Diez conecta a Baixada Santista à arte latino-americana
De Santos para Chile e México, Diez constrói uma rede latino-americana de arte independente
Enquanto muita gente ainda associa a arte independente a um circuito pequeno e isolado, Diez faz o movimento contrário. Desde 2025, ela expande sua pesquisa para além das fronteiras brasileiras. Primeiro, em uma residência artística no Chile. Agora, com passagem marcada para o México em agosto.
Criada em Santos, a artista, pesquisadora e produtora cultural de 26 anos vem construindo um caminho que dificilmente cabe em uma única definição.
Ela é performer, agente territorial de cultura pelo Ministério da Cultura, produtora cultural, colunista de rádio e, mais recentemente, uma espécie de ponte entre a Baixada Santista e outros territórios da América Latina.

Foto: Pilar Higuiera
No meio do caminho, nasceu a Cia. Latinoamericana de Artes Performativas (C.L.A.P.), coletivo formado por seis artistas do Brasil, Chile, Argentina e México.
Para quem acompanha a cena cultural santista, há uma simbologia nisso. Santos sempre foi cidade de encontros. Porto, imigração, circulação de pessoas e ideias. Faz muito sentido que uma artista daqui esteja ajudando a costurar novas conexões latino-americanas.
Quando descansar vira um ato político
O trabalho mais recente de Diez tem um nome que parece um convite: “Sonhar o Ócio”.
A performance, desenvolvida durante a residência Avanzada Sur, da CuerpoSur, dura 8 horas contínuas. A proposta parte de uma inquietação bastante contemporânea: o que acontece quando até o lazer vira produtividade?

Foto: Pilar Higuiera
Inspirada pelo filósofo Byung-Chul Han, Diez investiga as relações entre arte, vida, trabalho e descanso. Em uma época em que responder mensagens fora do expediente parece normal e que até o sono disputa espaço com as notificações do celular, a performance propõe um pequeno desvio.
Um desvio que, curiosamente, exige trabalho.
“Sonhar o Ócio” já passou pelo Chile e terá uma abertura de processo no Festival Ventana Sur, em 2026. Ao final, a obra retorna aos territórios por onde passou, levando consigo as marcas das pessoas que participaram dela.
Agente cultural em movimento
Além da pesquisa artística, Diez atua desde 2024 como Agente Territorial de Cultura, iniciativa vinculada ao Ministério da Cultura.
Na prática, isso significa acompanhar artistas, promover assessorias, facilitar diálogos sobre políticas públicas e compartilhar ferramentas de autogestão cultural.
É um trabalho que conversa diretamente com uma realidade conhecida por muitos profissionais da Baixada Santista. Fazer cultura na região costuma exigir mais do que talento. Exige organização, rede de apoio e uma capacidade quase atlética de transformar planilhas em projetos e ideias em editais.
Por isso, parte da pesquisa da artista se dedica justamente a pensar caminhos mais sustentáveis para quem vive da economia criativa.
Existe, contudo, um desafio que permanece: chegar a mais pessoas.
Mesmo atuando em uma rede nacional, Diez conta que ainda sente falta de uma conexão mais ampla com instituições culturais e agentes criativos da região. Afinal, de que adianta construir pontes internacionais se a travessia local continua difícil?
Santos também cabe na América Latina
Há uma tendência de olhar para São Paulo quando o assunto é arte contemporânea. Entretanto, histórias como a de Diez lembram que a Baixada Santista também produz pensamento, pesquisa e experimentação.
E talvez exista algo de profundamente santista em uma obra chamada “Sonhar o Ócio”. Uma cidade que aprendeu a desacelerar olhando o mar, mas que também conhece bem a correria dos portos, dos ônibus lotados e dos expedientes apertados.
Para Diez, circular pela América Latina também mudou a forma como ela enxerga o próprio Brasil.
“Aquela sensação de que sair do Brasil te torna mais brasileira também vale para a arte. Existe um autoconhecimento e um entendimento de cultura e imagem muito fortes”, conta.
Segundo a artista, a experiência em residências internacionais revelou tanto as semelhanças quanto as diferenças entre os países latino-americanos. Temas como cuidado, afeto, festa, encontro, coletividade e a forma de habitar as crises aparecem repetidamente em trabalhos produzidos em diferentes territórios.
“Percebo uma proximidade muito grande na maneira como artistas latino-americanos respondem aos sistemas opressivos e às lógicas de produção. Grande parte das nossas referências também vem daqui, da América Latina.”
A expectativa para a passagem pelo México vai além da pesquisa performática. Diez espera trazer para Santos novas formas de experimentar a arte.
“Quero compartilhar a performance como possibilidade de viver experiências diferentes das que estamos acostumados. Também quero fortalecer a valorização de artistas e pensadores latino-americanos e brasileiros, além de ampliar o senso de comunidade e os entendimentos sobre língua e território.”
Entre o palco e a plateia, existe uma cidade inteira
Para a artista, a Baixada Santista vive um momento de reconstrução. Ainda há reflexos da pandemia no circuito cultural independente, especialmente quando o assunto é circulação de público e oportunidades de trabalho.
“Acredito que esse período pós-pandemia ainda encontra uma desestabilização no giro de trabalho para artistas da região”, afirma.
Ela aponta que existe um ciclo difícil de romper: eventos que recebem pouca divulgação, público que não chega e, consequentemente, menos iniciativas acontecendo.
“Entramos em um ciclo de divulgação que não chega ao público, cada vez menos público e, por consequência, cada vez menos eventos.”
Na avaliação da agente territorial de cultura, ampliar a conexão entre artistas, instituições e poder público passa, antes de tudo, por uma mudança de hábito.
“Antes do trabalho artístico em si, existe o trabalho de formar público. Precisamos lembrar às pessoas que existe uma produção cultural riquíssima acontecendo em Santos.”
Para ela, um calendário cultural mais ativo depende de um esforço coletivo.
“Mais eventos, mais divulgação e mais apoio da cidade, do poder público e das organizações de comunicação podem transformar a relação da Baixada com a própria cultura.”
Enquanto a C.L.A.P. se prepara para desembarcar no México, Diez segue fazendo o que muitos artistas independentes fazem diariamente: criando redes onde antes existiam distâncias.
Serviço
Diez
Instagram: @nuevediezz
E-mail: [email protected]
C.L.A.P. (Cia. Latinoamericana de Artes Performativas)
Coletivo internacional formado por artistas do Brasil, Chile, Argentina e México, atualmente em circulação por meio de projeto financiado pelo Iberescena.
“Sonhar o Ócio”
Performance duracional desenvolvida durante a residência Avanzada Sur, da CuerpoSur (Chile), com abertura de processo prevista para o Festival Ventana Sur, em 2026.
Como Agente Territorial de Cultura, Diez também realiza assessorias individuais e workshops sobre autogestão artística e políticas públicas culturais.