Treze anos sem Chorão: quando Santos perdeu seu filho mais rebelde
Em 6 de março de 2013, Santos acordou com uma notícia que parou o Brasil. Uma década e três anos depois, o legado do vocalista do Charlie Brown Jr. segue vivo — nas ruas, nos shows e numa disputa jurídica que envolve até o Snoopy
Tem gente que nasce na cidade. Tem gente que faz a cidade.
Alexandre Magno Abrão nasceu em São Paulo, mas foi em Santos que nasceu Chorão. Ele se tornou quem o Brasil aprendeu a amar e a sentir falta. Foi aqui, entre os canais e a orla, que ele fundou o Charlie Brown Jr. em 1992. Foi aqui que viveu sua história de amor com Graziela Gonçalves. E foi aqui, no ginásio Arena Santos, que ele foi velado em março de 2013, com o caixão coberto pela bandeira do Santos F.C. e um skate ao lado.
Foto: Rodrigo Bertolino/Creative Commons
No dia 6 de março de 2026, completam-se 13 anos da morte do cantor. E, por mais que o tempo passe, Santos ainda não acabou de processar essa perda.
De Santos para o Brasil e de volta para Santos
A história do Charlie Brown Jr. começa numa tempestade. Literalmente.
Era um dia de chuva forte em Santos. O carro de Chorão boiou na enxurrada e foi parar numa barraca de coco. O nome da barraca: Charlie Brown. Ele viu o personagem desenhado na estrutura e sentiu o que sempre chamou de sinal. Mas a escolha do nome não foi só poesia do acaso.
O próprio Chorão explicou os dois motivos que tornaram o nome perfeito. O primeiro era pessoal:
“Eu me identifico um pouco com a personalidade dele, porque eu sou chorão e ele vive reclamando, insatisfeito.”
O segundo era estratégico. O “Jr.” foi acrescentado com intenção clara. Nas palavras dele:
“A gente não colocou Charlie Brown para não vincular totalmente ao desenho, porque não era só isso. Era uma proposta de banda de rock que ia falar de assuntos diversos, fugia da temática do personagem.”
Além disso, havia um significado geracional naquelas letras finais. Chorão via o grupo como herdeiro de algo maior:
“Colocamos o Júnior porque somos, talvez, os últimos dessa geração dos anos 90, que é tão importante para a música brasileira.”
Portanto, o nome não foi só um acidente numa noite de chuva. Foi uma declaração de identidade.
Dali saiu um som que misturava rock, rap e reggae como ninguém havia feito antes no Brasil. A banda lançou 10 álbuns, vendeu mais de 5 milhões de cópias e criou trilhas sonoras para uma geração inteira de jovens das grandes cidades, do Gonzaga ao Jabaquara, de São Paulo ao interior do Nordeste. Músicas como Proibida Pra Mim, Zoio de Lula e Céu Azul ainda tocam no celular de quem hoje tem 30, 40 anos. E de quem tem 15.
Santos está presente em tudo isso como personagem e cenário das aventuras, dores e reflexões do artista.
A dor que ele carregava e que o Brasil não via
Por trás dos shows lotados e das letras que falavam direto ao coração de uma geração, Chorão vivia uma batalha silenciosa.
Graziela Gonçalves, sua companheira por quase 20 anos, descreveu com precisão no livro Se Não Eu, Quem Vai Fazer Você Feliz? o que acontecia nos bastidores. A dependência química havia mudado o homem que ela conhecia.
“O nosso amor estava abalado, não tinha como ser de outra forma. Parecia impossível fazer qualquer plano para o futuro, e a droga já havia provocado mudanças reais no comportamento dele. Mentiras tinham se tornado comuns.”
A insatisfação era permanente e paradoxal. Chorão tinha sucesso, reconhecimento, dinheiro. Contudo, nunca havia se sentido tão perdido. Num dos relatos mais tocantes do livro, Graziela conta que, em 2012, o músico tentou se tornar bombeiro. Foi até o quartel perto de onde moravam em Santos. Voltou com o rosto molhado de lágrimas. A idade já não permitia.
“O Alê, que todos conheciam como Chorão, tinha alcançado tudo o que um dia sonhara para a sua vida. No entanto, nunca havia se sentido tão infeliz.”
Aquela frustração aprofundou algo que já estava rachado por dentro. Além disso, ninguém ao redor tinha coragem de tocar no assunto. Graziela escreveu que o músico era o patrão e não admitia que se falasse em tratamento. Esse silêncio, tão comum em casos de dependência química, cobra um preço alto. Às vezes, o preço mais alto possível.
Em 6 de março de 2013, o motorista do músico encontrou seu corpo no apartamento em Pinheiros, São Paulo. O laudo do IML confirmou: overdose de cocaína, agravada por problemas cardíacos. Chorão tinha 42 anos.
Dependência química não é fraqueza. É doença
A história de Chorão é também a história de muita gente que vive em Santos, em qualquer cidade do Brasil.
