Santos e o grafite: nossa identidade pintada com spray
Celebrado em 27 de março, o Dia do Grafite tem raízes santistas — e as ruas da cidade provam isso a cada parede pintada
Santos não é apenas berço do café, do futebol e de Chorão. A cidade também carrega no DNA uma ligação com o grafite, que transformou muros em museus e ruas em galerias a céu aberto.
E essa conexão começa antes mesmo de a arte urbana virar símbolo de resistência cultural no Brasil.
De Santos para o mundo: a origem do Dia do Grafite
O calendário marca 27 de março como o Dia do Grafite. A data homenageia Alex Vallauri, considerado o pai do grafite brasileiro. Mas o que muitos não sabem é que Vallauri chegou ao Brasil em 1965, desembarcando em Santos, onde treinou a técnica da gravura retratando pessoas no Porto. Portanto, antes de colorir São Paulo, ele passou por aqui.
A arte urbana que hoje colore ruas e museus pelo mundo tem seu reconhecimento no calendário nacional: 27 de março. Assim, Santos não é apenas destino do grafite contemporâneo — é parte da origem de tudo isso.
Portanto, quando santistas passam diante de um mural e sentem aquele orgulho difícil de explicar, existe história por trás dessa sensação.
Santos tem muros que contam a cidade
A cena do grafite santista cresceu de forma consistente nas últimas décadas. Além disso, ela transbordou para além da orla. Locais como a região do Valongo e o Centro Histórico já tem grande concentração desse tipo de expressão.
O artista plástico Daniel Alves Fernandes, o Drosh, tem 11 intervenções de arte urbana espalhadas em pontos diferentes da Cidade. Ele inclusive pintou um muro de 220m² no Boqueirão que retrata a memória do bairro — da Pinacoteca Benedito Calixto ao poeta Vicente de Carvalho.

Em 2020, a cidade ganhou o mural do Kobra na Ponta da Praia, com 800 metros quadrados retratando Pelé, o bonde e o Porto. Uma obra que colocou Santos no circuito mundial da arte de rua.
Chorão vive nos muros de Santos
Não há como falar de grafite em Santos sem falar de Chorão. Grafites de sua imagem estão espalhados pelas ruas da cidade, fazendo com que a memória do cantor apareça no cotidiano dos santistas.
O grafiteiro Edgard realizou outras homenagens além da de Chorão: o surfista Picuruta Salazar no emissário submarino, o poeta Tubarão Dulixo no Marapé, a Banda Garage Fuzz nas ruínas da antiga Santa Casa de Santos. Cada muro, portanto, é uma camada da memória afetiva da cidade.
As mulheres que grafitam Santos
O grafite santista não é feito apenas por homens. Muito pelo contrário, as mulheres que seguram o spray ainda pedem mais visibilidade. Conheça algumas das artistas que estão mudando esse quadro na cidade:
- Gigi Louise — @gigi_louise13 — Artista com traços marcantes e identidade visual própria, presente na cena de grafite e arte urbana de Santos.
- ATF — @atfllw — Grafiteira com trabalhos que dialogam com a linguagem urbana e o território da cidade.
- Laisa Sial — @laisasial_ — Artista visual santista com atuação ativa no cenário de arte de rua local.
- Laila — @lailaiponto — Arte urbana com traços que chamam atenção pela sensibilidade e pelo uso da cor.
- Elisandra Catia — @elisandracatia — Grafiteira santista com produção consistente nas ruas e nas redes.
Elas mostram que o grafite em Santos também é território feminino. Portanto, seguir, compartilhar e dar visibilidade ao trabalho delas é uma forma concreta de apoiar a arte urbana local.
Grafite vs pichação: o Santista sabe a diferença?
Confundir grafite com pichação é um erro comum — e caro para quem produz arte de rua. Contudo, a distinção vai além da estética.
A pichação é, na maioria dos casos, realizada sem autorização e sem diálogo com o espaço. O grafite, por outro lado, nasce de uma negociação: com o dono do muro, com o bairro, com a história do lugar. Portanto, um grafite bem executado transforma uma parede sem uso em ponto de referência da cidade.
No Brasil, a Lei nº 9.605/98 enquadrava as duas práticas como crime ambiental. Porém, em 2011, a Lei nº 12.408 alterou esse cenário e descriminalizou o grafite autorizado — reconhecendo, assim, sua natureza artística e cultural. A pichação segue sendo contravenção.
Em Santos, essa diferença já se manifesta nas ruas. Os grafites espalhados pela cidade foram, em sua maioria, realizados com autorização — e muitos com apoio da Prefeitura ou de coletivos culturais locais. O resultado é visível: Santos tem muros que agregam, não que agridem. E essa cultura de negociação entre artista e cidade é o que separa uma galeria a céu aberto de um problema urbano.
Serviço
Mural do Kobra em Santos Ponta da Praia — em frente ao Novo Mercado de Peixes, Centro de Atividades Turísticas