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Ponta da Praia perde comércios para a especulação imobiliária

A cidade mais verticalizada do país segue derrubando casas e negócios para construir torres de luxo. O Japa Açaí é só o caso mais recente de um processo que está redesenhando Santos.

Tempo de leitura: 5 minutos

Andar pelo Canal 7 hoje pode nos dar uma ideia do futuro de Santos. A cada visita, um prédio novo subindo, uma casa a menos, um comércio que fechou. A orla que um dia misturou moradores, restaurantes e pequenos negócios vai cedendo espaço, quadra a quadra, para torres cada vez mais altas e mais caras.

www.juicysantos.com.br - Santos está virando prédio, e nem os comércios escapam

Seis novas torres de luxo estão subindo naquele trecho. E, no meio desse processo, um restaurante querido do bairro anunciou o fechamento do ponto onde funcionou por sete anos.

O Japa Açaí não sofria de falta de clientela, nem de má gestão. Foi uma construtora que comprou o imóvel por quase R$ 5 milhões de reais, valor inviável para qualquer pequeno empresário cobrir. E o processo de gentrificação de Santos, mais uma vez, chegou como uma onda forte sem avisar.

A cidade que mais cresce para cima

Santos já é a cidade mais verticalizada do Brasil. O Censo 2022 do IBGE mostrou que 67,1% das moradias são apartamentos, proporção que não existe em nenhuma outra cidade do país. São 112.401 apartamentos, número maior do que a soma dos dois municípios seguintes no ranking: Balneário Camboriú e São Caetano do Sul.

Só que o problema não é só a quantidade de prédios. É o que está sendo derrubado para construí-los.

“Foi um baque”

Elvis Ferreira, dono do Japa Açaí, soube do fim do ponto pelos burburinhos da rua. A proprietária do imóvel recebeu uma proposta irrecusável e avisou: se os inquilinos quisessem, poderiam tentar cobrir. O valor era de quase R$ 5 milhões e estava fora do alcance.

“Foi um baque. Você gastou muito dinheiro, fez um investimento enorme, reformou uma casa, transformou em comércio. E do dia para a noite recebe a notícia que vai perder tudo”, contou Elvis.

Além do Japa Açaí, só naquele trecho de calçada, outros dois estabelecimentos serão demolidos: uma academia e um espaço de crossfit. Ao todo, três negócios locais que somem para dar lugar a mais uma torre.

“O comércio vai perdendo cada vez mais espaço. Em um lugar onde habitavam cinco pessoas, vão passar a habitar 1.500. Isso mexe com infraestrutura, saneamento, água, trânsito. É muita coisa.”

E vale lembrar que bairros ficam cada vez menos interessantes e vivos sem esse tipo de estabelecimento.

O Japa Açaí não vai acabar. Elvis encontrou um novo ponto no Canal 4, num espaço menor, com foco em delivery. O sonho continua, em outro endereço, com menos espaço e mais incerteza.

O metro quadrado que afasta o santista

Além de tudo isso, Santos registrou metro quadrado médio de R$ 7.735 em julho de 2025, segundo o FipeZAP, colocando a cidade na 24ª posição entre os mercados mais caros do Brasil. Nos bairros mais valorizados, como Gonzaga, Boqueirão e Ponta da Praia, o metro quadrado em empreendimentos de alto padrão varia entre R$ 15 mil e R$ 19 mil.

A Baixada Santista como um todo registrou média de R$ 11.261 no quarto trimestre de 2025, segundo o Secovi-SP. Isso é 42% acima da média de São Paulo, maior metrópole do país.

Portanto, construtoras não precisam convencer muita gente. Os números justificam qualquer demolição.

Quem está ficando de fora dessa conta

O problema com a verticalização desenfreada não é o prédio em si. É para quem ele é construído.

Grande parte dos novos empreendimentos no Canal 7 são de altíssimo padrão. Apartamentos para famílias de São Paulo que vêm passar o verão e ficam com as chaves na gaveta o resto do ano. Enquanto isso, o santista que vive e trabalha aqui vê o custo de moradia subir, os comércios de bairro desaparecerem e a cidade perder aquilo que a tornava especial.

Além disso, o impacto não é só imobiliário. É de infraestrutura. Transformar um quarteirão com quatro casas numa torre com centenas de apartamentos pressiona serviços básicos que já não dão conta do que existe hoje.

O Canal 7 tinha tudo para se tornar um corredor gastronômico consistente. Com restaurantes como Dosette, Tocaia, Tô a Toa, Bartu, Yê, Padrela e outros ao longo da avenida, o trecho já mostrava identidade.

Agora, aquele potencial compete com guindastes.

O último a sair apaga a luz

Santos é pequena geograficamente falando. Quando não houver mais um lote disponível para derrubar na orla, a lógica do mercado imobiliário vai avançar para onde ainda existe espaço: a Zona Noroeste, bairros que concentram a população mais vulnerável da cidade, com menos infraestrutura e menos capacidade de resistir à pressão dos preços.

Não é especulação, é o padrão de qualquer cidade que deixou o mercado imobiliário funcionar sem planejamento urbano real.

O metro quadrado na cidade chegou a níveis que superam a maioria das capitais brasileiras. Valorização não é, por si só, um problema. O problema é quando ela acontece sem contrapartida pública, sem habitação popular, sem proteção ao pequeno comércio, sem plano diretor que garanta que a cidade continue habitável para quem a faz funcionar o ano todo.

Santos pode virar um cartão postal vazio: lindos prédios de frente para o mar, Oxxo nas esquina, e nenhum santista para contar a história.

A pergunta não é se a cidade vai continuar valorizando. É valorizar para quem?

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