Clique aqui e confira também nosso tema da semana

6 escritoras da Baixada Santista para você conhecer

Elas estão transformando a cena literária da Baixada Santista e provam que, independentemente do estilo, não faltam talentos por aqui

Tempo de leitura: 8 minutos

A Baixada Santista sempre revelou artistas, músicos e gente que transforma cultura em resistência. Mas existe outro movimento acontecendo há bastante tempo por aqui e que merece a nossa atenção: mulheres que estão escrevendo histórias, formando leitores, conquistando prêmios e levando o nome da região para muito além das nossas fronteiras geográficas. 

Seis mulheres diversas, algumas segurando livros, em diferentes cenários que remetem a eventos literários e autoria.

Entre romances, fantasia, poesia, literatura infantil, pesquisa acadêmica sobre quadrinhos e projetos que aproximam os livros da comunidade, elas mostram que a cena literária local está mais viva do que nunca.

Reunimos 6 autoras com trajetórias diferentes, mas que compartilham a mesma certeza: talento nunca faltou por aqui. 

1. Marcella Rossetti 

Marcella Rossetti nasceu em Santos e construiu carreira com a série Filhos da Lua, fantasia urbana que mistura elementos sobrenaturais com cenário brasileiro.

Em 2025, durante a Bienal do Livro do Rio, conquistou o Prêmio Amazon de Literatura Jovem com Caixa de Silêncios, publicado pelo selo Pitaya, da HarperCollins Brasil. No mesmo ano, levou também o Grand Prêmio Aberst.

A trajetória de Marcella com Filhos da Lua começou bem antes do holofote de 2025. O primeiro volume, O Legado, saiu em 2016 pela Avec Editora e já trazia Santos como cenário principal, com a protagonista Bianca circulando por praças, ruas e pontos reais da cidade.

De lá pra cá a saga cresceu: ganhou continuações como Legado Sombrio e O Legado Esquecido, além do conto Noite Eterna, contemplado pelo incentivo cultural Aldir Blanc em Santos. Antes de virar autora em tempo integral, Marcella também deu aulas de história no Colégio Presidente Kennedy, o que talvez explique o cuidado com contexto e construção de mundo que marca sua ficção.

2. Cissa Martins

Cissa nasceu em São Paulo em 1978. Mas desde 1991 mora em Itanhaém, cidade onde construiu uma linda carreira dedicada à educação e à literatura.

É formada em Pedagogia e História, com pós-graduação como intérprete de Libras. Atua como professora de Educação Infantil na rede municipal de ensino, mas o trabalho com as crianças vai além da sala de aula. A autora do livro infantil “O Menino Caiçara”, lançado em 2026 que resgata a memória do pintor Benedito Calixto e as tradições caiçaras também é contadora de histórias.

Criou o Grupo Griô, projeto que leva a tradição oral pra dentro das escolas através de contações que despertam o gosto pela leitura e fortalecem o vínculo das crianças com a cultura. Pra ela, contar histórias vai muito além de narrar fatos. É criar memória, despertar emoção e formar leitores mais sensíveis.

3. Cynthia Panca

Cynthia Panca nasceu em Santos. Foram 16 anos como advogada até a escrita virar profissão de fato: hoje ela é poeta, editora independente e coordenadora de bibliotecas comunitárias, e garante que não sente falta nenhuma de redigir peças jurídicas.

A estreia em livro veio em 2019, com Infinitude do SER. Depois vieram Conto-te Encantos (2021, contemplado pelo edital Aldir Blanc via SECULT Santos), Poê Tupinambá Segue o Céu para Plantar (2023) e Clareia (2024, via Lei Paulo Gustavo). O próximo, Opus Vitae Poesias, está a caminho pela Atelier do Universo Edições, selo que ela também usou pra lançar a autora cubatense Graziela Santos.

Cynthia integra coletivos como o Mulherio das Letras Baixada Santista e fundou o Viva Fluida Coletivo Cultural, certificado Ponto de Cultura pelo Ministério da Cultura. Coordena duas bibliotecas comunitárias, entre elas a Vila dos Criadores, vencedora do Troféu PROLER/UNISANTA e contemplada com o Selo PROLER Bibliotecas. É titular da cadeira de literatura no Conselho Municipal de Cultura de Santos e ocupa a cadeira 21 na ANACLA.

Em julho, participa da 24ª FLIP Paraty em três mesas diferentes, incluindo o lançamento da antologia Nós, textos femininos, na qual assina o conto “Vivi”.

4. Maria Bernadete Bernardo de Oliveira

Maria mora em Praia Grande há 22 anos. Aposentada da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, é formada em Letras pela Faculdade Metodista de São Paulo.

