Por que ficamos tão tristes depois dessas eleições?
Como nosso corpo e mente reagem quando a esperança política de uma parte da população desaparece, enquanto propostas que são ameaçadoras para sua existência ganham espaço?
Se você mora no Brasil e não espera dias pela contagem do papelzinho, sabe que o típico barulho da urna indica o final do voto. Para muitas pessoas, a eleição acabou ali. Para outros, é justamente onde começa a parte mais difícil.
O primeiro turno para a presidência do Brasil deixou um país dividido em dois projetos antagônicos que seguem vivos na disputa. Flávio Bolsonaro terminou à frente, com 47,03% dos votos válidos, e Lula ficou com 45,16%. Os dois voltam às urnas em 25 de outubro.
Isso significa que a sensação de encerramento ainda convive com outra rodada de disputa. Para quem saiu do domingo satisfeito, existe expectativa. Para quem recebeu o resultado como ameaça a direitos, políticas públicas ou valores que considera fundamentais, existe outra coisa: a tentativa de imaginar o que vem depois.

Essa reação é natural. O voto também envolve identidade, pertencimento, memória e uma ideia de futuro. Quando o resultado eleitoral parece colocar esse futuro em risco, a política sai do lugar de assunto de debate e passa a ocupar espaço dentro de casa, no trabalho, nas amizades e até no corpo.
Decepção e cansaço
Quando o primeiro turno mostrou seus resultados oficiais, abrimos uma caixa de perguntas no Instagram do Juicy Santos perguntando como a nossa audiencia estava se sentindo.
Apareceram muitas vezes termos como desesperança, tristeza, medo, pânico, retrocesso, revolta, ódio e desalento.
O psicólogo Bruno Farias explica que sentir tristeza logo depois de uma eleição pode ser uma reação normal. A questão começa a mudar quando a emoção permanece por tempo prolongado e interfere na vida cotidiana.
“Uma tristeza aguda depois de um resultado eleitoral é algo esperado. O que precisa ser observado é a duração e o quanto isso começa a interferir na vida da pessoa.”
Por isso, falar sobre a ressaca emocional de uma eleição exige cuidado. Não dá para tratar toda preocupação como exagero. Também não dá para transformar toda previsão de desastre em realidade antes que ela aconteça.
Entre uma coisa e outra existe um território cheio de fatos, interpretações, medo, informação e, principalmente, escolhas.
O resultado chegou
No domingo à noite, bastou atualizar a tela do celular algumas vezes ou acompanhar na televisão para saber quem avançou.
Flávio Bolsonaro recebeu 56.104.268 votos no primeiro turno. Lula recebeu 53.876.617. A diferença ficou em pouco mais de 2,2 milhões de votos.
Em São Paulo, Flávio venceu no estado, enquanto Lula ficou à frente na capital. Na Baixada Santista, Flávio foi o mais votado em quase todos os municípios, com exceção de Cubatão.
Santos, portanto, está inserida em um cenário político que não cabe em uma única leitura. Uma cidade com metro quadrado supervalorizado, periferias, população mais velha, maioria feminina, porto, diferentes perfis econômicos e trajetórias políticas não funciona como uma caixinha.
A eleição também mostrou uma força expressiva do PL no Legislativo. Em São Paulo, o partido elegeu 19 dos 70 deputados federais. Lucas Pavanato foi o deputado federal mais votado do estado, com 3.038.438 votos.
Esses números ajudam a entender uma parte da sensação que tomou conta das redes depois da apuração. O resultado não escolheu apenas quem disputaria o segundo turno. Também definiu quem terá espaço institucional para apresentar projetos, votar leis, fiscalizar governos e participar das decisões sobre orçamento.
E existe uma diferença que costuma desaparecer no meio da discussão política: discurso, proposta e poder real não são a mesma coisa. Essa distinção parece burocrática até o momento em que uma promessa começa a produzir medo.
A preocupação tem endereço
Para algumas pessoas, o receio diante do resultado eleitoral é abstrato. Para outras, ele tem nome, proposta e possível consequência.
O plano de governo de Flávio Bolsonaro, por exemplo, apresenta mudanças em áreas que atravessam diretamente a vida cotidiana. Entre elas estão uma redução do número de ministérios, novas regras fiscais, mudanças na relação entre Legislativo e Supremo Tribunal Federal, redução da maioridade penal e ampliação de parcerias privadas na saúde.
O documento também fala em reajuste da tabela do SUS, telessaúde, entrega de medicamentos em casa e ampliação de instituições de longa permanência para idosos.
Há propostas que agradam determinados eleitores e preocupam outros. Essa diferença não precisa ser apagada para que a discussão seja democrática.
Um exemplo está na relação com o Supremo. O plano de Flávio Bolsonaro propõe limitar decisões monocráticas de ministros, estabelecer quarentena antes da indicação de ministros de Estado para a Corte e permitir que parlamentares sejam julgados por instâncias inferiores em determinadas situações.
