Por que Santos precisa incluir quem ficou de fora da revolução digital
Para muita gente, usar QR Code, aplicativo do banco ou marcar uma consulta pelo celular parece simples. Mas, para quem nasceu muito antes da internet existir, cada atualização pode virar um novo desafio
“Filho, faz um pix pra mim aqui?”
A frase virou clássico em qualquer família com pai, mãe ou avós na casa dos 60 anos ou mais. Vem acompanhada de um suspiro de irritação quando o aplicativo pede senha, seguido da queixa de sempre: “Vocês nunca têm tempo pra ajudar”.
Antes de bufar com essa reclamação, tenha um momento de empatia. Imagine como é a vida de quem nasceu antes da televisão chegar ao Brasil.
Hoje, essa pessoa precisa de smartphone até para comprar um rolo de papel higiênico ou para saber o que tem no cardápio de um bar. O mundo dos farmadores de aura, dos QR Codes e das senhas de seis com caracteres especiais não pediu licença para ninguém envelhecer no ritmo dele.

Uma sociedade que obriga alguém de noventa anos a usar aparelhos eletrônicos para acessar direitos básicos não é sinônimo de progresso. É, na prática, uma forma de exclusão travestida de modernidade.
Santos sente esse descompasso de perto. A cidade tem 106.057 moradores com mais de 60 anos, segundo o último CENSO do IBGE, de 2022.
Isso dentro de uma população total de 418.608 habitantes.
Um em cada quatro santistas, portanto, faz parte de uma geração obrigada a reaprender o básico da vida dentro de uma tela.
Até o cardápio virou barreira
Faz tempo que pedir uma cerveja em Santos significa apontar o celular para um quadradinho preto e branco na mesa. É preciso torcer para o sinal pegar e esperar a página carregar antes mesmo de decidir a entrada. Quem não tem prática com QR Code, ou simplesmente não enxerga bem a tela pequena, muitas vezes desiste. Por isso, pede “o de sempre” só para não passar vergonha.
A cidade sancionou uma lei que obriga bares, restaurantes e lanchonetes a manterem cardápio físico disponível. Também exige pelo menos um exemplar em braile para clientes com deficiência visual. A norma prevê cardápios impressos em quantidade equivalente a 10% da capacidade de atendimento simultânea do estabelecimento. Além disso, estabelece prazo de adaptação e multa para quem não cumprir.
A medida parece pequena, mas devolve algo essencial: a possibilidade de sentar em um bar e escolher o prato sem depender de bateria, sinal de internet ou paciência para mexer em telas pequenas.
Um mundo que virou aplicativo
Pesquisas recentes sobre letramento digital no Brasil mostram um retrato preocupante da faixa etária entre 50 e 64 anos. Quase metade dessas pessoas tem dificuldade real para realizar tarefas simples online. Por exemplo, fazer uma compra pela internet, escolher um filme no streaming ou preencher um formulário com dados pessoais.
Esse gargalo ficou ainda mais apertado quando órgãos públicos passaram a concentrar serviços essenciais dentro de aplicativos, sem alternativa de atendimento presencial. Quem tem dificuldade acaba precisando ligar para uma central telefônica ou pedir ajuda a um filho, neto ou vizinho disponível. Isso, é claro, quando existe algum por perto.
Enquanto isso, os idosos ainda enfrentam sozinhos a publicidade abusiva de sites de aposta, as notícias falsas que circulam no WhatsApp e os vídeos gerados por inteligência artificial que parecem cada vez mais reais. Ninguém fez o trabalho de apresentar essa nova realidade para quem não cresceu dentro dela.
Sim, é mais mais do que só lembrar a senha do Gov.Br.
Santos tem uma saída gratuita para o problema
A boa notícia é que a cidade não fica de braços cruzados diante desse cenário. Na sexta-feira (7 de agosto), às 15h30, a OSC Consciência pela Cidadania promove a oficina “Independência Digital para 60+”, gratuita e pensada exclusivamente para a terceira idade.
O encontro vai muito além de ensinar a mexer no celular. A programação também aborda segurança digital, com foco em como identificar e evitar golpes financeiros. Este é um tema que preocupa cada vez mais famílias na Baixada Santista. Quem conduz a oficina é Emilio Cid, professor de idiomas e tecnologia. Ele soma experiência técnica com sensibilidade para lidar com o público mais velho.
A iniciativa se inspira no sucesso do perfil @60demais no Instagram, criado por um casal e hoje com mais de 700 mil seguidores, prova de que existe fome de conteúdo pensado para essa faixa etária.
Vovonauta já é referência na cidade
Santos, aliás, já tem outro exemplo consolidado nessa linha. O projeto Vovonauta oferece capacitação tecnológica gratuita e presencial para moradores acima de 60 anos. Há turmas que costumam abrir todos os anos e se preencher rapidamente.
O curso ensina desde o básico, como usar a câmera do celular e o WhatsApp, até tarefas mais avançadas, como marcar consulta médica online ou pedir um carro por aplicativo. Tudo no ritmo de cada participante, sem pressa e sem cobrança.
Entre a lei do cardápio impresso e oficinas como essa, Santos mostra que dá para incluir sem exigir que todo mundo vire expert em tecnologia. Ensinar quem tem 60, 70 ou 90 anos é reparação de uma exclusão que a própria modernidade criou. Quem tem um familiar mais velho travado no meio do caminho digital pode começar oferecendo o que muitas vezes falta: paciência para ensinar de novo, com calma, até funcionar.
Serviço
Evento: Oficina “Independência Digital para 60+”
Data e horário: 7 de agosto, às 15h30
Local: Estação da Cidadania, Avenida Ana Costa, 340, Santos
Facilitador: Emilio Cid, professor de idiomas e tecnologia
Mais informações: @concidadania no Instagram
Inscrições pelo número: (13) 99778-7367