Ruas de Santos estão pintadas para a Copa. Mas pode?
Mesmo proibidas pela CET, pinturas para a Copa do Mundo em Santos já tomaram conta de bairros como Boqueirão, Marapé, Vila Belmiro e Castelo. Veja por que essa tradição mexe com o ODS 11 e como outras cidades da Baixada resolveram esse impasse
A Copa já começou e o sonho do hexa já está pintado no asfalto. Em algumas ruas de Santos, pelo menos.
Fotos: Gustavo Nascimento
Quem passa pela Rua Vahia de Abreu, no Boqueirão, ou pela Aniz Trajan, no Jardim Castelo, encontra verde e amarelo no chão antes mesmo de ligar a televisão. O mesmo aconteceu na Napoleão Laureano, no Marapé, na Mal. José Olintho de Carvalho, na Vila Belmiro, e na Mal. Hermes, também no Boqueirão. Vizinhos se organizaram, escolheram desenho, compraram tinta e foram pra rua.
Oficialmente, nada disso poderia ter acontecido.
A tradição que vem de 1958
Pintar rua pra Copa não nasceu agora. A prática começou depois do título de 1958 e, em algumas comunidades do Rio, nunca parou. Na Vila Isabel são quase 50 anos sem interrupção, e esse ano a Rocinha ganhou murais gigantes feitos por artistas locais.
Tem gente que cresceu vendo essa tradição e hoje resgata pra mostrar aos filhos. A rua fica disponível pra quem não vai conseguir acompanhar o jogo de outro jeito, e o bairro inteiro entra na decoração.
A tradição faz parte do desenvolvimento
A ONU trata esse tipo de mobilização como exemplo prático do ODS 11, que aborda cidades e comunidades sustentáveis. O argumento é que esses momentos reforçam o uso do espaço público como lugar de convivência.
Em territórios marcados pelo isolamento social, pintar a rua aproxima vizinhos que muitas vezes nem se conhecem e fortalece o vínculo com o lugar onde se mora. Crianças participam escolhendo cores e discutindo desenho, o que cria oportunidade de brincar e ocupar a cidade de forma ativa.
Esse acesso, porém, não é igual em todos os lugares. Território, renda e cor da pele ainda influenciam quem consegue viver essa experiência sem complicação. Em alguns lugares existe norma e diálogo prévio com a prefeitura. Em outros, a pintura acontece sem nenhuma autorização, e o risco de multa entra na conta.
Santos topa o ODS no papel, mas trava na prática
Santos tem Departamento de ODS Santos 2030, integra oficialmente a Agenda 2030 e já bateu recorde mundial de ações cadastradas na plataforma da ONU. No discurso, a cidade está entre as referências do país no tema.
Na prática, pintar a rua pra Copa é proibido por aqui. A CET-Santos explica que a chamada pintura decorativa contraria os artigos 81, 82 e 84 do Código de Trânsito Brasileiro, porque pode interferir na sinalização viária e comprometer a segurança de quem trafega. Quem pinta é notificado e precisa remover por conta própria. Se não remover, a CET faz o serviço e cobra depois.
A preocupação tem fundamento. Sinalização de trânsito usa tinta e material específico, pensado pra durar e pra ser lido rápido por motorista e pedestre. Misturar isso com decoração de festa pode gerar confusão visual.
Mesmo assim, olhando pra Baixada, dá pra perceber que esse conflito tem caminho fora da proibição direta.
Como o resto da Baixada Santista resolveu
Praia Grande, Bertioga, Itanhaém, São Vicente e Guarujá autorizam pintura decorativa, desde que exista pedido formal antes. O morador informa o local exato, o período da pintura e apresenta documentação. Em troca, a prefeitura garante que sinalização, faixa de pedestre e qualquer elemento de segurança fiquem intactos.
Peruíbe e Cubatão nem têm regra específica. Cubatão apenas orienta que a pintura não interfira na sinalização, sem burocracia adicional.
Cinco cidades vizinhas encontraram caminho pra conciliar tradição popular com segurança viária através de aviso prévio e orientação técnica.
O que fica pra quem já pintou (e pra quem quer pintar)
As ruas santistas que já ganharam cor pra Copa de 2026 não pediram autorização. Pintaram porque a vontade de fazer parte da festa pesou mais do que ler artigo de código de trânsito. E continuam lá, mesmo tecnicamente irregulares.
Um protocolo nos moldes de Praia Grande ou Guarujá resolveria boa parte do impasse. O morador avisa, a CET orienta sobre onde não pintar e a rua fica mais alegre sem risco de multa pra ninguém. Essa abordagem combina melhor com o discurso de ODS do que a notificação.
Se Santos quer bater no peito e dizer que apoia a Agenda 2030, seria de bom tom deixar os santistas entrarem no clima da Copa e, de quebra, criar uma comunidade unida.