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Vila Sapo, a comunidade invisível da Ponta da Praia

Comunidade ganhou conjunto habitacional de R$ 25,2 milhões, mas por que só falamos das periferias santistas quando tem obra pronta?

Tempo de leitura: 4 minutos

Enquanto você passeia pela orla ou confere os lançamentos imobiliários da Ponta da Praia, provavelmente nunca ouviu falar da Vila Sapo.

A comunidade que ocupa um terreno estratégico entre o Mercado de Peixe e os terminais portuários desde o início dos anos 1960 raramente apareceu nos holofotes. No dia 22 de janeiro de 2026, 136 famílias receberam as chaves do Residencial Novo Horizonte, conjunto habitacional de R$ 25,2 milhões que encerra décadas de invisibilidade e luta por dignidade.

www.juicysantos.com.br - Vila Sapo a comunidade invisível da Ponta da PraiaImagem retirada do Google Maps

A história levanta uma questão incômoda: por que precisamos esperar a entrega de um prédio para finalmente falar sobre quem sempre esteve aqui?

O nome que ninguém conhecia

Vila Sapo.

O apelido vem do terreno original, área baixa, úmida e propensa a alagamentos antes da urbanização. Assim como acontece em outras periferias pelo Brasil, o nome carrega tanto a geografia quanto o descaso. Cerca de 70 famílias viveram ali por mais de seis décadas, muitas trabalhando no porto e na pesca, mas a comunidade nunca entrou no roteiro turístico da Ponta da Praia. Não estava nas matérias sobre valorização imobiliária e nem nos debates sobre mobilidade urbana.

Estava ali, invisível, como tantos outros núcleos que sustentam a cidade enquanto a cidade finge que não existem.

A ocupação começou nos anos 1960, em terreno da União. Durante décadas, as famílias viveram sob ameaça de despejo, em barracos sem saneamento básico, enquanto ao redor cresciam condomínios de luxo. A proximidade com o trabalho justificava a permanência. A falta de alternativa também.

Quando a periferia vira notícia

O Residencial Novo Horizonte é fruto de uma batalha que começou com Dona Josefa, líder comunitária que passou a vida brigando pela regularização. Ela morreu em 2022, sem ver o sonho concretizado. Quem assumiu a luta foi o filho, Bruno Melo da Cruz, presidente da Associação dos Moradores.

www.juicysantos.com.br - Novo HorinzonteFoto: Prefeitura de Santos/Francisco Arrais

O conjunto tem um edifício com térreo e 11 andares. As unidades possuem cerca de 50m², com dois dormitórios, sala, cozinha e banheiro. Aproximadamente 50 apartamentos foram destinados à comunidade Vila Sapo. Os demais atendem famílias da Baixada Santista, dentro do programa Minha Casa, Minha Vida.

Foram R$ 12,9 milhões do governo federal, R$ 12,3 milhões do estado, parceria entre Casa Paulista, Caixa Econômica Federal e a própria associação de moradores. A Prefeitura de Santos, via Cohab Santista, acompanhou desde o projeto.

O mapa que a gente não aprende

Santos tem memória seletiva. Sabemos tudo sobre a bolsa do café, o Gonzaga, o cinema mais antigo da cidade. Mas quantos conhecem a história do Macuco, que abrigava lugares com nomes como Pau Grande, Sovaco da Mula e Vila Sapo? Essas comunidades existem há décadas, mas raramente aparecem nos livros escolares ou nos passeios históricos.

Nomes que desapareceram do mapa, mas não da vivência de quem sempre morou aqui. A invisibilidade não é acidental, é estrutural. Periferias e comunidades de baixa renda costumam entrar no noticiário apenas em duas situações: tragédia ou entrega de obra. No resto do tempo, seguem existindo sem que ninguém conte suas histórias.

O que falta além do tijolo

O Residencial Novo Horizonte é uma vitória concreta, mas habitação não é só teto. As famílias terão acesso a escolas, creche, unidade de saúde e postos de segurança. Contudo, resta saber se os serviços públicos vão acompanhar o ritmo da ocupação. A infraestrutura do entorno está preparada? O transporte público atende bem a região?

Perguntas que precisam de resposta antes que a foto da entrega das chaves vire apenas mais uma notícia esquecida.

Santos completou 480 anos em janeiro de 2026. A cidade que se orgulha da sua história precisa incluir todas as histórias, não só as que cabem nos cartões-postais. A Vila Sapo resistiu por mais de 60 anos. Agora tem nome, endereço e dignidade reconhecida. Outras comunidades seguem esperando a vez.

Qual será a próxima vila que a gente vai finalmente conhecer?

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