Santos e a revolução na saúde mental brasileira: a intervenção que mudou o país
Como a cidade litorânea liderou uma transformação histórica no tratamento psiquiátrico e deu voz para quem era invisível
Era madrugada de 2 de maio de 1989 quando a equipe da prefeitura de Santos, liderada pela então prefeita Telma de Souza, chegou à porta do Hospital Anchieta, na Vila Belmiro.
O que aconteceria nas horas seguintes não apenas mudaria a vida de centenas de pacientes, mas daria início a uma revolução na saúde mental brasileira que ecoa até hoje.

Foto: Arquivo pessoal Roberto Tykanori
O horror escondido na Vila Belmiro
Enquanto o Santos FC celebrava suas glórias no estádio vizinho, a poucos metros dali funcionava um dos manicômios mais infames do País. Projetado para 60 pacientes, o Anchieta chegou a abrigar mais de 500 pessoas entre 1986 e 1989, em condições que ex-internos descreveram como “piores que o DOI-CODI” e “piores que presídio”.
“Vi muita tortura, as pessoas eram largadas ao léu”, conta Carlos Roberto Massoni, ex-paciente do Anchieta.
Ele relembra que havia apenas uma enfermeira para cuidar de todos os internos, e quando alguém não conseguia dormir, recebia uma injeção em qualquer parte do corpo para ficar inconsciente.
“Isso deve ter ficado no inconsciente das pessoas pelo resto da vida”, reflete.
O que começou em 1951 como um centro modelo de tratamento psiquiátrico se transformou, ao longo das décadas, em um depósito de gente. Torturas com choques elétricos, agressões físicas e uso abusivo de medicamentos eram rotina. A superlotação chegou a extremos alarmantes: mais de 600 pessoas onde cabiam 240, com pacientes literalmente largados no chão. Para 700 internos, havia apenas uma assistente social e uma psicóloga.
A exclusão social como diagnóstico
Mas quem eram essas pessoas? Roberto Tykanori, interventor do Anchieta e defensor dos direitos dos pacientes, resume: o perfil era frequentemente “reduzido aos chamados três Ps: preto, pobre e psicótico”.
Na sociedade das décadas de 60 e 70, bastava não se encaixar nos padrões estabelecidos para ser internado. Uma mulher que não obedecesse o marido, alguém que assumisse sua orientação sexual, quem tivesse vícios em bebida ou cigarro, todos podiam parar no manicômio. E uma vez rotulado como “doente mental”, a pessoa perdia imediatamente seus direitos civis.
Tykanori explica que, durante a ditadura, os hospitais psiquiátricos se expandiram, tornando-se privados mas financiados pelo Governo Federal, transformando-se em “máquinas de fazer fortunas para seus proprietários”. O muro do manicômio, segundo ele, não servia apenas para controlar quem estava dentro, mas principalmente “para controlar quem estava fora” — o medo de ser preso ali forçava as pessoas a se comportarem.
Santos rompe o silêncio
Em janeiro de 1989, denúncias anônimas começaram a chegar à imprensa sobre mortes no Anchieta. Cerca de 50 óbitos em apenas três anos chamaram a atenção. David Capistrano, então Secretário de Saúde de Santos, viu ali uma oportunidade de testar a nova Constituição de 1988, que havia imposto novas obrigações de saúde aos municípios.

Foto: Arquivo pessoal Roberto Tykanori
Na madrugada daquele 2 de maio, a equipe assumiu o controle do hospital. Tykanori lembra que, mesmo com o local limpo às pressas, o cheiro de cândida misturado com urina denunciava a realidade. Quando a prefeita Telma de Souza chegou à ala feminina, as pacientes disseram que ela havia chegado para salvá-las e relataram todas as torturas sofridas.
As mudanças foram imediatas: proibição de eletrochoques, instalação de chuveiros quentes, remoção das portas das celas e aumento significativo do quadro de profissionais. Mas a luta era, acima de tudo, política. Como observou o arte educador Renato Di Renzo, muitos pacientes não percebiam os espancamentos e encaravam as agressões como parte da rotina.
A voz que não se calou: nasce o TamTam
Foi nesse contexto de reconstrução que surgiu uma das iniciativas mais revolucionárias da reforma psiquiátrica brasileira. Em 1989, durante uma visita de documentaristas ao Anchieta, Renato Di Renzo idealizou algo inédito: dar voz aos ex-pacientes através de uma TV e, posteriormente, uma rádio.
Nasceu assim a Rádio TamTam, onde os ex-internos se tornaram locutores, apresentadores, editores e produtores. Eles criavam seus próprios personagens, apresentavam notícias da instituição, faziam entrevistas e até fofocas. A programação era diária e totalmente gerida por quem, até pouco tempo antes, não tinha voz nem direitos.
“30 anos atrás, os pacientes não tinham voz, e a sociedade já era muito preconceituosa com a saúde mental. O TamTam transformou essa realidade”, afirma Carlos Massoni.
Quando o SBT cobriu a inauguração da rádio, no dia seguinte todas as mídias queriam falar com eles. A Rádio TamTam, que funcionou por nove anos, educou a sociedade santista, fazendo militância e mudando a visão das pessoas sobre saúde mental. A população abraçou a iniciativa, que entrou para a linha turística da cidade e virou tema de estudo em universidades. A emissora comunitária recebeu o prêmio em São Bernardo do Campo e se tornou símbolo de resistência e ferramenta de reabilitação.
O legado que transformou o Brasil
A intervenção em Santos expôs ao País a realidade dos manicômios e acelerou a implementação de políticas públicas. O Manifesto de Bauru, do qual Tykanori foi um dos escritores, brigava para que os pacientes começassem a ter direitos, tratando os manicômios como locais de violação.
Em 2001, o governo sancionou a Lei 10.216, conhecida como “lei da reforma psiquiátrica”, e estabeleceu que o cuidado deve ocorrer preferencialmente na comunidade, com respeito à dignidade e promoção da autonomia dos pacientes. No ano seguinte, o poder público criou os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), o que marcou uma nova era no tratamento de pessoas com transtornos mentais no Brasil.
E o TamTam? Continua vivo até hoje, mais de três décadas depois, como prova de que aquela revolução silenciosa iniciada em Santos não foi em vão.
A luta continua
Carlos Massoni, que viveu o horror do Anchieta e depois encontrou sua voz no TamTam, faz um alerta: “Os manicômios estão escondidos na sociedade”. Erros médicos com doses erradas de remédios ainda deixam sequelas irreparáveis.
“Precisamos fortalecer essa luta, não nos deixar levar por ideologias extremistas e avançar na defesa dos direitos humanos, para que as experiências dos pacientes do Anchieta não se repitam”, enfatiza.
A intervenção na Casa Anchieta quebrou um espelho. Enquanto antes ele refletia a imagem conveniente da sociedade, escondendo e desumanizando aqueles considerados “desajustados”, a ação estilhaçou esse reflexo, forçando o Brasil a encarar a realidade fragmentada e dolorosa dos direitos humanos e da saúde mental.
Santos liderou essa transformação. E segue, através do TamTam, lembrando que dignidade não se negocia — se conquista, se defende e se pratica todos os dias.