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Crepúsculo nos cinemas de Santos: entre a nostalgia e a falta de criatividade

Com direito a "Decode" tocando no fone, uma das sagas mais queridas do público já tem data para voltar!

Tempo de leitura: 6 minutos

Quem viveu a era de ouro de Crepúsculo sabe: escolher entre Team Edward e Team Jacob era quase uma questão de honra. Em Santos, as filas do cinema se formavam no Roxy e a galera ia para casa debatendo se vampiro que brilha no sol faz sentido ou se era puro charme.

Agora, mais de 17 anos depois da estreia do primeiro filme, a saga volta às telonas a partir de 19 de março de 2026. Mas enquanto a gente se prepara para reviver aquele frio na barriga (e aquele constrangimento gostoso), uma pergunta fica no ar: por que Hollywood parece ter medo de criar algo novo?

Imagem: Divulgação / Paris Filmes

Relançar clássicos não é novidade, mas virou epidemia. De Interestelar a Harry Potter, de Titanic a O Rei Leão, os cinemas andam mais cheios de nostalgia do que de novidade. E não dá pra negar: funciona. O público vai, revive, chora, posta nos stories. Mas também levanta uma questão importante: será que estamos tão carentes de originalidade que preferimos revisitar o passado a arriscar no presente? Ou será que, simplesmente, ninguém faz mais filme adolescente com a mesma entrega dramática e trilha sonora inesquecível?

Por que todo mundo tá relançando tudo?

A resposta é simples e complexa ao mesmo tempo. Primeiro, porque dá dinheiro. Segundo, porque estamos todos emocionalmente esgotados e queremos aquele abraço quentinho do passado. Terceiro — e talvez mais cruel — porque a indústria está travada.

Segundo especialistas, os relançamentos funcionam como estratégia de baixo risco. É mais barato remasterizar e redistribuir um sucesso consolidado do que apostar milhões em roteiros originais que podem não emplacar. Além disso, há o fator geracional: quem viu Crepúsculo, hoje tem quase 30 ou mais, ou seja, poder de compra e vontade de se reconectar com aquela versão mais inocente de si mesmo está mais presente do que nunca.

É sempre bom e até nostálgico de maneira positiva rever filmes que trazem lembranças emocionais. Mas existe uma dificuldade nas produtoras em trazer novas franquias, novos filmes impactantes, não só falta de criatividade, mas a nova geração exige mais experiência, mais inovações”, comenta Maurilio Moriyama, diretor-executivo Roxy.

Só que tem um porém. Enquanto a gente celebra Edward Cullen de volta (e aquela cena da floresta em HD), Hollywood segue produzindo cada vez menos histórias autorais. Franquias dominam, sequências se multiplicam, remakes pipocam. O cinema virou um loop seguro — e às vezes entediante.

O que Crepúsculo tem que a gente ainda quer?

Vamos combinar: Crepúsculo é cafona, melodramático, tem diálogos questionáveis e uma química meio estranha entre os protagonistas. Mas é exatamente isso que a gente ama. É adolescente no sentido mais puro: intenso, desajeitado, cheio de certezas equivocadas e sentimentos gigantes.

A saga capturou um momento. Foi uma das últimas grandes febres teens antes das redes sociais dominarem tudo. Antes de spoilers instantâneos, antes de todo mundo ser crítico de cinema. Era só você, a pipoca, aquele vampiro pálido e o dilema existencial de “amar alguém que poderia literalmente te matar”

Além disso, Crepúsculo nos ensinou algo valioso: não precisamos nos levar tão a sério. Podemos gostar de coisas “ruins” e ainda assim nos divertir. Podemos reconhecer os problemas da saga (e são muitos) e ainda assim sentir aquele arrepio quando “Decode”, do Paramore, começa a tocar.

E Santos nisso tudo?

O Roxy sempre foi o templo dos grandes lançamentos em Santos. Quem viu Crepúsculo por lá, sabe: era evento, gente fantasiada, gente chorando e desmaiando (sério, conheço uma pessoa que desmaiou assistindo Crepúsculo) cantando a trilha no corredor. Agora, com o relançamento, a chance é reviver isso — só que com um filtro de maturidade (e talvez um pouco mais de vergonha alheia).

O cinema já enfrentou muitas ondas, não vai deixar de existir, em primeiro ele se reinventa, hoje temos muito mais conteúdo pra transmitir e muitos eventos diferenciados. Em segundo, cinema é uma experiência social inigualável, todos já fomos ao cinema com o pai, avô, primeira namorada, amigos, memórias são criadas e repassadas”, explica Moriyama.

Mas o relançamento também é um convite à reflexão. Santos tem uma relação forte com cinema: festivais de audiovisual, mostras independentes, cineclubes que resistem bravamente. Ao mesmo tempo, o circuito comercial cada vez mais aposta no seguro. Quantos filmes brasileiros, quantas produções autorais, quantas histórias locais conseguem espaço nas telonas?

Hollywood travou — e a gente paga a conta

O problema não é gostar de Crepúsculo. Mas quando só temos Crepúsculo ou Harry Potter (esse aqui, iria precisar de um outro texto para falar de toda a problemática envolvendo aquela que não deve ser nomeada) ou Avatar (de novo). Ou o remake do remake do reboot. A indústria descobriu que o público responde bem ao conforto emocional, então virou fórmula: pegue algo que já deu certo, jogue uma camada de tinta nova e venda como experiência.

Enquanto isso, roteiristas originais lutam por espaço, diretores autorais ficam restritos a plataformas de streaming e o cinema vira museu de si mesmo. É uma lógica mercadológica compreensível, mas artisticamente pobre. Estamos consumindo cada vez mais e criando cada vez menos.

Não é sobre achar as sagas ruins, e sim questionar por que Hollywood acha que as pessoas não aguentam mais nada novo, sobre cobrar ousadia e lembrar que, lá atrás, Crepúsculo também foi arriscado – e deu certo justamente porque era diferente.

Então, vale ir?

Claro que vale. Vá com amigos, vá sozinho, vá com quem você debatia team Edward x team Jacob. Ria das cenas que envelheceram mal, chore nas que ainda funcionam, cante “Supermassive Black Hole” sem vergonha nenhuma. Nostalgia é gostosa, e não tem nada de errado em celebrá-la.

Mas enquanto você estiver lá, sentado na poltrona do cinema, de olho na tela gigante, vale a reflexão: o que você gostaria de ver sendo criado agora?

Porque no fim das contas, a gente merece tanto o conforto do passado quanto a emoção do novo. Merece rever Crepúsculo e descobrir  novas narrativas para toda uma geração. Merece nostalgia mas também originalidade. Queremos Bella e Edward, mas também e histórias que ainda nem sabemos que existe.

Vitor Fagundes
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