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Eduardo Antônio Lara, o “MC Duda do Marapé” e o legado do funk na Baixada Santista

Assassinado aos 27 anos, ele foi um dos artistas mais geniais do movimento funk paulista

Tempo de leitura: 6 minutos

Talvez você não o conheça como Eduardo Antônio Lara. Mas basta dizer seu nome artístico – Duda do Marapé – que muita gente lembra de sua carreira promissora na música antes de ter sua vida interrompida de forma brutal em 12 de abril de 2011.

Arte: Dennis Romano

O funkeiro de Santos foi assassinado aos 27 anos e, até hoje, o crime permanece sem solução.

Genialidade Musical

A trajetória de MC Duda do Marapé se confunde com a história de seu maior sucesso. Ainda na adolescência, as autoridades apreenderam Eduardo e o levaram para a antiga Febem — hoje conhecida como Fundação Casa. Lá, em meio ao isolamento e à reflexão, ele escreveu “lágrimas”, a música que se transformaria em seu legado mais marcante.

Os versos de abertura traduzem a alma da composição:

“Lágrimas cai quem já passou no sofrimento. Coração bate acelerado, mó saudade…” .

Depois de deixar o internato, no início dos anos 2000, Duda mostrou a faixa ao DJ Baphafinha, seu vizinho em Santos e um dos pioneiros do funk na Baixada.

Nesse momento, o produtor ficou impressionado com a força da letra e prometeu uma versão de estúdio. No entanto, impaciente e fiel ao seu estilo espontâneo, Duda decidiu não esperar.

Assim, com um tamborzão marcando o ritmo, ele cantou “lágrimas” em uma de suas apresentações — e, assim, fez nascer um clássico do funk paulista.

O hit que derrubou um site

A genialidade de MC Duda do Marapé surgiu de um jeito inesperado. Entre 2005 e 2006, os organizadores dos bailes de funk costumavam gravar seus áudios e compartilhá-los online. Consequentemente, isso ajudava novos talentos a se destacarem.

Quando a versão improvisada de “lágrimas” apareceu no site FunkMP3, o sucesso aconteceu imediatamente. Além disso, o tráfego aumentou tanto que o servidor — recém-criado e hospedado no exterior — simplesmente não aguentou e saiu do ar.

Naquele tempo, as redes sociais ainda engatinhavam, mas a música se espalhou rapidamente. Dessa maneira, funkeiros de todo o país correram para baixar a faixa e colocá-la nos seus MP3 players. Mais tarde, Duda gravou uma nova versão no estúdio da Litoral Funk, incluída no álbum “Sorrir”. Mesmo assim, o público continuou preferindo a gravação ao vivo, cheia de energia e emoção.

Atualmente, “Lágrimas” soma mais de 11 milhões de visualizações no YouTube — um feito impressionante para um artista que veio da cena underground e conquistou o país com autenticidade e talento.

A Baixada é Funk

O movimento funk cresceu com força na região, que ofereceu um terreno fértil para sua expansão.

Durante os anos 2000, a Baixada Santista conquistou destaque nacional e passou a rivalizar com o Rio de Janeiro na criação de grandes sucessos do gênero. Nesse cenário, o chamado “funk consciente” — também conhecido como “funk de relato” — dominava as pistas. Assim, esse estilo traduzia a vivência das periferias em letras francas e intensas, que abordavam desde a violência estatal até valores como amizade e confiança.

Duda do Marapé levava no nome artístico a marca do bairro onde vivia, em Santos. De fato, essa ligação com o território caracterizava os MCs da região, que faziam questão de representar suas quebradas e comunidades nas músicas.

Com essa mesma energia, artistas como Felipe Boladão, MC Careca e Neguinho do Kaxeta formaram uma geração que moldou o som e a identidade do funk paulista. Consequentemente, deixaram uma influência que ainda ecoa nas batidas de hoje.

Caso arquivado

A morte de Duda do Marapé fez parte de uma sequência trágica que abalou o calendário do funk paulista. A princípio, tudo começou em 10 de abril de 2010, Felipe Boladão, então com 20 anos, junto com seu DJ foram assassinados enquanto esperavam carona para uma apresentação. Um ano depois, em 12 de abril de 2011, Duda teve o mesmo destino.

Na sequência, em 19 de abril de 2012, criminosos executaram MC Primo em frente à própria casa, em São Vicente. Apenas nove dias depois, em 28 de abril, MC Careca também foi assassinado.

Apesar da comoção, as investigações não avançaram. Em consequência, nenhum suspeito recebeu identificação e, com o tempo, as autoridades arquivaram todos os casos.

Legados iinterrompidos

Esses assassinatos revelam, de forma clara, a vulnerabilidade dos artistas periféricos no Brasil. Por isso, produtores culturais e pesquisadores afirmam que a criminalização do funk contribui diretamente para tornar essas vítimas invisíveis.

Quando assassinos matam jovens negros das periferias, as investigações frequentemente tendem a ser precárias. Além disso, os casos raramente recebem a atenção devida.

MC Duda do Marapé fazia parte de uma geração que elevava o funk paulista a novos patamares. Assim, hoje, artistas como MC Hariel, MC Guimê e outros nomes reconhecem abertamente a influência dos pioneiros da Baixada Santista em suas trajetórias.

Cultura do funk

O movimento funk na Baixada Santista vai muito além do entretenimento. Na verdade, trata-se de uma manifestação cultural legítima que dá voz às periferias e constrói identidades territoriais. Nesse sentido, organizações como a ZNO Music trabalham para memorializar essas histórias e ocupar espaços institucionais com as juventudes periféricas.

Santos e as cidades vizinhas desempenharam papel fundamental para que o funk ganhasse força em São Paulo e posteriormente em todo o Brasil. Inclusive, antes mesmo de explodir na capital, o litoral já produzia hits e desenvolvia sua estética própria. Além disso, marcas como Town & Country, chinelos Sthill e Cyclone faziam parte da identidade visual dos funkeiros locais nos anos 2000.

Memória viva

O caso de MC Duda do Marapé e o assassinato de outros artistas na Baixada Santista permanecem como uma ferida aberta na cultura brasileira.

Afinal, esses jovens construíam carreiras legítimas. Eles levavam suas comunidades para o centro da cena musical e criavam uma identidade cultural própria. No entanto, suas mortes violentas e não solucionadas revelam o quanto precisamos avançar na proteção e na valorização dos artistas periféricos.

Hoje, milhões de pessoas continuam ouvindo “Lágrimas”, o que mantém viva a memória de seu criador. Assim, cada reprodução da música se torna um lembrete do talento interrompido precocemente e da necessidade urgente de combater a violência que vitima jovens negros nas periferias brasileiras.

A história de Duda do Marapé precisa ser contada e recontada, não apenas como tragédia, mas como testemunho da potência cultural das quebradas brasileiras.

Vitor Fagundes
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