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Santos transforma 330 mil garrafas PET em solução contra enchentes

Não se trata apenas de iniciativa bem-intencionada - é solução validada academicamente aqui na cidade

Tempo de leitura: 5 minutos

Enquanto outras cidades brasileiras ainda discutem o que fazer com montanhas e mais montanhas de plástico descartado, Santos já pavimenta suas ruas com ele. A Ecofábrica Zona Noroeste não apenas recicla resíduos da construção civil e garrafas PET — ela os transforma em pisos drenantes. A reciclagem de resíduos é, portanto, um elemento central nesse processo inovador.

Segundo estudos da São Judas Unimonte, esses pisos são três vezes mais resistentes que o concreto convencional e altamente eficientes no combate a alagamentos. Assim, é a inovação que resolve dois problemas urbanos de uma vez: para onde vai o lixo e para onde vai a água da chuva.

A relevância dessa tecnologia vai além do discurso ambiental. Santos, cidade cercada por água e historicamente vulnerável a enchentes, encontrou uma solução que alia sustentabilidade à infraestrutura urbana funcional.

Os estudos científicos feitos na São Judas Unimonte comprovaram que cada peça produzida equivale a 64 garrafas plásticas retiradas do ambiente. Em um ano, são mais de 330 mil unidades desviadas de rios e aterros. Mais importante: esse material não é apenas “ecologicamente correto”, mas tecnicamente superior. Ele suporta até nove toneladas de peso. Portanto, para o morador que quer calçadas seguras e para o comerciante que não pode parar devido a alagamento, isso significa infraestrutura que funciona de verdade.

A ciência comprova 

Dois estudos conduzidos pela USJT/Unimonte colocaram o material desenvolvido pela Ecofábrica sob rigorosos testes laboratoriais. O primeiro, intitulado “Concreto Sustentável – Projeto Ecofábrica”, avaliou a capacidade de infiltração da água. O levantamento confirmou que o líquido escoa rapidamente pelos poros do material — característica essencial para reduzir alagamentos em áreas urbanas.

O segundo estudo, “Concreto Permeável com Resíduos – Soluções para Drenagem Urbana na Zona Noroeste de Santos”, trouxe dados ainda mais surpreendentes. Os pesquisadores compararam duas misturas: uma tradicional (pedra e cimento) e outra que substituiu metade das pedras por plástico PET triturado. O resultado foi impressionante: a mistura com PET suportou 2.610 kgf nos ensaios de compressão. Já a convencional resistiu apenas 860 kgf.

Traduzindo para a prática (e facilitando sua vida) o bloco de piso drenante no formato quadrado, produzido com a mistura ecológica, aguentou nove toneladas de peso. Isso o torna adequado para calçadas, praças, ciclovias e áreas de circulação de veículos leves. Ainda assim, ele não perde a característica permeável que permite a água penetrar de forma contínua e eficiente.

Da coleta à instalação: como funciona o ciclo da Ecofábrica

Os insumos chegam à Ecofábrica através do serviço municipal de Cata-Treco e doações de resíduos da construção civil. Duas máquinas trituradoras processam o material, transformando-o em matéria-prima para as peças. Atualmente, a unidade produz 100 peças por semana — cerca de 400 pisos mensais e 5 mil unidades ao ano.

Cada peça mede 40x40x6 cm e representa 64 garrafas plásticas de 500 ml que não foram parar no mar, nos rios ou em aterros sanitários. Além disso, a Ecofábrica funciona como polo de capacitação. Ela oferece cursos gratuitos que promovem inclusão social e qualificação profissional.

Segundo Camila Garcia Aguilera, coordenadora dos cursos de Arquitetura e Urbanismo, Design, Engenharias e Tecnologia da USJT/Unimonte, a pesquisa foi fundamental para comprovar, de forma científica, a contribuição na redução de enchentes e no manejo adequado das águas pluviais.

Portanto, não se trata apenas de iniciativa bem-intencionada — é solução validada academicamente.

Onde já é possível ver (e pisar) na inovação

Os pisos drenantes já estão instalados em três locais estratégicos de Santos: o Caminho da Ilha Diana (Área Continental), o Parque Caneleira (Rua Gilberto Franco Silva com o Caminho São Jorge) e a Praça Verde (Rua Pedro Paulo Di Giovanni, no Santa Maria). Esses espaços funcionam como testes em escala real. Eles demonstram a viabilidade da tecnologia em diferentes contextos urbanos.

O secretário das Prefeituras Regionais, Rivaldo Santos, afirmou que a validação científica permitirá ampliar a instalação dos pisos pela cidade e desenvolver novas misturas sustentáveis para o ambiente urbano.

Por que isso importa para quem vive em Santos

Enquanto grandes centros urbanos sofrem com enchentes cada vez mais frequentes e intensas, Santos desenvolve alternativa que reduz a sobrecarga nas galerias pluviais e transforma resíduo em solução. Além disso, o modelo da Ecofábrica prova que economia circular não precisa ser conceito abstrato — pode ser calçada debaixo dos seus pés.

A tecnologia validada cientificamente coloca Santos como referência nacional em práticas sustentáveis aplicadas a obras públicas. Mas a pergunta que fica é: se é possível transformar 330 mil garrafas em infraestrutura funcional, por que outras cidades ainda não replicaram esse modelo? E mais importante: até quando vamos aceitar que o básico — calçadas que não alagam — seja tratado como inovação, e não como padrão mínimo?

Vitor Fagundes
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