Pioneira do surf no Brasil: a história de Margot Rittscher e o mar de Santos
Figura fundamental para o nascimento do surf em terras brasileiras
Uma jovem carregava uma prancha de madeira em direção às ondas da praia em Santos. Seu nome era Margot Rittscher, e ela estava prestes a fazer história como a primeira surfista do Brasil.
Foto: Arquivo pessoal
Tábua Havaiana
Nascida em Nova York, Margot mudou com a família para Santos aos 15 anos e começou a surfar na década de 1930, período em que a sociedade brasileira ainda enfrentava os reflexos da crise econômica mundial. Sua primeira prancha ganhou o nome carinhoso de “tábua havaiana” e foi construída artesanalmente pelo irmão, Thomas Rittscher Júnior. Feita inteiramente de madeira, essa prancha se tornou o instrumento da liberdade que ela tanto buscava.
Foi ao lado de Thomas que a jovem norte-americana descobriu a mágica de deslizar sobre as águas. A parceria entre os irmãos se tornou fundamental para consolidar o surf em terras brasileiras, especialmente nas praias santistas.
Desafiando o preconceito na década de 30
Se hoje o surf feminino ainda encontra obstáculos para se consolidar, na década de 30 eram exponencialmente maiores. Entretanto, o preconceito não impediu que Margot “andasse sobre as águas”, como se dizia na época. Ela enfrentou olhares de desaprovação e comentários maldosos, mas jamais abandonou sua paixão.
A pioneira do surf brasileiro praticou o esporte regularmente da década de 30 até os anos 60. Além disso, encontrou nas ondas uma válvula de escape da rotina exaustiva como executiva de uma companhia de navegação. O mar representava seu refúgio, seu momento de paz em meio às responsabilidades do dia a dia.
“Formidável”: a liberdade em uma palavra
Margot usava uma expressão específica para definir a sensação que experimentava ao surfar: formidável. Essa palavra resumia perfeitamente a imensidão de emoções que sentia cada vez que remava em direção ao horizonte. Consequentemente, o surf se transformou em muito mais que um hobby — tornou-se parte essencial da sua identidade.
A naturalização brasileira selou definitivamente seu amor pelo país e, principalmente, pelo litoral paulista. Santos se consagrou como o berço do surf nacional, recebendo pioneiros do surf como os irmãos Rittscher.
Uma vida dedicada ao oceano
A surfista nunca saiu de perto do mar, que permaneceu como sua maior paixão até o fim. Durante décadas, morou em um apartamento no Canal 5 de Santos, de onde contemplava diariamente as ondas pela janela. Esse ritual matinal acompanhou Margot todos os dias, inclusive na última manhã de vida, em 26 de julho de 2012, quando faleceu em casa aos 96 anos.
Fiel à sua essência, ela pediu que a família jogasse suas cinzas no mar, em frente à janela do apartamento onde viveu. Assim, seu derradeiro encontro com o oceano aconteceu no dia 1º de setembro daquele ano, em uma cerimônia emocionante para familiares e amigos. Afinal, nada mais justo que retornar ao lugar que lhe proporcionou tantos momentos formidáveis.
Foto: Thomas Rittscher Júnior e Margot Rittscher / Arquivo pessoal / Memória Santista
Mulheres que transformaram o surf nacional
A trajetória da primeira mulher a surfar no Brasil pavimentou caminhos essenciais para as gerações seguintes. Similarmente, outras atletas brasileiras puderam sonhar com o profissionalismo no esporte. Brigitte Mayer, por exemplo, tornou-se nos anos 1980 a primeira brasileira a competir profissionalmente no Circuito Mundial de Surf.
Atualmente, o Brasil conta com diversas surfistas de destaque internacional. Tatiana Weston-Webb conquistou a medalha de prata nas Olimpíadas de Paris 2024, representando o país com excelência e Maya Gabeira mundialmente conhecida por surfar em ondas gigantes.
A importância das mulheres no surf brasileiro
As mulheres sempre estiveram presentes desde os primórdios do surf, porém frequentemente foram invisibilizadas pela falta de apoio financeiro e reconhecimento. Felizmente, em 2019, a World Surf League (WSL) estabeleceu a igualdade de premiação entre homens e mulheres em todas as competições oficiais.
Essa conquista transcende números — representa respeito, valorização e oportunidades concretas para que atletas femininas vivam profissionalmente do esporte. Além disso, inspira milhares de meninas que sonham em dominar as ondas.
Margot Rittscher provavelmente não dimensionava o impacto de seu ato pioneiro nos anos 1930. Contudo, ao desafiar padrões sociais rígidos, plantou sementes que floresceram em inúmeras surfistas talentosas. Sua coragem abriu o oceano para todas as mulheres apaixonadas pelo mar.
A história de Margot Rittscher nos lembra que o surfe brasileiro carrega DNA feminino desde suas origens. Portanto, valorizar as mulheres no esporte significa reconhecer a própria essência do surf nacional.