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Santos terá o primeiro Centro de Memória às Vítimas da Violência do Estado no Brasil

Depois de 20 anos de resistência, as Mães de Maio conquistam um espaço físico de memória, cuidado e reparação

Tempo de leitura: 4 minutos

“A minha dor foi transformada do luto ao lutar.”

A frase é de Débora Silva, fundadora do Mães de Maio e mãe de Edson Rogério, assassinado em maio de 2006 na Baixada Santista. Vinte anos depois, essa dor virou política pública.

www.juicysantos.com.br - Santos terá o primeiro Centro de Memória às Vítimas da Violência do Estado do BrasilFoto: Igor Matheus

No dia 4 de março de 2026, o governo federal anunciou em Santos a criação do primeiro Centro de Memória às Vítimas da Violência de Estado (CMVV) do Brasil. O espaço vai funcionar em um imóvel da União em frente à Bolsa do Café, na Rua Frei Gaspar, e abre as portas ainda no primeiro semestre de 2026.

Mas antes de celebrar, vale fazer a pergunta que o centro vai forçar o Estado a responder: segurança para quem?

Por que Santos?

A Baixada Santista não foi escolhida por acaso. Foi aqui que aconteceram os Crimes de Maio de 2006, a maior chacina praticada por agentes do Estado na história contemporânea do Brasil. Em duas semanas, ao menos 564 pessoas foram mortas no estado de São Paulo. Mais de 400 eram jovens negros ou pobres das periferias.

O gatilho foi a transferência de 765 presos para o presídio de segurança máxima de Presidente Venceslau. A resposta policial virou extermínio. Passados quase 20 anos, nenhum responsável foi punido.

A região também foi palco das Operações Escudo e Verão, entre 2023 e 2024, que deixaram ao menos 84 mortos. O padrão se repetiu. As mães também.

O que é o CMVV na prática

O Centro de Memória não é um museu com placas e datas. Estamos falando de um espaço comunitário, pedagógico e político.

Na prática, vai preservar acervos documentais, produzir pesquisa sobre violência de Estado e oferecer atendimento psicossocial e jurídico gratuito. Junto com ele, funcionará o CAIS Mães por Direitos, Centro de Acesso a Direitos e Inclusão Social. Os dois equipamentos devem receber cerca de R$ 3,5 milhões no primeiro ano.

A iniciativa é fruto de uma articulação entre as Mães de Maio, a Iniciativa Negra e a Conectas Direitos Humanos, com apoio do Ministério dos Direitos Humanos e do Ministério da Justiça. A parceria com a UNIFESP já está firmada para construir a metodologia que une memória e cuidado.

“É a primeira vez que temos uma política pública construída para essas famílias e que o Estado dá um passo para cumprir decisões da Corte Interamericana.”

Foi o que afirmou a secretária nacional de políticas contra as drogas, Marta Machado.

“O Estado reconhece as violências e responde com reparação.”

“Nada de nós sem nós”

O que torna o CMVV diferente de qualquer política pública convencional é quem vai conduzi-lo. O conhecimento produzido virá das próprias mães, pesquisadoras da experiência que o Estado tentou apagar.

“O centro traz toda a informação a profissionais dada por nós, mães, que somos pesquisadoras com a produção do conhecimento. Os nossos profissionais não estão adequados a fazer essa tratativa”, explicou Débora Silva.

Além do cuidado psicológico, o espaço vai trabalhar com letramento cultural via funk e rap. As linguagens das periferias entram onde a bala não deveria ter entrado.

A ministra dos Direitos Humanos, Macaé Evaristo, presente no lançamento, foi direta:

“Não existe democracia enquanto o Estado seguir banalizando nossas mortes.”

Quem nomeia, não esquece

A deputada estadual Ediane Maria (PSOL) apontou o que está estruturalmente por trás dos números.

“Historicamente, usou-se o pretexto do combate às drogas para matar pretos e pobres nas periferias. O processo de higienização continua em curso pelas mãos da segurança pública”, afirmou.

www.juicysantos.com.br - deputados no cmvv

O deputado Eduardo Suplicy (PT) reforçou o caráter coletivo do espaço.

“Estamos reunidos para somar forças e tomar as medidas necessárias para prevenir que essas cenas de violência se repitam em nosso país.”

A vereadora de Santos Débora Camilo (PSOL) foi precisa:

“O centro estar em Santos representa muito mais do que luta. Representa resistência.”

Santos agora tem endereço para a memória

O Centro de Memória não apaga o que aconteceu. Ele garante que nunca mais se possa fingir que não aconteceu.

Outros centros foram anunciados em Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Bahia, Rio de Janeiro e Ceará. Santos é o primeiro. Santos é o símbolo.

Vale observar o que a cidade vai fazer com essa responsabilidade agora que ela tem nome, endereço e data de inauguração.

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