A leitura vem desde a infância, começando pelos gibis. Mas foi só depois de se aposentar que sobrou tempo pra escrever. Em 2017 e 2018 participou do Primeiro Curso Livre de Escrita Literária da Baixada Santista, promovido pelo NIP (Núcleo de Incentivo à Palavra), em Santos.

Publicou o primeiro livro, Primeiros Versos, em 2018. Depois vieram Uma Vida Simples (2020), Olhai as Estrelas (2021), Busco as Flores (2023) e, só em 2025, mais dois: Outonos e De Palavras e Silêncios.

Ela integra a Casa do Poeta Brasileiro de Praia Grande e a ALAPG (Academia de Letras e Artes de Praia Grande), onde tem como patrona a poeta Orides Fontela, homenageada na FLIP Paraty deste ano. Ao lado das escritoras Márcia Neves e Renilda Viana, também toca o projeto “Leia com a Gente”: livros espalhados em praças, à disposição de quem quiser ler, de qualquer idade.

5. Carolina Mulero

“Quando me disseram que palavras eram uma forma de magia, levei isso muito a sério”, conta Carolina. Aos seis anos, escreveu sua primeira obra: a história de um pé sem pessoa, protagonista que passa a vida em busca de um propósito até encontrar seu lugar, uma pessoa sem pé.

Por muito tempo, a própria vida de Carolina foi parecida. Ela procurou um espaço onde sua criatividade e seu jeito de ver o mundo fossem bem-vindos. Estudou Publicidade e Propaganda e virou redatora, escrevendo pra marcas como Disney, Heineken, IBM, PepsiCo e AstraZeneca.

Até o dia em que foi procurar um filme do gênero favorito: thriller com toque de magia e olhar mais feminino sobre o mundo. Já tinha visto praticamente tudo. Então pensou: por que ninguém escreve uma história assim? Até lembrar que ela mesma sabia escrever.

Foi assim que nasceu O Grimório de Kala, sobre uma bruxa que precisa salvar sua comunidade enquanto escreve seu próprio livro de magia. Anos depois, Carolina percebeu que muitas histórias se perdem porque nem todo mundo consegue colocá-las no papel. Daí veio a Lunet, iniciativa artística que transforma memórias e vivências em livros personalizados de memória afetiva.

6. Laluña Machado

Laluña Machado é historiadora, pesquisadora, curadora e escritora baiana, especializada em quadrinhos e suas relações com a história, a política e a cultura. É graduada em História pela UESB e pós-graduada em Docência e Prática no Ensino de História.

Há mais de dez anos pesquisa a linguagem dos quadrinhos, com destaque pro Batman: personagem que usa como ponto de partida pra discutir memória, democracia, urbanização, violência, racismo e educação. O objetivo é claro. Aproximar a pesquisa acadêmica do grande público, juntando cultura pop e ciências humanas.

A trajetória já rendeu três Troféus HQMix, prêmio que a coloca entre as principais referências brasileiras da área. Laluña também integrou o júri técnico do CCXP Awards na categoria Histórias em Quadrinhos e do Prêmio Mapinguari, além de ter fundado o Grupo de Estudos e Pesquisas HQuê? na UESB.

Em Santos, colabora com a Gibiteca Municipal e a Secretaria de Cultura em projetos de preservação da memória dos quadrinhos e formação de leitores. É curadora da área de Histórias em Quadrinhos do Festival Geek Santos.

Seu novo livro, Gotham Pensa, usa anos de pesquisa pra analisar o Batman como fenômeno histórico e cultural, e não apenas como ícone isolado dos super-heróis. O livro mostra como suas diferentes fases dialogam com os contextos políticos, econômicos e sociais de cada época.

Seis nomes, seis trajetórias, um ponto em comum

Cada uma dessas escritoras encontrou um caminho diferente para chegar aos leitores. Elas transformam escolas, bibliotecas, praças e projetos culturais em espaços onde a literatura acontece todos os dias. Além disso, todas ajudam a fortalecer uma cena literária que cresce de forma coletiva na Baixada Santista.

Conhecer essas autoras também é uma forma de reconhecer a potência cultural da região. Afinal, grandes histórias não nascem apenas nos grandes centros. Elas também surgem entre ruas, praias e bairros que fazem parte do nosso cotidiano.

E, se depender dessas mulheres, a literatura produzida na Baixada Santista ainda vai ocupar muito mais espaço nas estantes, nos eventos e, principalmente, na memória de quem gosta de boas histórias.

Onde encontrar cada uma:

Compartilhar
Vitor Fagundes
Texto por

Contato