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São Vicente transforma muros cinzas em galeria de arte a céu aberto

Prefeitura vicentina incorpora grafite às obras de infraestrutura e prova que urbanização pode (e deve) ter alma

Tempo de leitura: 4 minutos

Sabe aquela sensação de que tudo na cidade parece igual? Concreto pra lá, asfalto pra cá, e zero identidade? São Vicente decidiu que não quer mais fazer parte desse time. A cidade está provando que é possível entregar obras de infraestrutura sem perder o DNA cultural no meio do caminho.

Foto: Divulgação / Prefeitura de São Vicente 

A proposta é transformar muros de contenção, paredes de quadras esportivas, paredões que normalmente ficaria ali, cinza e sem graça, em espaço de memória e pertencimento. E não estamos falando de uma ou duas intervenções isoladas. Isso virou política pública oficial da Prefeitura de São Vicente.

Quando o skate abriu caminho para a revolução

Tudo começou no Parque da Juventude, lugar onde a cultura urbana já respirava naturalmente. A pista de skate ganhou grafites que dialogavam direto com quem frequenta o espaço. O resultado? Além de bonito, funcionou. A comunidade se apropriou do lugar de forma saudável, diminuindo até mesmo práticas indevidas na área.

Foi a partir dessa experiência que a Prefeitura entendeu o recado: arte urbana não é enfeite, e sim ferramenta de transformação social. A arte urbana virou política pública.

Da Avenida Tupiniquins ao universo de Dragon Ball

A ciclovia da Avenida Tupiniquins ganhou um dos painéis mais emblemáticos do projeto. Ali, o muro de contenção deixou de ser apenas estrutura e virou um mergulho visual na biodiversidade local. A intervenção nasceu de uma pesquisa sobre a fauna e flora do Parque Estadual Xixová-Japuí, patrimônio natural que está ali pertinho, mas que muita gente desconhece.

Foto: Divulgação / Prefeitura de São Vicente 

Já na Rua Japão, a pegada foi outra. O mural celebra a influência da cultura japonesa na região, com direito a personagens icônicos de Dragon Ball Z. O local virou ponto de parada obrigatória para fotos. Mais do que isso: criou uma conexão afetiva entre moradores e o espaço público.

Fé, esporte e identidade em cada parede

A Praça da Bíblia recebeu um painel que dialoga diretamente com a vocação do espaço: a fé. A cena retrata Jesus com seus discípulos, reforçando o caráter contemplativo e familiar da praça. Resultado prático? O lugar passou a ser mais frequentado e cuidado pela comunidade.

Na Praça Nossa Senhora Aparecida, no bairro Vila Fátima, o clima é outro: radical e competitivo. Reinaugurada em abril de 2025 com nova quadra poliesportiva, iluminação LED e playground, a praça ganhou pinturas que destacam a energia do esporte. É espaço pensado para crianças e adolescentes se movimentarem com alegria.

Turistando com cultura

Na saída da Ponte Pênsil, um dos cartões-postais mais queridos de São Vicente, a intervenção artística qualifica a experiência de quem chega ou sai do centro. Deixou de ser apenas área de passagem para se tornar também ponto cultural, enriquecendo o trajeto turístico da cidade.

E voltando ao Parque da Juventude, onde tudo começou, a arte continua respirando junto com os skatistas. O grafite ali não é imposição estética; é conversa direta com quem vive o espaço. Fortalece a identidade do parque e incentiva sua ocupação de forma positiva e contínua.

De Nova York para São Vicente

O movimento artístico urbano que hoje vemos nas ruas nasceu na década de 1970 em Nova York, especialmente no Bronx. Jovens usavam sprays para marcar territórios e protestar, integrando-se à cultura hip-hop. No Brasil, a arte urbana chegou em São Paulo durante a ditadura militar, com Alex Vallauri usando stencil como forma de resistência à censura.

Décadas depois, São Vicente mostra que o grafite pode ir além da rebeldia e se tornar política estruturada de urbanização. Alexsandro Ferreira reforça que o processo deixou de ser espontâneo para ser executado com método. 

Arte Urbana 

Se São Vicente conseguiu integrar arte e infraestrutura de forma planejada, por que isso ainda é exceção e não regra na Baixada Santista?

Talvez a resposta esteja justamente nos muros coloridos de São Vicente, onde urbanização com identidade não é luxo. É direito básico de qualquer cidadão que merece viver em espaços que contem histórias, celebrem a cultura local e fortaleçam o sentimento de pertencimento.

Vitor Fagundes
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