Como Cubatão foi do Vale da Morte ao verde do mundo
A cidade que já foi símbolo mundial de destruição ambiental acaba de ganhar um dos reconhecimentos verdes mais importantes do planeta. E quem mora na Baixada Santista viveu essa história de perto
Quem cresceu na Baixada já ouviu falar de Cubatão com uma mistura de familiaridade e desconforto. A fumaça das chaminés era visível das praias. O cheiro chegava nos dias de vento. A serra, que deveria ser verde, tinha manchas cinzas. Cubatão era vizinha, mas parecia outro mundo.
Foto: Prefeitura de Cubatão
Hoje, portanto, esse mesmo município acaba de ser reconhecido pelo programa Tree Cities of the World, iniciativa da FAO (agência de alimentação da ONU) em parceria com a Arbor Day Foundation. O selo certifica cidades que tratam arborização urbana como política pública séria, com critérios técnicos e avaliação internacional rigorosa.
Quando a vizinha envenenava o ar da região
Para entender o peso desse reconhecimento, é preciso lembrar o que Cubatão foi.
Nos anos 1980, a ONU apontou Cubatão como a cidade mais poluída do mundo. As indústrias despejavam cerca de mil toneladas de poluentes atmosféricos por dia. Além disso, a chuva ácida destruía a cobertura vegetal da Serra do Mar. Os rios que cortavam o município carregavam resíduos industriais. Os manguezais, que hoje são destaque ambiental, estavam agonizando.
O impacto, contudo, não ficava dentro dos limites municipais. O vento trazia o ar contaminado para toda a Baixada Santista. Santos respirava parte disso. Portanto, quando se fala em poluição de Cubatão, se fala também da nossa história.
Em bairros residenciais colados às fábricas, como a Vila Parisi, bebês nasciam com malformações graves. Além disso, doenças respiratórias eram rotina. A mortalidade infantil assustava pesquisadores do mundo inteiro. Assim, o jornalista Randau Marques criou o termo que rodou redações de Nova York a Tóquio: Vale da Morte.
A expressão descrevia com precisão o que se vivia ali.
A tragédia que forçou a virada
O ponto de inflexão veio de uma das maiores tragédias ambientais e humanas da história do estado de São Paulo.
Em fevereiro de 1984, um duto que ligava a refinaria local ao terminal portuário rompeu. Cerca de 700 mil litros de combustível se espalharam pelo mangue. Como resultado, o incêndio que se seguiu destruiu o bairro Vila Socó e matou 93 pessoas.
A tragédia, então, produziu o que anos de denúncias não tinham conseguido: um acordo real entre indústrias, poder público e comunidade.
A partir de 1985, o Programa de Controle de Poluição Ambiental entrou em vigor. Filtros foram instalados nas chaminés. Além disso, rios e córregos passaram por processos de despoluição. O replantio de Mata Atlântica começou. O gerenciamento de resíduos foi regulamentado. No total, o investimento chegou a aproximadamente 3 bilhões de dólares.
O resultado foi impressionante: redução de 98% dos poluentes no ar.
Em 1992, na Eco-92 realizada no Rio de Janeiro, a ONU virou o discurso. Assim, Cubatão deixou de ser o exemplo do que não fazer e passou a ser chamada de Cidade Símbolo da Recuperação Ambiental. Do Vale da Morte ao Vale da Vida em menos de dez anos.
O que o reconhecimento de 2025/2026 representa
O novo selo Tree Cities of the World não chegou sozinho. Ele é resultado de ações concretas e contínuas.
Cubatão mantém programas ativos de arborização urbana, com planejamento técnico e manejo da vegetação. Os manguezais, que quase desapareceram nas décadas anteriores, recebem replantio contínuo de mudas nativas. Além disso, a cidade se alinha ao Plano Nacional de Arborização Urbana e trata o verde como infraestrutura essencial para a qualidade de vida urbana.
Nesta edição do programa, o Brasil saltou de 34 para mais de 50 cidades certificadas. Ou seja, um crescimento de 50%, acima da média mundial. Cubatão está nesse grupo ao lado de municípios de países como Canadá, França, Uganda, Costa Rica e Índia.
Para a Baixada Santista, contudo, o reconhecimento importa por razões práticas. Os manguezais de Cubatão são estratégicos para toda a região. Eles protegem o litoral, sustentam a cadeia alimentar marinha e regulam o clima local. Portanto, o que acontece ali afeta diretamente Santos, São Vicente, Guarujá e os demais municípios do entorno.
O espelho que Cubatão coloca na frente de Santos
Santos possui uma das maiores faixas de manguezal urbano do mundo. Além disso, tem orla, tem Mata Atlântica na serra e tem rios que cruzam a cidade. O potencial ambiental é enorme.
Contudo, a pressão do crescimento urbano, o descarte irregular de resíduos e a falta de planejamento verde ainda são desafios reais. A pauta ambiental em Santos avança, mas ainda de forma fragmentada.
Ver Cubatão, que veio do fundo do poço, ser reconhecida internacionalmente um lembrete concreto: transformação ambiental depende de política pública consistente, não de circunstâncias favoráveis.
A trajetória da cidade vizinha é, possivelmente, o maior caso de recuperação ambiental urbana do Brasil. E aconteceu aqui do lado.
Foi tragédia que forçou ação, investimento pesado e décadas de vigilância constante.
Se uma cidade que envenenou o próprio ar conseguiu se tornar referência mundial em verde urbano, o que outras cidades da Baixada Santista estão esperando para fazer o mesmo?