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Verão sem banho e torneira seca: Santos revive o fantasma da falta d’água

Moradores de Gonzaga, Boqueirão e Pompéia enfrentam problema esquecido desde os anos 1980, enquanto debate sobre gestão privada do saneamento ganha força

Tempo de leitura: 5 minutos

A ONU reconhece a água potável e o saneamento básico como direitos humanos fundamentais, essenciais para uma vida digna e para a saúde pública. A pergunta que corre pelas ruas (ao invés de água) de Santos e da Baixada Santista é inevitável: faz sentido entregar algo tão vital nas mãos de uma empresa privada cujo objetivo principal é o lucro?

www.juicysantos.com.br - Privatização faz com que bairros de Santos fiquem sem água após 40 anos

 

A questão deixou de ser retórica para os moradores da orla santista. Pela primeira vez em 40 anos, bairros como Gonzaga, Boqueirão e Pompéia voltaram a conviver com a falta d’água e baixa pressão nas torneiras, um problema que parecia definitivamente superado desde os anos 1980, quando grandes investimentos em infraestrutura estabilizaram o abastecimento na Zona Leste da cidade.

Um problema antigo que volta a assombrar

Antes dos anos 1980, Santos enfrentava falhas constantes no abastecimento. Entre as décadas de 1950 e 1970, o crescimento urbano avançou mais rápido que a infraestrutura. Depois disso, investimentos em reservatórios, estações de tratamento e adutoras mudaram o cenário. Como resultado, a orla viveu cerca de 40 anos de estabilidade.

No entanto, essa realidade nunca foi igual para todos. A Zona Noroeste, os Morros e cidades como Guarujá e São Vicente sempre lidaram com interrupções. Assim, a desigualdade no acesso à água permaneceu invisível por décadas.

www.juicysantos.com.br - Comentário 1

 

Agora, porém, até os bairros considerados privilegiados sentem o impacto. Durante o verão, a falta d’água voltou à rotina. Coincidentemente ou não, os problemas cresceram após a privatização da Sabesp.

A privatização da Sabesp

Em 23 de julho de 2024, o governador Tarcísio de Freitas concluiu a privatização da Sabesp. A empresa atende cerca de 28 milhões de pessoas no Estado. Com isso, São Paulo reduziu sua participação acionária para 18%.

www.juicysantos.com.br - Tarcísio

 

Foto: Folha de SP/Rubens Cavallari 

Em seguida, a Equatorial Participações adquiriu 15% das ações. Outros 17% ficaram com investidores do mercado financeiro. No total, a operação rendeu R$ 14,8 bilhões aos cofres estaduais.

Desse montante, mais de R$ 4 bilhões foram destinados a um fundo de garantias ao consumidor. O governo prometeu subsídios tarifários e obras até 2029. Mas os números milionários parecem distantes da realidade das torneiras secas.

Crise no verão

A Sabesp atribui a crise entre o fim de 2025 e o início de 2026 a vários fatores. Segundo a empresa, a região enfrentou estiagem severa, recorde de turistas no Réveillon e temporais que afetaram estações de tratamento.

De acordo com a companhia, quase 1 milhão de veículos desceram a serra no período. Além disso, o consumo de água aumentou mais de 60% em alguns municípios. No Guarujá, a produção da Estação Jurubatuba caiu pela metade.

Ao mesmo tempo, chuvas intensas afetaram a ETA Mambu-Branco. A estação abastece Itanhaém, Mongaguá, Peruíbe, Praia Grande e parte de São Vicente. Mesmo dias depois, cidades da região ainda registravam falhas.

Em nota, a empresa pediu “sinceras desculpas pelos transtornos”. Também orientou a população a “usar a água com consciência” e “evitar desperdícios”.

A crítica política e o debate sobre o modelo de gestão

A privatização da Sabesp dividiu opiniões na Assembleia Legislativa. O deputado Caio França se posicionou contra a medida em um post do Juicy:

www.juicysantos.com.br - Caio França

 

Além disso, o tema deve pesar nas eleições de 2026. Márcio França aparece como possível adversário de Tarcísio de Freitas. Nesse cenário, a gestão da água tende a ocupar papel central na campanha.

Nos comentários de reportagens, moradores expressam frustração. O mesmo sentimento aparece nas redes sociais e nas conversas de rua. A indignação se espalha por toda a Baixada Santista.

Água é direito, não mercadoria

A questão transcende disputas políticas e partidárias. O acesso à água potável não pode ser tratado como fonte de lucro. Quando a lógica do mercado se sobrepõe à garantia de direitos fundamentais, quem paga o preço é sempre a população, especialmente a mais vulnerável.

Enquanto as ações da Sabesp valorizaram mais de 140% desde o fim de 2021, beneficiando acionistas e investidores, os moradores da Baixada Santista voltam a enfrentar um problema que julgavam superado há décadas.

A pergunta permanece: será que os R$ 14,8 bilhões arrecadados e as promessas de investimento justificam entregar a gestão da água, um bem essencial à vida, a uma empresa privada? A resposta pode estar nas torneiras secas de Santos, Guarujá e região.

Colaboração da população é importante, dizem as notas oficiais. Mas e a responsabilidade da empresa privatizada em garantir o direito básico ao abastecimento?

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