A depressão e a dependência química raramente chegam sozinhas. Uma alimenta a outra. E as duas têm em comum uma característica cruel: fazem a pessoa acreditar que não precisa de ajuda, que consegue resolver por conta própria, que os outros não vão entender.
No velório, Graziela falou para quem estava ali e para quem ouvia pelo Brasil:
“Eu tentei de tudo que vocês podem imaginar. Mas, infelizmente, essa praga mundial que é a cocaína, que está acabando com tudo, ganhou. Eu espero que outras famílias e outras pessoas não passem pelo que estou passando.”
Esse apelo não envelheceu. Pelo contrário.
Buscar ajuda não é sinal de fraqueza. É o ato mais corajoso que uma pessoa em sofrimento pode praticar. E quem está ao redor de alguém nessa situação tem um papel fundamental: não silenciar por medo de ofender, não normalizar porque “ele é assim mesmo”, não esperar o fundo do poço.
Em Santos, o CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) oferece atendimento gratuito para pessoas com transtornos mentais e dependência química. O CVV (Centro de Valorização da Vida) atende pelo telefone 188, 24 horas por dia. Sempre é tempo de procurar ajuda.
A cidade que não esquece
Quando o caixão chegou a Santos, a cidade parou.
O velório no Arena Santos reuniu multidões. Enterraram com ele um skate, esporte que ele popularizou no Brasil ainda nos anos 90, com as calças largas e o boné de aba reta que viraram uniforme de uma geração. Frases deixadas pelos alunos de suas escolinhas de skate foram junto também.
Desde então, Santos incorporou Chorão ao seu imaginário coletivo de uma forma que pouquíssimas cidades conseguem fazer com seus filhos ilustres. Grafites de sua imagem espalhados pelas ruas e uma pista pública de skate que leva seu nome no Quebra-Mar nos fazem lembrar diariamente dele.
A cidade serviu de cenário para as filmagens da cinebiografia Se Não Eu, Quem Vai Fazer Você Feliz?, que deve chegar aos cinemas ainda este ano. O Juicy Santos acompanhou de perto as gravações pelas ruas da cidade, quando o ator José Loreto foi visto na Praça da Independência e em outros pontos históricos completamente transformado em Chorão. Tão fiel que alguns moradores chegaram a levar susto.
A direção fica por conta de Hugo Prata e Felipe Novaes, os mesmos do documentário Chorão: Marginal Alado (2019). O roteiro é de Duda de Almeida, premiada por Sintonia e LOV3.
O filme foca na história de amor entre Chorão e Grazi e promete ser uma janela para que novas gerações entendam quem foi esse homem além dos palcos.
O nome que o Snoopy disputa
O legado de Chorão não vive só de memória afetiva. Vive também, ou talvez principalmente, no campo jurídico.
Depois de sua morte, a família travou uma batalha pelos direitos da marca Charlie Brown Jr. O inventário definiu que Graziela ficaria com 45% dos direitos de imagem e produtos relacionados ao cantor e à banda. O filho, Alexandre Lima Abrão, com 55%.
Mas então surgiu um rival improvável: a Peanuts Worldwide LLC, empresa americana dona do personagem que, numa noite de tempestade em Santos nos anos 90, inspirou o nome da banda. Em decisão do INPI publicada no final de 2025, o Juicy Santos noticiou que os herdeiros perderam o registro da marca para a empresa americana, que argumentou que a lei brasileira não permite registrar como marca uma obra literária protegida por direitos autorais sem autorização do titular.
A família recorreu. Os advogados afirmam que a marca está consolidada na cultura musical brasileira e sempre estará vinculada ao Chorão. A disputa segue.
Treze anos de saudades
Chorão era difícil. Centralizador. Às vezes explosivo. Quem leu o livro da Grazi ou assistiu ao documentário sabe que a história não é simples. E é exatamente por isso que ela é verdadeira.
O que fica, 13 anos depois, é muito mais do que a imagem plastificada de um ídolo. O cara tinha tudo e não conseguia se sentir em paz. Ele popularizou o skate no Brasil, vendeu milhões de discos, escreveu letras que tocam até hoje e não conseguiu se salvar da própria angústia.
Santos guarda isso. Com o orgulho e com a complexidade que o assunto merece.
A cidade que o viu fundar uma banda num dia de chuva, que recebeu seu caixão coberto de bandeiras, que agora vê atores percorrendo suas ruas para recontar sua história, essa cidade sabe que Chorão não foi um ídolo de plástico.
Foi gente. Muito gente.
E talvez seja isso que faz a dor durar tanto. Mas também o que faz o legado durar mais.
Se você ou alguém próximo está passando por um momento difícil com saúde mental ou dependência química, o CVV atende pelo 188, 24 horas por dia, todos os dias. O CAPS de Santos oferece atendimento gratuito, saiba mais no portal da Prefeitura de Santos.