Santos recebe simpósio internacional para discutir microplásticos
O plástico que você não enxerga já está dentro do peixe que você come
Uma pesquisa publicada no fim de 2025 pelo Instituto Oceanográfico da USP mapeou o estuário de Santos e chegou a uma conclusão incômoda: 23% dos microplásticos que entram na água daqui não ficam nas praias nem no fundo do mar. Eles vão para o oceano aberto, somem da vista, mas não somem de verdade.

Por isso, entre os dias 9 e 13 de junho, a cidade vai debater exatamente esse assunto. O 1º Simpósio Internacional de Microplásticos em Ecossistemas Aquáticos (SIMPEA) acontece no Auditório da Universidade Santa Cecília, no Boqueirão, logo depois da Semana do Meio Ambiente. Organizado pelo Instituto EcoFaxina e pelo Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN), o evento é o primeiro do tipo na Baixada Santista e reúne pesquisadores, ONGs, poder público e qualquer pessoa que queira entender o que está acontecendo com a água que nos cerca.
Santos é o lugar certo para essa conversa
Santos tem 7 quilômetros de praia, um estuário que movimenta bilhões em mercadorias e uma história ligada à água desde antes de ser cidade. Além disso, essa mesma proximidade torna o tema dos microplásticos mais urgente aqui do que em qualquer metrópole do interior.
O estudo da USP mostrou que as praias centrais, os canais urbanos e a região da Ilha Porchat são os pontos mais vulneráveis ao acúmulo dessas partículas. Em ressacas, elas são empurradas para a costa e chegam em quantidade às faixas de areia. Já em dias de mar calmo, ficam suspensas na coluna d’água, exatamente onde peixes e moluscos se alimentam.
Pesquisadores já identificaram microplásticos em moluscos e peixes capturados no litoral de Santos e arredores. Quem come frutos do mar da costa paulista infelizmente já entrou nessa cadeia.
O Brasil no centro do problema
O Brasil é o 4º maior produtor de lixo plástico do mundo, atrás apenas de Estados Unidos, China e Índia. São cerca de 11 milhões de toneladas por ano. Contudo, a taxa de reciclagem ainda patina em índices que variam conforme o que se mede, mas que, na prática, revelam um gargalo estrutural.
O problema não é falta de tecnologia. É que a resina virgem ainda é mais barata do que o plástico reciclado em boa parte do mercado brasileiro. Enquanto isso, os fragmentos seguem se acumulando nos rios, nos canais, nos estômagos dos animais e, conforme apontam estudos recentes publicados no New England Journal of Medicine, dentro do corpo humano. Os microplásticos já foram detectados em pulmões, fígado, cérebro, placenta e sangue.
Cinco dias de programação, da praia aos laboratórios do IPEN
A programação dos cinco dias mistura o técnico com o acessível. Assim, palestras de especialistas nacionais e internacionais dividem espaço com mesas-redondas sobre soluções locais, oficinas práticas e exposições abertas para todo mundo.
Terça-feira, 9 de junho
Manhã
- 7h30 Credenciamento
- 8h30 Abertura oficial com Instituto EcoFaxina, IPEN, Unisanta e Prefeitura
- 9h30 Walter Waldman: Quem decide o enfrentamento contra a poluição plástica?
- 10h30 Cláudia Lamparelli: Microplásticos nos ambientes costeiros: desafios e caminhos para o monitoramento
- 12h00 Almoço
Tarde
- 13h30 Camilo Seabra: O que acontece em Santos, fica na praia de Santos: plásticos e drogas ilícitas em ecossistemas marinhos
- 14h00 Paloma Choueri: Microfibras: o impacto invisível da moda no oceano
- 14h30 Caio Nobre: O que os olhos não veem, o oceano sente: microplásticos em ambientes marinhos
- 15h00 UNESP Bauru: microplásticos em crustáceos
- 15h30 Coffee break
- 16h00 Kathrin Harre: Poluição por plástico nos rios Elba e Vjosa: resultados do monitoramento de macro e microplásticos
- 16h30 Mércia da Costa: Microplásticos em ecossistemas costeiros no Espírito Santo: o que os invertebrados nos contam?
