Clique aqui e confira também nosso tema da semana

Praias de SP viram tapete de bolachas-do-mar: fenômeno natural ou sinal de alerta? 

Praia de Ilha Comprida registrou o encalhe de milhares de equinodermos no início de março. Especialistas explicam o que aconteceu

Tempo de leitura: 5 minutos

No dia 8 de março de 2026, a areia de Ilha Comprida amanheceu um tanto quanto diferente. Quem chegou cedo à praia se deparou com um cenário incomum: milhares de bolachas-do-mar cobrindo a faixa de areia, acompanhadas de um cheiro forte e desagradável.

www.juicysantos.com.brFoto: Rinaldo Rori/TV Tribuna

O registro rapidamente viralizou nas redes sociais e gerou dúvidas — afinal, o que exatamente aconteceu ali? A resposta envolve maré, frente fria, biologia marinha e até a lua! Portanto, vale entender o fenômeno de perto.

Quem é a bolacha-do-mar?

Antes de tudo, um passo atrás. A bolacha-do-mar — também chamada de bolacha-da-praia — não é uma concha muito menos um objeto decorativo. É um animal vivo.

Ela pertence ao grupo dos equinodermos, a mesma família das estrelas-do-mar e dos ouriços. Seu corpo arredondado e achatado é coberto por minúsculos espinhos aveludados. Quando viva, sua coloração vai do marrom ao levemente arroxeado.

Esses animais vivem enterrados no fundo arenoso do mar, geralmente em águas rasas — de poucos centímetros até cerca de 30 metros de profundidade. Alimentam-se de partículas orgânicas, algas e larvas de crustáceos presentes na areia e no lodo. Contudo, são lentos. Bem lentos.

“Elas utilizam os pés ambulacrais para fazer a locomoção, além dos espinhos para se arrastar na areia”, explica Eric Comin, biólogo marinho e instrutor de mergulho.

A combinação fatal

O primeiro fator foi astronômico. O período coincidiu com a lua de sizígia — que ocorre tanto na lua cheia quanto na lua nova. O ciclo de maré de sizígia, potencializado pela Lua Cheia, provoca mudanças drásticas na elevação d’água. Em outras palavras: o mar subiu muito e desceu muito.

O segundo fator foi climático. Especialistas da Fundação Florestal apontam que a chegada de uma forte frente fria agitou o mar durante o fim de semana, tornando-se a principal hipótese para o deslocamento das espécies.

O terceiro fator é geográfico — e é aqui que Ilha Comprida entra como protagonista involuntária. A praia de Ilha Comprida é dissipativa, ou seja, com baixa declividade, areia fina e energia das ondas gradualmente dissipada por bancos de areia antes de chegar à costa. Esse ambiente é bastante favorável à ocorrência de bolachas-do-mar.  Além disso, tudo aconteceu em plena época reprodutiva.

“Dá para sugerir que elas passaram por uma agregação de reprodução, o que mostra a grande quantidade de bolachas-do-mar”, aponta Eric Comin.

Por que tantas morreram?

A morte em massa tem uma explicação simples e cruel. As bolachas foram arrastadas pela maré alta e pelas ondas até a faixa de areia. Quando a maré baixou rapidamente, elas não tiveram tempo nem capacidade de retornar ao mar.

Durante a ocorrência das marés baixas, a longa exposição sob o sol acarreta a morte de uma grande parcela desses pequenos habitantes do fundo do mar. O calor queima rapidamente os espinhos da sua estrutura, restando visível apenas o esqueleto esbranquiçado de textura rígida.

“Esses animais acabaram ficando expostos ao sol, o que causou essa grande mortalidade”, confirma Comin.

Não leve pra casa. Sério!

Quem cresceu no litoral sabe bem: a casquinha branca e redondinha da bolacha-do-mar é um clássico das praia. Crianças e adultos pegando, pessoas levando como objeto de decoração, também faz parte do cenário. Mas os especialistas pedem que esse hábito acabe.

Preservar as estruturas no lugar apoia diretamente o ciclo do carbonato de cálcio, substância absorvida novamente pelo próprio ecossistema marinho de forma contínua.

“Esse carbonato de cálcio faz parte de uma reciclagem e tem toda uma função pro oceano. Então é interessante ele ser devolvido ali.”, alerta Eric.

Além disso, nem todas as bolachas encontradas na areia estavam mortas no momento do encalhe. Portanto, recolhê-las ou pisoteá-las causa um dano ainda maior do que parece.

Fenômeno raro? Não exatamente

Este não foi o primeiro episódio do tipo no litoral paulista. Ocorrências semelhantes foram registradas em praias da região no final de fevereiro de 2024 e 2025. Assim, o fenômeno parece estar se tornando mais frequente — o que levanta perguntas sobre o impacto das mudanças climáticas nos padrões de maré e na concentração de animais marinhos em zonas de rebentação.

A fundação está analisando, junto à Prefeitura de Ilha Comprida e outros órgãos ambientais, o que deve ser feito agora para remover as bolachas da praia. Entidades de preservação seguem monitorando a situação.

O mar avisa. A gente precisa ouvir.

O litoral paulista é um organismo vivo — e a Ilha Comprida, é um dos trechos mais sensíveis dessa equação. Quando o mar devolve à areia o que vive no seu fundo, talvez seja um convite a prestar mais atenção no que fazemos com ele.

E não é só a bolacha-do-mar que manda esse recado. Nos últimos anos, o litoral paulista acumulou episódios de ressacas fora de época, mortandade de peixes e alterações na temperatura da água.

Cada ocorrência chega com a sua própria explicação técnica — lua, vento, frente fria, corrente. Contudo, quando os sinais se repetem com frequência, a ciência para de chamar de coincidência. O mar não está em pânico. Mas está, claramente, em desequilíbrio. E Santos, cidade que existe por causa do oceano, tem mais razão do que qualquer outra para levar isso a sério.

Gostou da matéria? No YouTube do Juicy Santos tem muito mais sobre a Baixada Santista pra você ficar sempre por dentro do que rola por aqui. Inscreva-se no canal.

Vitor Fagundes
Texto por

Contato