente aconteceu. Às vezes, esse último trabalho envolve uma explosão. Outras vezes, uma prótese. Pode ser neve, fogo, sangue ou um vestido que acende no momento certo.

No fim, tudo volta para aquela velha pergunta que Georges Méliès ajudou a colocar na tela há mais de um século: como fizeram isso?

Por aqui, tem gente ensinando os truques que um bom mágico nunca revela.

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