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Pela cultura e pela democracia, sambistas e escolas de Santos se posicionam

Entre manifestações públicas de apoio a Lula, defesa da democracia e divergências dentro das próprias agremiações, o posicionamento político das escolas de samba abre uma discussão que vai além das urnas

Tempo de leitura: 9 minutos

Uma escola de samba pode declarar seu voto? Quem participa de uma agremiação precisa concordar com o posicionamento dela? E o que acontece quando a política, que já faz parte da história do samba, divide opiniões dentro da própria comunidade?

Em Santos, essas questões ganharam força às vésperas do segundo turno das eleições presidenciais de 2026. Escolas de samba publicaram manifestações de apoio a Lula nas redes sociais, usando argumentos ligados à democracia, à cultura popular, aos direitos sociais e à história do carnaval.

A movimentação também estimulou debates entre sambistas e deu visibilidade ao movimento Sambistas pela Democracia, criado a partir de uma indignação coletiva.

Mãos tocam agogô duplo com baqueta metálica, com outros percussionistas e um tambor ao fundo em performance musical.

A discussão vai além da disputa entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Ela envolve a liberdade de manifestação das agremiações, o papel político da cultura e as diferentes opiniões que convivem dentro das comunidades do samba.

E não foi só o samba que se organizou para este segundo turno. Na Baixada Santista, grupos de corrida, de pedal, dos esportes aquáticos e de estudantes, entre outros, se uniram pra mostrar a força coletiva frente a uma real ameaça diante da jovem democracia brasileira.

A indignação virou mobilização

O movimento Sambistas pela Democracia surgiu depois do resultado do primeiro turno das eleições. Segundo Nanne Bonny, gestora cultural e coordenadora de projetos, a iniciativa nasceu de conversas entre pessoas que perceberam a necessidade de ampliar a presença de determinadas vozes políticas nos ambientes de samba.

Nanne participou de uma plenária com outros integrantes da comunidade. Naquele encontro, o grupo percebeu que sambistas ligados à direita e ao bolsonarismo expressavam publicamente suas opiniões, enquanto posicionamentos de esquerda apareciam menos, segundo a percepção dos participantes.

“Foi uma indignação coletiva”, resume.

A partir dali, algumas pessoas começaram a se organizar pela internet. A ideia inicial era reunir sambistas, produzir conteúdos e incentivar manifestações nas redes sociais.

O grupo cresceu e chegou a mais de 200 participantes, de acordo com Nanne. Entre as iniciativas, estavam vídeos e conteúdos que ajudavam a dar visibilidade às opiniões políticas de integrantes da comunidade.

A mobilização também criou oportunidades para que pessoas com ideias semelhantes se reconhecessem e estabelecessem conexões.

Nanne acredita que a articulação pode ter influenciado os posicionamentos das escolas. Segundo ela, integrantes de algumas agremiações participavam do grupo e podem ter levado a discussão para dentro das instituições.

“Eu acredito que veio essa motivação das escolas e até por uma pressão popular mesmo”, relata.

Até o momento, porém, não houve confirmação direta das escolas de que o movimento tenha determinado suas decisões. A relação entre a mobilização e as publicações permanece como uma percepção da entrevistada.

O apoio apareceu nas redes sociais

As manifestações das agremiações foram publicadas em seus próprios perfis, com artes e textos que apresentavam posicionamentos políticos e eleitorais.

Entre as escolas reunidas nesta reportagem, a X-9, conhecida como A Pioneira, relacionou sua história à resistência, à liberdade, à diversidade e à defesa do Estado Democrático de Direito.

A publicação terminou com uma declaração explícita de apoio a Lula e a indicação do voto no candidato no segundo turno.

A União Imperial também associou seu posicionamento à educação, à cultura, à valorização dos trabalhadores, à liberdade religiosa, ao protagonismo feminino e à diversidade. A escola defendeu um projeto de país que fortaleça a democracia e a soberania nacional.

A Mocidade Amazonense resumiu sua manifestação em uma frase: “Pelo samba, pela cultura e pelo povo! Mocidade Amazonense é Lula!”

Já a Dragões do Castelo publicou: “Pelo Samba, Pela Cultura, Dragões É Lula”.

A Unidos dos Morros destacou sua ligação com o povo, a comunidade, a cultura popular e a luta por oportunidades. A Bandeirantes do Saboó associou seu posicionamento à tradição, à luta e à esperança. A Imperatriz Alvinegra declarou seguir o lado da democracia e da verdade.

Embora algumas legendas tenham enfatizado valores sociais e culturais sem citar o candidato nominalmente, as artes das publicações também indicavam apoio a Lula.

Democracia, direitos sociais e resistência também entraram na avenida

Outras agremiações santistas igualmente se posicionaram. Também ocorreu manifestações da Brasil, da Unidos da Zona Noroeste e da Real Mocidade Santista, além das escolas mencionadas acima. As três agremiações também relacionaram seus posicionamentos à defesa da democracia, dos direitos sociais e da cultura popular.

