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Revolução pela arte: santista conta a história dos Racionais MCs em livro

Historiador Diego Turato analisa álbum por álbum a obra do maior grupo de rap do Brasil

Tempo de leitura: 5 minutos

O que acontece quando um historiador da Baixada Santista decide parar e olhar fundo para o grupo que moldou a consciência de uma geração inteira? Nasce um livro que merece espaço na estante de todo mundo que gosta de música e se importa com questões sociais. Diego Turato, mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP, professor e pesquisador santista, acaba de lançar uma obra dedicada à trajetória dos Racionais MC’s.

O trabalho apresenta uma narrativa biográfica construída a partir da análise dos álbuns oficiais do grupo, abordando a vida e a produção dos rappers, além do papel que exerceram na denúncia do racismo estrutural e das desigualdades sociais.

www.juicysantos.com.br - Revolução através da arte: Santista lança livro sobre os Racionais MC'sFoto: Divulgação

De São Paulo para o mundo, com parada em Santos

Os Racionais MC’s surgiram no final da década de 1980, formados por Mano Brown, Edi Rock, Ice Blue e DJ KL Jay.

Mano Brown e Ice Blue vieram da Zona Sul de São Paulo, enquanto Edi Rock e KL Jay eram da Zona Norte. Desde o começo, a missão era clara: dar voz ao que a grande mídia preferia ignorar.

Suas canções demonstram a preocupação em denunciar a destruição da vida de jovens negros e pobres das periferias brasileiras. Racismo, brutalidade policial, crime organizado e exclusão social são temas recorrentes nas letras.

Mas o que a Baixada Santista tem a ver com tudo isso?

Bastante. Na música “Salve”, do álbum Sobrevivendo no Inferno (1997), os rappers citam explicitamente a Zona Noroeste de Santos, saudando as quebradas aliadas espalhadas pelo Brasil. Não é um acaso. É reconhecimento. Santos, com sua geografia de morros e periferias vibrantes, sempre fez parte do mapa do hip-hop nacional.

Além disso, Turato revela que os Racionais chegaram a realizar um show na Zona Noroeste, uma memória que a região guarda, mas que poucas vezes ganhou registro formal.

O álbum que mudou o Brasil

Lançado em dezembro de 1997 pelo selo Cosa Nostra, criado pelo próprio grupo, Sobrevivendo no Inferno vendeu mais de 1,5 milhão de cópias de forma independente, sem o apoio de grandes gravadoras.

As letras falam sobre os dramas reais da vida na favela: racismo, violência policial, drogas, criminalidade e pobreza, de maneira direta e sincera. Algo até então incomum na música brasileira. O disco também figurou entre os 100 maiores álbuns da música brasileira, segundo a revista Rolling Stone. Portanto, falar dos Racionais não é só falar de rap. É falar de história do Brasil.

Santos tem tradição no hip-hop

A Baixada Santista não é apenas plateia dessa história. É protagonista.

Quem acompanha a cena cultural da região sabe que o hip-hop sempre encontrou terreno fértil por aqui. Os morros, a Zona Noroeste e os bairros periféricos de Santos e dos municípios vizinhos produziram MCs, DJs, b-boys e grafiteiros que construíram uma identidade própria dentro do movimento.

Assim como Turato já havia documentado o funk santista em seu livro anterior, “A história do funk santista”, agora ele volta o olhar para o rap com o mesmo rigor acadêmico e o mesmo orgulho de quem nasceu e cresceu nessa cidade.

“Ao longo dos anos os Racionais têm sido um grupo que marcou a vida de milhões de pessoas. Despertando o povo periférico, ensinando e conscientizando as comunidades mais pobres do país”, explica o autor sobre a motivação do projeto.

Um livro para quem não aparece nos livros

O projeto carrega uma dimensão ainda maior. Turato conta que está conversando com instituições e escolas para distribuir gratuitamente o livro digital para estudantes de baixa renda. A ideia é que a distribuição aconteça prioritariamente na Zona Noroeste de Santos, justamente pela ligação histórica da região com o grupo.

www.juicysantos.com.br - Revolução através da arte: Santista lança livro sobre os Racionais MC's

Além disso, Mano Brown já declarou que estar no palco é mais do que música: é sobre mostrar que o corre de quem vive na periferia tem valor, potência e merece ser celebrado. O livro de Turato carrega esse mesmo espírito.

Contudo, para chegar às mãos de quem precisa, a obra precisa antes ser viabilizada. É aí que entra o financiamento coletivo.

Como apoiar?

O financiamento coletivo vai até o dia 13 de maio na plataforma Catarse. Quem participar garante o livro impresso ou o e-book por um valor reduzido. Após essa data, o livro segue disponível para compra normalmente, mas sem o desconto do período de campanha.

Após o encerramento da campanha, há previsão de que o autor realize uma série de apresentações pelo estado de São Paulo e outras regiões do Brasil.

Apoiar não é só comprar um livro. É garantir que a história da periferia continue sendo contada pela própria periferia.

Financiamento coletivo: catarse.me/livro_racionais_mcs
Período: até 13 de maio de 2025
Autor: Diego Turato | Instagram: @diego_turato

Vitor Fagundes
Texto por

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