Projeto MAR: uniformes descartados viram renda para mulheres no Guarujá
No Chaparral, bairro do Guarujá, uniformes que saíram do Porto de Santos estão voltando às ruas da Baixada Santista em outras versões. Não como descarte, mas como produto.
Mulheres da própria comunidade estão transformando essas peças em necessaires sustentáveis, encomendadas pela Santos Brasil para uso como brindes corporativos. São 300 unidades no total, costuradas uma a uma, com técnica, com rigor e com a história de quem não esperou oportunidade cair do céu.

O projeto se chama MAR — Mulheres Artesãs. E é um exemplo de parceria entre empresa e comunidade da qual a região ainda precisa mais.
Projeto MAR
O MAR — Mulheres Artesãs é uma iniciativa da CUFA Baixada Santista em parceria com a Santos Brasil, empresa de logística portuária com forte presença no Porto de Santos. O projeto tem uma lógica simples, mas potente: reaproveitar uniformes corporativos usados que seriam descartados e transformá-los em produtos sustentáveis.
O resultado? Necessaires que a Santos Brasil vai usar como brindes corporativos. Quem confecciona são as próprias mulheres da comunidade.
Além disso, o projeto conecta três pontos que, juntos, resultam em prosperidade: formação profissional, geração de renda e responsabilidade socioambiental. Mais do que peças de artesanato, é economia circular pura funcionando na prática.
Do curso ao mutirão
Tudo começou com o Curso de Corte e Costura, também viabilizado pelo MAR e pela Santos Brasil em 2025, ministrado pelo professor Eddie World, especialista em upcycling, a arte de transformar materiais descartados em produtos de valor.
E o curso não terminou com os certificados. Isso porque, ao final, as alunas que se destacaram foram chamadas para um mutirão de produção. E a diretora social da CUFA Baixada Santista, Lilian Ferreira, resume bem o que aconteceu a partir daí:
“Foi maravilhoso. Primeiro porque elas puderam colocar em prática o que aprenderam e se aperfeiçoar. O professor Eddie conduziu todo o processo para que tudo saísse perfeito, da costura e acabamento e até o corte para aproveitar bem os uniformes”.
Assim, o que parecia apenas um curso virou uma ponte real para o mercado de trabalho.

Desafios técnicos
Costurar com uniforme usado não é a mesma coisa que costurar com tecido novo. Eddie World, que assina a coordenação técnica do mutirão, explica que o upcycling exige o melhor de dois mundos.
“O lado criativo tem a ideia, e o técnico valida se é possível executá-la. No criativo você define cores e modelagem. O técnico te prova se essa construção é possível — a partir da modelagem, da mescla de tecidos e do acabamento.”
Os uniformes usados chegam com manchas, partes desgastadas e limitações de tamanho. Por isso, cada peça passa por uma triagem antes de virar produto. E há outro detalhe que torna o processo ainda mais trabalhoso: a fita refletiva, símbolo visual dos uniformes da Santos Brasil, precisa aparecer na mesma posição em todas as necessaires.
Como o tecido não é um plano aberto que permite corte em escala, cada peça é marcada e cortada individualmente — como um quebra-cabeça. Um processo lento, técnico e artesanal ao mesmo tempo.
Economia circular com endereço na periferia
A maioria das conversas sobre sustentabilidade acontece em escritórios com ar-condicionado. Esse projeto acontece na ONG Reino nas Ruas, no Chaparral, Guarujá.
E essa diferença de endereço importa muito. Quando a produção e a renda ficam dentro da própria comunidade, o impacto se multiplica. Lilian Ferreira é direta:
“Quando a produção e a renda permanecem dentro da própria comunidade, a gente fortalece o empreendedorismo local, cria oportunidades e movimenta a economia do território.”
Além disso, a diretora aponta algo que vai além das costuras: a autoestima.
“Quando a gente trabalha com mulheres da periferia, temos outra barreira. Elas precisam se ver capazes. Trabalhar a autoestima dessas mulheres é muito importante.”
A Santos Brasil, por sua vez, enxerga no projeto um modelo que vai além do descarte responsável. Béatrice de Toledo Dupuy, gerente executiva de Comunicação Corporativa e Sustentabilidade da empresa, afirma que “ver essas mulheres criando, empreendendo e gerando renda a partir de algo que seria descartado evidencia, na prática, o poder da transformação social.”
O que vem depois das 300 peças?
A meta atual é produzir 300 necessaires. Mas a CUFA Baixada Santista já pensa nos próximos passos. A ideia é que o mutirão sensibilize outras empresas a doarem uniformes e que o grupo evolua para uma cooperativa estruturada, com linha de produção permanente.
Portanto, porta-moedas, bonés e outros produtos já estão no horizonte. E, além disso, novas oficinas de empreendedorismo estão no plano — porque costurar bem é só o começo.
Potencial
O Porto de Santos movimenta bilhões em cargas todos os anos. A Santos Brasil é uma das principais operadoras desse porto. Porém, são raras as vezes em que a riqueza gerada pelo complexo portuário chega de forma direta às comunidades da Baixada Santista.
Esse projeto é um jeito de olhar diferente para esse potencial. E ainda pode ser replicado em múltiplas formas. Se uma empresa do porte da Santos Brasil consegue transformar uniformes descartados em geração de renda para mulheres, o que mais outras marcas da região podem fazer pelo território?
Serviço
- Projeto MAR – Mulheres Artesãs
- Realização: CUFA Baixada Santista
- Parceria: Santos Brasil
- Local das atividades: ONG Reino nas Ruas — Comunidade do Chaparral, Guarujá/SP
- Coordenação técnica: Professor Eddie World
- Instagram CUFA Baixada Santista: @cufabaixadasantista