A Real Mocidade Santista destacou seu histórico de atuação comunitária e combate às desigualdades. Já a Unidos da Zona Noroeste ressaltou a realidade dos trabalhadores e a defesa de pautas como o combate ao racismo e aos direitos LGBTQIAPN+. A Brasil, por sua vez, reforçou o samba e o Carnaval como expressões de resistência e identidade nacional. Em comum, as manifestações associam a trajetória das escolas à defesa de direitos e à participação política.

As publicações mostram diferentes maneiras de comunicar uma posição eleitoral. Algumas foram diretas, enquanto outras destacaram valores e compromissos sociais para explicar sua escolha.

Mas será que todo mundo dentro da escola concorda?

Uma fonte ligada a uma das escolas de samba, de forma anônima, relatou que existem divergências internas sobre o posicionamento político adotado pela agremiação.

A informação acrescenta uma camada que, às vezes, fica ausente nas publicações das redes sociais. Uma declaração institucional pode representar a decisão de uma direção, sem necessariamente traduzir a opinião de todos os componentes, trabalhadores, dirigentes e colaboradores.

Além disso, o debate não se resume à reação do público na internet. Divergências podem existir dentro da própria comunidade das escolas. Até porque muitas delas contam com emendas de políticos da região para suas atividades. 

Há uma diferença entre a liberdade de uma instituição se posicionar e a obrigação de seus integrantes concordarem com ela. Uma escola pode declarar apoio a um candidato, enquanto pessoas que fazem parte de sua história mantém outras preferências políticas.

A existência de opiniões divergentes também não significa que a escola precise permanecer em silêncio. Mas há de se reconhecer que a manifestação pública de uma organização não transforma automaticamente seus integrantes nas vozes únicas de uma decisão.

O samba tem lado?

Para Nanne Bonny, a discussão política está ligada à própria história do samba e ao papel que as escolas exercem nas comunidades.

Ela, que idealiza e produz iniciativas como o Samba da Tenda, o Simpósio do Samba, o Memórias do Samba Santista e o ELA Movimento, faz uma leitura da cultura como espaço de convivência, identificação e mobilização.

Nanne destaca que o samba foi historicamente marginalizado e que as escolas podem funcionar como espaços de acolhimento, especialmente para minorias e grupos envolvidos em lutas sociais.

“O samba não se faz sem comunidade”, afirma.

Para ela, o posicionamento público também permite que sambistas reconheçam outras pessoas que compartilham suas ideias e construam formas de participação coletiva.

E isso não significa que exista uma única posição política entre quem faz samba. As comunidades são diversas, e seus integrantes podem ter opiniões diferentes sobre candidatos, políticas públicas e os rumos do país.

O que a mobilização deixou claro é que muita gente decidiu tornar suas posições mais visíveis.

Resistência e disputa

A relação entre samba e política não começou nesta eleição.

A história do gênero está ligada à cultura negra e popular, que enfrentou preconceito e perseguição no Brasil. A exposição da Biblioteca Nacional sobre a marginalização do samba documenta como rodas e manifestações culturais associadas à população negra foram alvo de repressão policial e hostilidade na imprensa durante a Primeira República.

Décadas depois, durante a ditadura militar, escolas de samba também enfrentaram vigilância e censura. Um estudo publicado em 2024 na Revista Brasileira de Ciências Sociais analisa a relação entre repressão, temas negros e estratégias de resistência nos desfiles cariocas entre 1968 e 1984.

Esses registros ajudam a entender por que o samba é frequentemente associado à resistência cultural e à afirmação de identidades negras e populares.

Isso não significa, porém, que todas as escolas tenham mantido a mesma posição política ao longo da história. As agremiações possuem trajetórias próprias, relações diferentes com o poder público e disputas internas.

O carnaval também pode servir como espaço de celebração, preservação de memória, crítica social e expressão de convicções políticas.

Porém, em Santos, essa discussão tem uma dimensão local. As escolas fazem parte da identidade cultural da cidade e são construídas por comunidades que vivem realidades e desafios diferentes.

Lula, Flávio Bolsonaro e o debate sobre o futuro do país

O segundo turno das eleições presidenciais de 2026 será disputado por Lula, do PT, e Flávio Bolsonaro, do PL, em 25 de outubro.

Por isso, manifestações públicas de artistas, movimentos culturais e organizações comunitárias passaram a compor o debate eleitoral.

Para quem concorda com as escolas, os posicionamentos podem representar coerência com valores como a defesa da cultura popular, da diversidade e dos direitos sociais. Também é possível concordar com os valores de uma agremiação e discordar do candidato que ela escolheu apoiar.

Por isso, o debate merece ir além de classificar as manifestações como certas ou erradas. Organizações e cidadãos têm liberdade para expressar suas posições, assim como o público pode questionar seus argumentos, avaliar os programas, os históricos e os compromissos dos candidatos antes de decidir seu voto.

Quando o assunto é o futuro de um país tão diverso, precisamos apostar e confiar em quem consegue apresentar caminhos possíveis para os problemas reais.

Afinal, sua decisão na urna é individual, mas as consequências são coletivas. Como em um desfile de escola de samba.

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Vitor Fagundes
Texto por

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