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Vila Socó: quando o mangue ardeu no maior incêndio da história do Brasil

Cubatão vive uma cicatriz que ainda não curou desde os anos 1980

Tempo de leitura: 9 minutos

Na madrugada de 24 de fevereiro de 1984, quando o vento carregava o cheiro salgado do estuário e das chaminés das indústrias de Cubatão, um outro cheiro começou a tomar conta das palafitas: gasolina. Por horas, o aviso para a cidade inteira veio em forma de ardência nas narinas, de incômodo nos olhos, de pressentimento compartilhado entre vizinhos que se conheciam pelo nome e pelo sotaque de quem tinha deixado o Nordeste para tentar a sorte na Baixada Santista.

O silêncio da noite se rasgou em fogo na Vila Socó.

Alimentadas por 700 mil litros de combustível, sa labaredas correram por baixo das casas. Relatos dão conta de que alcançaram 1.000 graus Celsius de temperatura, transformando madeira, corpos e memórias em cinzas rapidamente. O que aconteceu ali – e o que tentaram esconder depois – foi o maior incêndio da história do Brasil em número de vítimas. 

www.juicysantos.com.br - Vila Socó: o mangue ardeu no maior incêndio da história do BrasilFoto: Walter Mello/Arquivo Jornal A Tribuna

Esse ataque ao direito de existir de uma comunidade inteira entrou para a história como um crime concretado sobre o trauma, a impunidade e o apagamento de um pedaço fundamental da nossa identidade na região. 

O incêndio da Vila Socó, em Cubatão, é uma das maiores tragédias industriais do Brasil e um trauma ainda aberto na memória das 9 cidades.

A história da Vila Socó

Também conhecida como Vila São José, a favela de palafitas estava fincada no mangue, à beira da Via Anchieta, sobre e ao redor de oleodutos da Petrobras que ligavam a Refinaria Presidente Bernardes, em Cubatão, ao terminal da Alemoa, em Santos. Entre 1979 e 1984, viviam ali cerca de 6 mil pessoas em condições precárias, com casas de madeira e ausência de saneamento, moradia e infraestrutura básicas, apesar de Cubatão ser área de “segurança nacional” pela concentração industrial.

Na noite de 24 de fevereiro, durante a transferência de combustíveis, uma tubulação corroída não suportou a pressão, houve vazamento em pleno mangue e a gasolina se espalhou pela maré sob as palafitas. Moradores sentiram forte cheiro de combustível por cerca de 12 horas antes da explosão, mas nem Petrobras nem autoridades evacuaram o local.

Por volta das 23h30, uma faísca – possivelmente de curto-circuito ou fósforo – desencadeou o incêndio, que se espalhou pela superfície do mangue como uma língua de fogo, consumindo mais de mil barracos em poucas horas. 

www.juicysantos.com.br - vila socó - memorial da democraciaFoto: Ariovaldo dos Santos/Memorial da Democracia

Os números oficiais falam em 93 mortos e cerca de 3 mil desabrigados, mas sobreviventes, a Comissão da Verdade da OAB de Cubatão, estudos acadêmicos e documentos levantados pelo Ministério Público apontam entre 508 e até 700 vítimas fatais. 

Muitas delas eram crianças e famílias inteiras que simplesmente desapareceram das listas escolares e dos registros de moradores.

O saudoso jornalista Manuel Alves Fernandes, que trabalhava em A Tribuna e conhecia Cubatão como a palma de sua mão, se lembra de ter visto as cenas mais apavorantes de sua vida. Uma delas era uma mulher grávida abatida pelo fogo e expelindo o bebê do próprio corpo. O relato faz parte da excelente Revista Cuipatã, coletânea de ensaios e literatura lançada em dezembro de 2025 para registrar os 40 anos da tragédia social e ambiental. 

www.juicysantos.com.br - Vila Socó: quando o mangue ardeu no maior incêndio da história do Brasil

Essa distância entre os dados oficiais e a memória local transformou a Vila Socó em símbolo de apagamento, impunidade e de uma política deliberada de minimizar a dimensão do acontecimento para proteger a imagem da empresa estatal e do regime da época.

Impossível não lembrar e não traçar paralelos contemporâneos com Brumadinho, Mariana e Maceió. 

Crime, e não acidente

Para juristas e ativistas de direitos humanos da região, o incêndio não pode ser tratado apenas como “acidente industrial”, mas como crime previsível, decorrente da falta de manutenção de dutos e da permanência de uma favela inteira sobre uma área de risco conhecida.

A chamada “operação abafa” teria combinado a subnotificação de corpos, a pressa em retirar e enterrar restos mortais, a tentativa posterior de incinerar 22 volumes de processos físicos e uma narrativa oficial que insistia em menos de uma centena de mortos, apesar das evidências em contrário.

Mais de 30 anos depois, comissões da verdade estaduais e da OAB ainda discutiam levar o caso à Corte Interamericana de Direitos Humanos, sustentando que o Estado brasileiro deveria ser responsável por omissão, violação do direito à memória e à verdade e por não punir nenhum responsável. 

Todos os condenados em primeira instância foram absolvidos após recursos.

Essa permanência da impunidade alimenta o trauma coletivo e reforça a sensação de que vidas pretas, pobres, migrantes e da periferia industrial da Baixada Santista valem menos. 

Mistura de Nordeste, periferia urbana e cultura caiçara

A população da Vila Socó era majoritariamente composta por trabalhadores e trabalhadoras pobres, em grande parte migrantes nordestinos que chegaram à Baixada Santista entre as décadas de 1960 e 1980 em busca de emprego no polo industrial de Cubatão e na cadeia portuária de Santos.

