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Teatro Coliseu: o palco que Santos nunca deixou morrer (mas ainda não salvou)

Inaugurado em 1897, o Teatro Coliseu acumula décadas de promessas, reformas e decepções. A mais recente? A obra da segunda etapa custou R$ 800 mil a mais do que o previsto e segue sem data de reabertura

Tempo de leitura: 6 minutos

Entre o vai e vem apressado do Centro Histórico de Santos, existe um silêncio que incomoda. Atrás de suas portas fechadas, o Teatro Coliseu virou um retrato incômodo de uma cidade que reconhece o valor da própria história, mobiliza-se para preservá-la, mas ainda tropeça na hora de devolvê-la viva à população que sempre lutou por ela.

www.juicysantos.com.br - Coliseu o teatro que Santos nunca deixou morrer (mas ainda não salvou)Foto: Prefeitura de Santos/Raimundo Rosa

O peso histórico da cultura

Talvez você nem saiba ao passar em frente ao teatro da Rua Amador Bueno, ao lado do Poupatempo, que está diante de um palco que já teve Cacilda Becker, Carmen Miranda, Villa-Lobos e o Balé de São Petersburgo. Hoje, porém, um dos símbolos culturais mais afetivos da cidade acumula prazos perdidos, aditamentos contratuais e silêncio.

Quando um equipamento cultural histórico fica fechado por anos, todo mundo perde. São escolas que não fazem visitas culturais. São artistas locais sem palco à altura. E espetáculos grandes que não passam pela cidade. Pois é, Santos fica sem um argumento forte para se apresentar ao mundo como referência cultural, não apenas portuária.

www.juicysantos.com.br- teatro coliseu de santos visto da plateia

O Coliseu está fechado há quase sete anos. E a conta continua crescendo

O Teatro Coliseu fechou em dezembro de 2019. A previsão inicial era reabrir no segundo semestre de 2023. Hoje, não existe sequer uma data para isso acontecer.

A caixa cênica deve ficar pronta entre o fim de junho e o início de julho de 2026. São 45 dias de prorrogação a contar de 13 de maio de 2026. O prazo anterior de conclusão era janeiro de 2026. A empresa Malbec Engenharia de Obras Ltda. executa os serviços.

A reportagem do Juicy Santos questionou a Administração Municipal sobre os motivos do atraso, a previsão de reabertura, o custo total após todas as etapas e as garantias de durabilidade. A Prefeitura não respondeu.

O problema não é só técnico, e sim burocrático

Quem acompanha a saga do Teatro Coliseu sabe que os maiores obstáculos não estão nas paredes ou na fiação. Eles estão no modelo de gestão pública do patrimônio histórico.

O processo licitatório permite que empresas de qualquer lugar do Brasil vençam contratos com descontos de até 40%. Só que essas empresas frequentemente ganham sem conhecer a mão de obra local nem a complexidade de um restauro. Assim, quando a empresa percebe que o contrato não cobre os custos reais, abandona a obra.

Além disso, cada novo processo licitatório leva de seis meses a um ano para sair. A troca de gestões municipais também muda prioridades. O Teatro Coliseu atravessou pelo menos três administrações desde 2019.

Outro desafio é conciliar a fidelidade histórica com normas modernas. As cortinas de veludo original precisam ser substituídas por material antichamas, por questões de segurança. Amostras do material devem ir para laboratório antes de qualquer replicação. Cada detalhe exige tempo e dinheiro.

Uma história de promessas repetidas

Em 1897, a construção nasceu como ginásio esportivo e velódromo. Francisco Serrador inaugurou o primeiro teatro no local em 1909. Em 1924, o comendador Manuel Lins Freixo reinaugurou o espaço com grandiosidade: 2.300 lugares e acústica considerada uma das melhores do Brasil, graças a um tanque de água embaixo do palco que potencializava a sonoridade.

Lá, já estiveram Carmen Miranda, Cacilda Becker, Villa-Lobos e Guiomar Novaes. Era parada obrigatória das grandes companhias internacionais que desembarcavam no Porto de Santos.

A decadência chegou nos anos 1950. O teatro cedeu espaço para cartório, farmácia e posto de gasolina nos fundos. Nos anos 1970, passou a exibir filmes pornográficos. Em 1982, os proprietários iniciaram a demolição. Mas a comunidade santista se mobilizou e impediu a destruição total.

Fachada antiga do Cine Coliseu em preto e branco, com o cartaz "PROGRAMA DUPLO", pessoas na calçada e selo S.O.S. Coliseu.

O Condephaat tombou o teatro em 1983. A Prefeitura o desapropriou em 1993. As obras começaram em 1996 e duraram quase dez anos. A reinauguração veio em 2006, com R$ 20 milhões investidos. Sete anos depois, o teatro fechou de novo por tubulação corroída, infiltração e extintores vencidos. Em 2019, uma nova interdição. E assim chegamos até 2026.

A Prefeitura não respondeu por que o Coliseu exige intervenções repetidas, nem se há garantias de que o espaço não voltará a exigir reformas de alto custo.

O que está sendo feito agora?

A segunda etapa, iniciada em novembro de 2024, foca a modernização da caixa cênica. Os trabalhos incluem substituição das cortinas dos camarotes, reforma e pintura das portas, adequação de banheiro, alteamento dos camarotes, modernização da mecânica e iluminação do palco, além de manutenção dos elevadores de serviço e de orquestra.

O objetivo é preparar o equipamento para receber espetáculos com uso das tecnologias atuais. Além disso, a gestão municipal informou que não houve acréscimo de custos em relação ao valor estimado em outubro passado, de R$ 4,8 milhões.

Vale dizer que a obra ainda é apenas a segunda de três fases previstas. Assim, mesmo quando a caixa cênica estiver pronta, o teatro não necessariamente abrirá para o público.

O que Santos perde enquanto espera?

Um teatro com capacidade para 1.000 espectadores, no coração do Centro Histórico, fechado por quase sete anos.

Santos tem outros teatros funcionando. Só que o Coliseu ocupa um lugar diferente: é o maior, o mais histórico e o mais próximo da memória coletiva da cidade. É o espaço que foi motivo de luta da população para enfrentar demolição, burocracia e décadas de descaso.

Uma cidade que se reconhece como histórica, multicultural e com vocação para além do porto precisa de equipamentos culturais funcionando. Quanto tempo Santos ainda vai tolerar que seu bem cultural mais simbólico fique fechado, sem data, sem resposta clara e com a conta crescendo?

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