Quando a folia deixou a cidade: como Santos quase perdeu seu Carnaval
De protagonista do samba a cidade que ficou 6 anos sem Carnaval, Santos conseguiu reerguer sua festa popular
Você consegue imaginar uma cidade brasileira sem Carnaval?
Pois é, entre 1999 e 2005, Santos viveu um hiato doloroso: foram cinco anos consecutivos sem desfiles. Enquanto o Brasil fervia no ritmo da folia – e evoluia sua manifestação cultural mais icônica, as fantasias em Santos foram guardadas e ficaram assistindo a uma tradição tão nossa perder força.
Para entender o peso desse silêncio de cinco anos, é preciso lembrar que Santos nunca foi coadjuvante na folia. Pelo contrário: até a década de 1970, nossa cidade ostentava o título de “segundo melhor Carnaval do Brasil”, atrás apenas do Rio de Janeiro.
A força cultural era tamanha que, entre 1966 e 1971, era a sede do Campeonato Estadual de Samba. Escolas da capital e do interior desciam a serra não para passear, mas para competir e aprender com agremiações lendárias como a X-9 – a pioneira, nascida em 1944 dos estivadores e carvoeiros – e a elegância de mestres como Dráuzio da Cruz, o “Lord Brilhantina”.
Essa identidade de vanguarda, no entanto, sofreu seu primeiro grande golpe em 1977, quando os desfiles foram proibidos na orla da praia. Foi um trauma urbano: o samba, que nasceu plural e democrático nos morros e no cais, foi empurrado para longe dos cartões-postais. A resposta da comunidade veio com a criatividade das bandas carnavalescas, puxadas pela histórica Banda da Divisa, provando que a alegria sempre encontra frestas para brotar.
A gente contou um pouco dessa história no Juicycast, em um episódio especial sobre a memória do Carnaval de Santos.
Uma casa para o samba santista
A reviravola só aconteceu em 2006 e veio cheia de simbolismos. O samba encontrou sua verdadeira casa e voltou a pulsar forte na Zona Noroeste. A transferência para a Passarela Dráuzio da Cruz não representava apenas logística, e sim um reencontro da cidade com sua identidade, abraçando quem faz a festa acontecer.
Celebrando 20 anos dessa retomada histórica, o jornalista e professor Wagner de Alcântara Aragão relança o livro-reportagem “Duas noites — o (re)encontro de Santos com o samba de Carnaval“.
A obra é um documento valioso sobre a resiliência das nossas 12 escolas de samba, que quebraram o silêncio naquelas noites de fevereiro de 2006. Mais do que nostalgia, essa nova edição chega como um manual de prosperidade cultural: precisamos conhecer os bastidores dessa luta para valorizar quem faz o espetáculo e garantir que esse silenciamento nunca mais aconteça.

Quando as escolas voltaram a pisar na avenida em 2006, na Zona Noroeste, elas não estavam apenas desfilando. Elas reivindicavam um legado que vai do “Bota o Feijão no Fogo” aos tempos áureos dos desfiles estaduais. O livro “Duas Noites” é, portanto, o registro de como Santos recuperou sua própria memória para, quem sabe, voltar a ser a capital do samba que um dia já foi.
A cidade que quase esqueceu o samba
O livro reúne relatos de desfilantes, diálogos entre equipes das escolas, testemunhos de espectadores e as letras dos sambas-enredo daquele ano.
“O clima nos bastidores era aquele típico de reencontros: de muita saudade, de muita alegria, de muita satisfação por se ter resistido, dado a volta por cima”, conta Aragão.
O autor, que se define como “santista bem bairrista”, atribui o apagão carnavalesco a uma gestão municipal conservadora e avessa a manifestações populares.
“A Prefeitura naquele período não fez muita questão de enfrentar desafios e obstáculos para a realização dos desfiles, e por conveniência deixou de promovê-los”, avalia.
E uma questão um tanto quanto curiosa é que a única exceção foi justamente em 2000, ou seja, ano de eleição municipal.
Uma nova era com desafios antigos
A transferência da passarela para a Zona Noroeste em 2006 gerou dúvidas.
“No imaginário coletivo, desfile de escola de samba em cidade litorânea ainda era associado à orla”, explica Aragão.
Mas funcionou: a comunidade do samba reconheceu ali um local apropriado, e os desfiles evoluíram ano a ano em técnica, pluralidade de enredos e criatividade. Porém, Wagner faz um alerta para problemas estruturais que persistem duas décadas depois.
“Não avançamos para uma Fábrica ou Cidade do Samba, o sambódromo hoje está espremido pelo adensamento do entorno. Onde antes havia áreas livres, hoje surgem condomínios, hipermercados e até um hospital. Tudo isso não só inibe evoluções como põe em risco a realização de desfiles, futuramente.” aponta.
Desfiles acontecem uma semana antes do Carnaval oficial
Uma decisão estratégica fortaleceu o Carnaval santista: antecipar os desfiles em relação à São Paulo e Rio de Janeiro.
“Permite intercâmbio, dá mais visibilidade, fortalece nossas escolas, o espetáculo”, destaca o autor e jornalista.
A medida também facilitou a evolução técnica, já que profissionais de outras cidades passaram a contribuir com as agremiações locais. Ainda assim, o autor insiste na necessidade de infraestrutura permanente.
“São estruturas fundamentais para que o nosso Carnaval não pare no tempo e corra o risco de ser sufocado novamente”, alerta.
Mobilização política como antídoto ao esquecimento
Para o jornalista, evitar novos apagões depende de consciência política, com mobilização, consciência de classe, o que demanda conhecimento da história, das relações de poder, será possível evitar que a história se repita. Assim, surge a importância de registrar — e ler — memórias como as de “Duas noites“.
O livro, lançado originalmente em 2007, volta agora como farol para futuras gerações. Porque Santos quase ficou sem Carnaval. E ninguém garantiu que bastidores políticos não tentem apagar o samba de novo. A pergunta que fica é: a cidade vai deixar?