- 17h00 Mesa-redonda
Quarta-feira, 10 de junho
Manhã
- 7h30 Credenciamento
- 8h30 Walter Waldman: Microplásticos: quando a ciência de polímeros encontra as ciências ambientais
- 9h00 Renan Lourenço: Amostragem ambiental e microplásticos: desafios para a confiabilidade dos dados
- 9h30 Duclerc Parra: A importância do protocolo de análise: comparação interlaboratorial de padrão internacional
- 10h00 Sueli Borrely: Efeitos biológicos de microplásticos e microfibras no ambiente aquático
- 10h30 Niklaus Wetter: Micro e nanoplásticos em meios complexos: detecção ótica ultrassensível e efeitos em ecossistemas tropicais
- 11h00 Décio Semensatto: Microplásticos em tempos de harmonização
- 11h30 Lucas Kurzweg: De macroplásticos a microplásticos: modelagem de processos de fragmentação em sistemas fluviais
- 12h00 Almoço
Tarde
- 13h30 Oficina 1: Calorimetria diferencial de varredura (DSC) como técnica para identificar e quantificar microplásticos em amostras ambientais
- 16h30 Coffee break
- 17h00 Oficina 2: Plásticos e ecotoxicologia marinha
Quinta-feira, 11 de junho
Manhã
- 7h30 Credenciamento
- 8h30 Ítalo de Castro: Caminhos da governança: do laboratório ao tratado global dos plásticos
- 9h00 Lucilene Monteiro: Programas de monitoramento ambiental do IPEN e atividades relacionadas a compostos orgânicos e microplásticos
- 9h30 Maria Cristina Gontijo: Regulamentação jurídica da utilização de pellets de plástico na limpeza de embarcações
- 10h00 William Schepis: Microplásticos e o papel do terceiro setor: ciência cidadã, pesquisa e monitoramento
- 10h30 Vitória Scrich: O Plano Estadual de Monitoramento e Combate ao Lixo no Mar
- 12h00 Almoço
Tarde
- 13h30 A confirmar
- 14h00 A confirmar
- 14h30 Sessão de pôsteres e coffee break
- 16h30 Mesa-redonda
- 17h30 Encerramento
Sexta-feira, 12 de junho — Visita técnica ao IPEN, São Paulo
- 6h30 Embarque em frente à Unisanta (Rua Oswaldo Cruz, 277)
- 9h30 Oficinas simultâneas (primeira rodada)
- Oficina 1: Identificação de microplásticos e influência do envelhecimento nas partículas
- Oficina 2: Processamento de efluentes por radiação
- 11h00 Oficinas simultâneas (segunda rodada)
- Oficina 3: Controle de qualidade e potabilidade de águas
- Oficina 4: Ecotoxicologia aplicada aos efeitos de microplásticos em organismos aquáticos
- 12h00 Almoço
- 13h30 Oficinas simultâneas (terceira rodada)
- Oficina 1: Identificação de microplásticos (continuação)
- Oficina 3: Controle de qualidade de águas (continuação)
- 15h00 Oficinas simultâneas (quarta rodada)
- Oficina 2: Processamento de efluentes por radiação (continuação)
- Oficina 4: Ecotoxicologia aplicada (continuação)
- 16h00 Embarque para Santos
- 18h30 Chegada prevista em Santos
Sábado, 13 de junho — Saída de campo com o Instituto EcoFaxina
- 9h00 Oficina de campo na praia: coleta, identificação e caracterização de resíduos sólidos em ambiente praial, com demonstração de técnicas aplicadas à pesquisa científica e à ciência cidadã
Uma sacola plástica de 1970 ainda existe
O primeiro plástico 100% sintético do mundo foi criado em 1907. O tempo médio de decomposição desse material pode superar 600 anos. Sendo assim, o plástico que sua avó descartou quando Santos ainda tinha bonde por quase toda a cidade pode estar, agora, fragmentado em partículas microscópicas boiando no estuário.
A sacola não desaparece. Ela vira microplástico, que entra na cadeia alimentar.
Portanto, o simpósio de junho é uma oportunidade de decidir que papel a cidade quer ter nessa história: laboratório passivo ou referência em solução.
Serviço
1º Simpósio Internacional de Microplásticos em Ecossistemas Aquáticos (SIMPEA)
9 a 13 de junho de 2026
Auditório da Universidade Santa Cecília – Rua Oswaldo Cruz, 277, Boqueirão, Santos
Entrada: Gratuita nos três primeiros dias.
Oficinas práticas no IPEN custam R$ 25 cada, com vagas limitadas
Transporte para o IPEN: Ônibus gratuito saindo da Rua Oswaldo Cruz, 277, em frente à Unisanta