Tio Emerson: conheça o salão infantil em Santos para crianças atípicas
Um corte de cabelo pode ser um desafio e tanto, mas um santista criou um jeito próprio de tornar essa experiência mais tranquila para crianças atípicas.
Emerson Diniz aprendeu cedo que algumas coisas começam meio sem querer.
Antes de existir o Tio Emerson, existiu um menino criado perto da Rua Oswaldo Cruz, com frutas no quintal de casa e disposição para vendê-las na feira da Pedro Lessa.
Aos 12 anos, ele também descobriu outra coisa que gostava: salão de barbeiro.
Foto: Henrique Teixeira
O pai cortava o cabelo no Super Centro do Boqueirão, onde uma família de irmãos nordestinos comandava as cadeiras. Emerson ia junto e ficava olhando.
Tinha carro, moto, creme, conversa e movimento. Para ele, aquilo parecia divertido. Então pediu para aprender. Simples assim
Emerson encontrou seu caminho entre tesouras, máquinas e crianças que os outros barbeiros preferiam deixar para depois.
Foi ali que começou uma história que Santos conhece hoje pelo apelido.
Antes do “Tio Emerson”
Aos 12 para 13 anos, durante as férias, fazia serviços gerais. Varrição, café, banheiro e tudo mais que tinha para fazer no salão
Só que tinha uma função que acabou mudando tudo: as crianças.
Os barbeiros mais velhos não gostavam de atender os pequenos. Elas choravam, se mexiam e transformavam um corte de cabelo em uma operação que exigia paciência. E por sorte ele tinha muita, e mais do que isso ele brincava com elas.
Quando uma criança não deixava o barbeiro cortar, Emerson se aproximava. Primeiro veio a franjinha. Depois, o corte inteiro.
“Comecei a cortar o cabelo das crianças no chão”, conta.
A cena parece improvável hoje. Na época, foi o começo de uma carreira. As mães começaram a perceber que o menino conseguia fazer aquilo que profissionais experientes não conseguiam. Os clientes então fizeram uma espécie de campanha informal.
Queriam Emerson numa cadeira. E conseguiram.
“Põe uma cadeira pro menino”, começaram a pedir ao dono do salão.
Ele ganhou o lugar e, aos poucos, deixou de ser o garoto que ajudava no salão para virar o profissional que as famílias procuravam.
O primeiro “Tio Emerson” tinha 15 anos
O apelido também nasceu no improviso. Por volta dos 16 anos, as crianças já chamavam Emerson de tio.
“Eu falei: caramba, virei tio.”
O nome pegou. Mas o que realmente ficou foi o jeito de trabalhar. Emerson percebeu que esperar uma criança ficar completamente parada não era exatamente uma estratégia brilhante.
Então adaptou o próprio corpo, passou a acompanhar os movimentos da criança, levando os braços para frente e para trás.
Era prática antes de virar método e décadas depois, ele daria um nome: Método Especial Kids.
Em 1996, entrou um Fórmula 1 na história
Emerson já tinha conquistado espaço quando decidiu abrir o próprio salão.
Porém em 1996 e nascia o Casarão Kids. E, como toda boa história de empreendedorismo santista, a verba de marketing não veio exatamente de uma agência.
Andando pela Oswaldo Cruz, Emerson encontrou um carrinho de Fórmula 1 jogado fora.
Levou para o salão, adaptou uma estrutura de cadeira de barbeiro e colocou o brinquedo na varanda.
Foto: Henrique Teixeira
A estratégia era simples: deixar as crianças verem.
Funcionou melhor do que muita campanha paga. Elas passavam na frente, olhavam o carrinho e queriam cortar o cabelo ali.
O brinquedo virou atração e Emerson virou cada vez mais o Tio Emerson.
A relação com as crianças ganhou uma característica que acompanharia toda a carreira dele: adaptar o ambiente para que elas conseguissem estar ali.
O corte de cabelo começou a ensinar outra coisa
Foram décadas atendendo crianças.