Relatos e reportagens indicam uma comunidade formada “em sua imensa maioria” por pretos, pobres e migrantes, que construíram palafitas sobre o mangue porque a cidade não lhes oferecia alternativas de moradia formal, apesar da riqueza gerada ao redor. 

Os censos e levantamentos da época apontam pouco mais de 6 mil habitantes em cerca de 600 a 1.200 barracos, embora sobreviventes falem em até 12 mil moradores e mais de 2.500 casas. Ou seja, mais uma evidência de subregistro.

Havia crianças, famílias numerosas, idosos, trabalhadores da indústria, do cais do porto e do setor de serviços, formando um bairro operário típico da Baixada Santista, em que o mangue, o rio e a fumaça das chaminés conviviam com o sonho de “ganhar a vida” no litoral.

www.juicysantos.com.br - vila socó - memorial da democraciaFoto: Ariovaldo dos Santos/Memorial da Democracia

Essa história de migração, luta por moradia e vulnerabilidade ambiental aproxima Vila Socó de outras ocupações da região, mas sua localização em plena “Cidade Símbolo da Poluição” e depois “Símbolo de Recuperação Ambiental” torna o caso emblemático da desigualdade na gestão do território. 

E depois do incêndio?

Após o incêndio, a área da Vila Socó foi aterrada pela Petrobras, os oleodutos, soterrados e a região ressurgiu urbanisticamente, dando origem à atual Vila São José. Em convênio com a prefeitura, a empresa construiu um núcleo residencial com cerca de 400 casas de alvenaria, dotado de escola, creche, posto de saúde e infraestrutura, para abrigar parte das famílias sobreviventes.

www.juicysantos.com.br -  vila socó incêndioFoto: Reprodução Novo Milênio da Revista Brasil Extra de agosto de 1984

A partir de 2017, a Vila São José iniciou um processo de regularização fundiária. E, em 2019 essas famílias passaram a receber as escrituras definitivas, consolidando um novo capítulo de pertencimento ao território – agora como proprietárias de um lugar que nasceu do trauma.

Hoje, a Vila São José mantém vivo um tecido comunitário que, mesmo transformado, guarda lembranças diretas e indiretas da antiga Vila Socó.

O reconhecimento internacional de Cubatão, na ECO-92, como “Cidade Símbolo de Recuperação Ambiental” se apoia também em medidas adotadas após o desastre, como o reforço do controle de dutos e a criação de planos de emergência, como o Plano de Auxílio Mútuo (PAM) e o Plano de Contingência municipal. Ainda assim, para muitos moradores e ativistas, essa narrativa de recuperação ambiental convive com a sensação de que a memória das vítimas segue incompleta, sem monumento à altura e sem o feriado municipal reivindicado pelos movimentos locais.

Arte e cicatrizes

A obra “Vila Socó, Meu Amor”, de Gilberto Mendes, composta em 1984 para coro feminino a cappella, se tornou um marco da Música Nova. Inspirada no filme “Hiroshima mon amour”, a música homenageia os mortos da vila e denuncia a exploração do trabalhador industrial, registrando em forma sonora o luto da região e afirmando que “não devemos esquecer nossos irmãos da Vila Socó, transformados em cinzas, lixo em pó”.

Ao colocar Vila Socó ao lado de Hiroshima em uma chave poética, Mendes elevou a tragédia periférica da Baixada a um lugar universal.

www.juicysantos.com.br - vila socó em cubatão espetáculo coletivo 302

Após 30 anos do incêndio, a peça “Vila Socó”, do Coletivo 302 (foto), surgiu como uma obra de teatro itinerante que percorre as ruas e memórias da vila, fechando uma trilogia industrial e revisitando os 40 anos do incêndio. O espetáculo tem como narrador um menino-bicho de mangue, vindo do Nordeste, que atravessa lama, cal e tempo em busca da família que migrou para ganhar a vida no litoral paulista e se deparou com a principal tragédia industrial do país, tratada como “crime concretado e abafado” sob o silêncio da ditadura civil-militar. 

Ao montar suas memórias como um quebra-cabeça, essa figura híbrida de criança, migrante e ser do mangue reabre a ferida coletiva, mas também oferece um caminho de elaboração do trauma pela arte ao transformar dor em narrativa compartilhada.

Em uma cidade acostumada a ver suas tragédias reduzidas a estatísticas, a arte devolve nomes, rostos e afeto às vítimas. 

E, em 2025, sai a Revista Cuipatã, com entrevistas, ensaios, artigos, poemas e outros formatos de autoria de nomes fortes da cultura local. 

www.juicysantos.com.br - Vila Socó: quando o mangue ardeu no maior incêndio da história do Brasil

Em comum, as 3 obras se conectam com eventos, murais, reportagens e movimentos comunitários para consolidar uma identidade santista-cubatense que pode cair no esquecimento. 

Por que ainda precisamos falar de Vila Socó? 

Contar sobre a Vila Socó em 2026 é trazer à luz um trauma que não terminou. Muitas famílias nunca tiveram seus mortos oficialmente reconhecidos, a disputa por números continua, e ninguém cumpriu pena pelas omissões que permitiram que um vazamento de horas se transformasse em desastre. Esse cenário de impunidade alimenta o sentimento de apagamento.

Sem memória, tudo pode se repetir em outro mangue, em outro bairro, com outras famílias da Baixada Santista. 

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