São mudanças institucionais que podem ser debatidas, aprovadas ou rejeitadas dentro das regras constitucionais. Para quem vê o STF como um contrapeso essencial ao poder político, elas podem gerar preocupação. Para quem considera que a Corte acumulou funções demais, podem representar uma correção necessária.
O ponto está em reconhecer que o medo pode nascer de uma proposta concreta. Não precisa ser inventado pelo algoritmo.
Benefícios pra quem?
No caso de Lucas Pavanato, eleito para a Câmara dos Deputados por São Paulo com a maior votação do estado, algumas propostas também ajudam a explicar a temperatura do debate.
Entre as posições divulgadas por ele estão a proibição de terapias hormonais para transição de gênero em menores de 18 anos, o fim de cotas raciais, de gênero e exclusivas para travestis, além de mudanças na maioridade penal e propostas relacionadas a empresas estatais e uso de banheiros.
Para pessoas trans, famílias, movimentos antirracistas ou quem defende políticas de ação afirmativa, essas propostas podem ser percebidas como ameaça a direitos e políticas existentes.
Para quem defende essas mudanças, elas representam outra visão sobre igualdade, segurança, educação ou papel do Estado.
O fato de grupos diferentes interpretarem a mesma proposta de maneiras opostas não torna todas as interpretações equivalentes. O caminho mais seguro é voltar ao documento, à fala registrada e àquilo que o cargo realmente permite fazer.
É aí que a política fica menos parecida com guerra de torcidas.
A preocupação pode ser saudável?
Farias faz uma separação importante entre preocupação legítima e ansiedade antecipatória.
A primeira se apoia em fatos. Existe uma proposta, uma declaração, uma decisão ou uma mudança concreta que produz receio. A pessoa pode acompanhar o assunto, buscar informação, participar de organizações, cobrar representantes e se posicionar politicamente.
A segunda começa quando a mente transforma possibilidades em certezas. A pessoa passa a imaginar cenários catastróficos sem base factual. O futuro parece decidido antes de qualquer votação, negociação, decisão judicial ou implementação de política pública.
Esse mecanismo pode criar uma sensação de perda de controle.
Uma pessoa pode dizer: “Existe uma proposta que me preocupa e quero entender como ela pode avançar”. Outra pode concluir: “A partir de agora, tudo vai dar errado e não existe mais nada que possa ser feito”.
A primeira situação mantém a pessoa ligada à realidade. A segunda pode prender a pessoa a um futuro que ainda não aconteceu, mas que dependendo do resultado eleitoral, pode se realizar.
O psicólogo explica que pensamentos e interpretações influenciam respostas emocionais. Na terapia cognitivo-comportamental, essa relação aparece de forma central: a maneira como alguém interpreta um acontecimento interfere na forma como reage a ele.
“A preocupação legítima é baseada em fatos. A ansiedade antecipatória aparece quando a pessoa começa a fazer previsões catastróficas sobre o futuro, sem que aquilo tenha acontecido.”
Isso não significa pensar positivo. Significa observar o caminho entre fato e conclusão.
Quando o adversário vira ameaça pessoal
A política complica ainda mais quando deixa de ser apenas uma escolha de propostas e passa a formar parte da identidade.
Bruno recorre à teoria da identidade social para explicar esse movimento. Pessoas organizam o mundo em grupos. Existe o “nós” e existe o “eles”.
No ambiente político, isso pode criar um atalho perigoso.
Quem pensa diferente deixa de ser apenas alguém com outra leitura sobre o país. Passa a representar uma ameaça ao grupo ao qual a pessoa pertence.
É aí que aparece a polarização afetiva.
O problema deixa de ser “discordo dessa proposta” e passa a ser “não suporto quem defende essa proposta”. Em casos extremos, o outro vira inimigo. O efeito aparece em lugares bem conhecidos pelos santistas: grupo de família, mesa de almoço, reunião de trabalho, roda de amigos, comentário de Instagram.
Uma eleição pode colocar uma diferença política que já existia em cima da mesa. Também pode transformar uma divergência antiga em rompimento.
Farias ressalta que esse mecanismo pode aparecer em diferentes campos políticos. A autocrítica vale para todos.
Isso também exige uma distinção importante. Conviver democraticamente com quem pensa diferente não significa considerar todas as ideias aceitáveis. Uma democracia permite discordância, mas também possui leis, direitos fundamentais e instituições que estabelecem limites.
É possível discutir uma proposta com firmeza sem transformar quem a defende em uma caricatura. Também é possível rejeitar uma proposta sem fingir que ela não existe.
O celular pode aumentar o tamanho do problema
Depois de uma eleição, existe uma tentação quase automática: abrir o celular para descobrir a próxima notícia.
Depois vem o vídeo. O comentário. A reação. A análise. A postagem de alguém conhecido. O recorte de uma fala. O contra-ataque.
