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Santos precisa falar sobre clima (antes que o clima decida por ela)

Entre o oceano e a serra, uma das cidades mais expostas às mudanças climáticas também pode ser a mais preparada para enfrentá-las.

Tempo de leitura: 5 minutos

Santos não é uma cidade qualquer. Ela nasceu espremida entre o oceano e a serra, com os pés na lama do estuário e os olhos no horizonte do Atlântico. Essa geografia única fez da cidade um dos portos mais importantes do mundo. Mas essa mesma posição, hoje, coloca Santos (e toda a Baixada Santista) em um dos endereços mais vulneráveis do Brasil diante das mudanças climáticas.

A data de hoje convida a uma reflexão necessária — e Santos tem muito a dizer nessa conversa.

Vista da Ilha de São Vicente a partir da Serra do Mar. Foto: Site Viagens Cinematográficas

Por que Santos deveria liderar essa conversa?

O Brasil concentra alguns dos ecossistemas mais ricos do planeta. Santos está no meio de dois deles: o oceano Atlântico e os remanescentes de Mata Atlântica da Serra do Mar. Ambos estão sob pressão direta das mudanças climáticas.

O dia 16 de março é o Dia de Conscientização das Mudanças Climáticas. A data existe justamente para articular debates e mobilizações sobre a proteção dos ecossistemas brasileiros. Santos tem muito a contribuir nessa agenda, mas ainda ocupa pouco espaço nela.

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) já documentou: cidades costeiras são as mais expostas à elevação do nível do mar, ao aumento da frequência de ressacas e às ondas de calor urbano. Santos reúne todas essas condições.

O que os dados dizem sobre o futuro da cidade

As mudanças climáticas já chegaram e quem mora por aqui sabe disso na pele.

As ressacas ficaram mais intensas, os verões mais sufocantes e as chuvas mais concentradas e violentas. O INMET registra aumento gradual nas temperaturas médias do litoral paulista nas últimas décadas. Os termômetros confirmam o que a memória dos moradores já sinaliza.

Rua de Santos alagada durante tempestade, logo após onda de calor extremo (2025). Foto: Reprodução Redes Sociais

A elevação do nível do mar é o dado mais preocupante para uma cidade como Santos. Projeções do IPCC indicam alta de até 1 metro até 2100 no pior cenário. Para uma orla plana como a de Santos, isso representa uma ameaça concreta a bairros inteiros, à infraestrutura portuária e ao cotidiano da cidade.

O problema também alcança a Serra do Mar, que protege Santos das chuvas mais severas. O ecossistema sofre com o desmatamento e as chuvas irregulares. Deslizamentos e inundações na região metropolitana já mostram o que acontece quando esse sistema natural é pressionado além do limite.

O desafio, é claro, ultrapassa os limites de Santos. Municípios como Guarujá, Cubatão, Praia Grande e São Vicente compartilham os mesmos riscos: orla exposta, serra pressionada e população densa vivendo entre os dois.

Santos tem tudo a ganhar também

A posição estratégica de Santos pode ser uma vantagem na transição energética global. O Porto de Santos já movimenta discussões sobre descarbonização da cadeia logística. Empresas e governos ao redor do mundo buscam rotas e parceiros comprometidos com emissões menores. Santos pode se posicionar como referência nesse movimento.

Além disso, a cidade tem ativos naturais que valem muito nessa nova economia: manguezais que sequestram carbono, praias que atraem turismo sustentável e uma população que, historicamente, sabe viver com o mar.

Pequenos negócios locais também entram nessa equação. Feiras orgânicas, brechós, restaurantes com práticas de desperdício zero. Santos já tem uma cena sustentável crescendo silenciosamente, mas que precisa de visibilidade e política pública que a apoie.

O que você pode fazer agora

Mudanças climáticas parecem um problema grande demais para uma pessoa só. Mas pequenas ações multiplicadas por milhares de pessoas têm impacto real.

Em Santos, isso significa escolhas concretas e acessíveis:

  • Usar o transporte público ou a bicicleta sempre que possível. A orla tem uma das ciclovias mais bonitas do país, ainda subutilizada.
  • Reduzir o consumo de carne. A pecuária intensiva é uma das maiores fontes de gases de efeito estufa no Brasil.
  • Dar preferência a feiras e produtores locais. Menos transporte, mais frescor, mais economia circular.
  • Reciclar e apoiar a coleta seletiva. Santos ainda tem muito a evoluir nessa frente.
  • Cobrar dos eleitos. Pressionar governos municipais e estaduais por políticas climáticas concretas é a ação mais importante dessa lista.

Santos vai escolher que tipo de cidade quer ser

A cidade que nasceu do mar tem agora uma escolha a fazer. Pode continuar olhando para o oceano com familiaridade e indiferença, ou pode encarar o que os dados mostram e assumir o protagonismo que sua geografia exige.

Cidades que ignoram as mudanças climáticas pagam a conta mais tarde, com juros. Cidades que se antecipam criam empregos, atraem investimentos e protegem quem mais depende dos serviços públicos (que, não por acaso, são sempre os que moram mais longe da orla).

Santos tem tudo a perder se ficar parada e tudo a ganhar se agir primeiro.