Só que algumas delas apresentavam comportamentos que Emerson não conseguia explicar no começo. Elas tinham dificuldade com toque, movimento, cabelo caindo sobre o corpo ou determinados estímulos do ambiente.
Na época, muita gente simplesmente chamava de “especial”. Emerson começou a estudar e entendeu melhor o autismo, a hiperatividade, a síndrome de Down e os gatilhos.
A experiência acumulada ganhou novas ferramentas.
O atendimento passou a considerar o que acontece antes, durante e depois da máquina ligar.
Hoje, a equipe conversa com as famílias pelo WhatsApp antes da visita. O espaço também controla iluminação e estímulos visuais.
Há plataforma elevatória, entrada acessível e espelho inclinado para que usuários de cadeiras de rodas acompanhem o próprio atendimento. E, claro, ainda existe espaço para a parte divertida. Balões, máscaras e camisetas de super-heróis ajudam a criança a entender que aquele lugar também pode ser seu.
De “menino que corta cabelo” a professor de outros barbeiros
O método que nasceu da observação das crianças virou curso, palestra e mentoria para outros profissionais.
Ele ensina técnicas de atendimento, segurança e manejo.
Também insiste em uma coisa que talvez seja menos vendável, mas muito mais importante: certificado sozinho não prepara ninguém.
“Não adianta eu pegar um certificado e colocar na parede se eu não sou uma pessoa especializada”, afirma.
Para ele, atender crianças atípicas exige repetição, responsabilidade e disposição para entender aquela criança antes de pensar no corte. A experiência também aproximou Emerson de terapeutas ocupacionais e médicos.
Alguns profissionais passaram a indicar o espaço para famílias.
Em 2024, ele foi convidado para palestrar na Autismo Expo, em São Paulo, evento dedicado ao tema.
A barbearia também precisa aprender a receber
É aqui que a história do Tio Emerson deixa de ser apenas uma história sobre cabelo.
Porque uma criança não escolhe sozinha se vai conseguir entrar, esperar, sentar ou terminar um atendimento.
Existe uma família inteira envolvida.
E, muitas vezes, essa família já chega sabendo que qualquer detalhe pode transformar uma tarefa simples em um problemão.
Uma máquina muito barulhenta, luz forte, uma pessoa desconhecida tocando na cabeça, cabelo caindo no rosto e até mesmo um profissional com menos paciência
Por isso, Emerson defende que a preparação precisa envolver toda a equipe.
A recepção também precisa saber acolher. O ambiente precisa colaborar. O profissional precisa reconhecer quando continuar e quando parar.
E isso vale para muito além de uma barbearia.
“Se você seguir o método, você consegue se proteger e proteger as famílias”, explica Emerson.
A ideia, segundo ele, é aproximar cada vez mais os profissionais da beleza e da saúde.
Emerson acredita, inclusive, que clínicas especializadas poderiam incorporar profissionais preparados para esse tipo de atendimento.
40 anos de história
O espaço do Tio Emerson recebeu a placa Empresa Acessível. Esse reconhecimento integra uma iniciativa municipal que identifica estabelecimentos com elementos de acessibilidade.
Agora, o endereço no Gonzaga recebe famílias que chegam de diferentes estados em busca daquele atendimento que Emerson começou a construir quando ainda cortava franjinhas no chão.
Talvez a maior lição dessa história esteja justamente aí.
Uma cidade acessível não nasce apenas de grandes obras. Também nasce quando alguém olha para uma situação cotidiana e pensa: dá para fazer de outro jeito.
Emerson pensou isso aos 12 anos. E continua pensando aos 54.
Serviço
Tio Emerson Kids
Rua Fernão Dias, 12, sala 34, Gonzaga, Santos
WhatsApp: (13) 99625-7564
Instagram: @tioemersonkids_
O espaço atende principalmente crianças e jovens com TEA, pessoas com deficiência intelectual e pessoas com mobilidade reduzida.