Quando percebe, a pessoa passou uma hora acompanhando política e terminou mais assustada do que informada.
Farias usa a ideia de “higiene informacional” para falar desse comportamento. A proposta é simples: criar horários para acompanhar notícias, evitar abrir redes sociais apenas por hábito e observar o próprio estado emocional durante o consumo de informação.
“Depois de uma hora nas redes sociais, vale perguntar: eu estou mais informado ou mais assustado?”
A lógica conversa com estudos sobre redes sociais, bolhas de informação e viés de confirmação. Conteúdos que provocam medo, raiva ou indignação costumam prender atenção. Ao mesmo tempo, as pessoas tendem a valorizar informações que confirmam aquilo que já acreditam.
O resultado pode ser uma bolha emocional.
Nela, tudo parece urgente. Toda publicação parece anunciar uma catástrofe. Cada vídeo confirma que o outro lado está completamente fora da realidade. O problema não está em acompanhar política. O problema aparece quando a pessoa perde a capacidade de sair dela por alguns minutos.
A eleição ainda não acabou
O primeiro turno acabou, mas a eleição presidencial não.
Flávio Bolsonaro e Lula disputarão o segundo turno em 25 de outubro. Portanto, parte da ansiedade sentida agora acontece dentro de uma campanha que continuará por mais algumas semanas.
O ciclo de notícias continua. Novas declarações aparecem. Programas de governo voltam ao debate. Alianças mudam. Pesquisas surgem. Redes sociais aceleram tudo.
Ao mesmo tempo, o resultado do primeiro turno já permite observar outra coisa: a composição do Congresso.
São Paulo elegeu 70 deputados federais. O PL conquistou 19 cadeiras. Entre os eleitos estão nomes com posições muito diferentes sobre direitos, segurança, educação, saúde, economia e costumes.
Essa composição terá consequências para a agenda nacional. Por isso, acompanhar apenas a disputa presidencial deixa uma parte da história de fora. Algumas decisões que chegam ao cotidiano de uma cidade começam muito longe dela.
E o que Santos tem a ver com isso?
Praticamente tudo que envolve política nacional pode parecer distante até tocar a rotina.
Saúde aparece quando uma família precisa de atendimento ou medicamento. Habitação aparece quando o aluguel sobe e quando uma pessoa não consegue permanecer perto do trabalho.
Já a mobilidade depende de uma ligação eficiente com São Paulo, com Guarujá, São Vicente ou Cubatão. O emprego aparece quando um jovem precisa decidir entre construir carreira na Baixada ou subir a serra.
Brasília fica longe até uma decisão de orçamento, legislação ou política pública chegar na vida real.
Olhar para política apenas pelo eixo esquerda versus direita é insuficiente. Uma cidade com orla e morros, porto e turismo, prédios altos e ocupações populares, idosos e jovens, famílias de diferentes origens e condições econômicas precisa de representantes capazes de enxergar essa complexidade.
Não existe uma experiência única de ser santista. Por isso, também não existe uma única maneira de sentir uma eleição.
Ressaca eleitoral
Bruno Farias não trata a tristeza pós-eleição como doença.
Nos primeiros dias, ela pode ser uma resposta esperada a uma frustração. O problema aparece quando esse estado permanece e começa a comprometer atividades básicas.
Se a pessoa deixa de trabalhar, estudar, cuidar de si, conviver socialmente ou encontra dificuldade para manter sua rotina, o cenário merece atenção. Baixa energia, perda de motivação e isolamento também entram nessa avaliação. Nesses casos, Bruno recomenda que familiares incentivem a busca por acompanhamento psicológico.
Isso vale para quem perdeu uma eleição que apoiava e também para quem está tão envolvido na comemoração de uma vitória que passa a viver em função dela.
Política pode oferecer pertencimento. Mas também pode oferecer conflito e nenhum dos dois deveria consumir toda a vida.
Depois do voto, vem o trabalho de acompanhar
O resultado eleitoral produz uma sensação de ponto final porque a urna oferece um momento muito concreto: apertar um botão, confirmar e ir embora.
A democracia, porém, talvez não continue no dia seguinte.
Estamos falando do risco de direitos, políticas públicas, dinheiro e sobre o amanhã que milhões de pessoas vão viver. Por isso, o segundo turno pede mais do que escolher um nome. Precisamos encarar o que está em jogo nos próximos anos.
Bora reorganizar os pensamentos?
A tristeza não precisa virar apatia.
Para quem está angustiado com o cenário político, talvez o primeiro passo seja pequeno: sair da atualização automática, voltar aos fatos, falar com as pessoas e conversar sobre os indecisos sobre o que realmente pode acontecer caso um projeto de extrema direita suba ao poder.
Porque a partida ainda não terminou.
A escolha do Brasil continua aberta. E as consequências dessa opção também.