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Parque Valongo: entre a melancolia sem sombras e a dopamina da campanha

Símbolo de retomada da relação porto-cidade, será que o Parque Valongo conseguiu entrar na vida do santista 2 anos depois de sua inauguração?

Tempo de leitura: 23 minutos

Sob um céu sem muitas nuvens, os medalhões da política local, cercados por fitas cerimoniais, convidados e o otimismo de suas comitivas, reuniram-se para inaugurar mais um marco de concreto em 5 de julho de 2024.

O calor santista de janeiro se apresentava em um dia de inverno, em uma manhã que traria uma sensação de encontro, retomada e muitas expectativas. Aquele típico momento onde uma espécie de dopamina cívica e fé no futuro viram um transe coletivo.

O momento, porém, obedecia a uma cronologia muito menos espontânea do que o clima sugeria. Faltavam exatamente 3 meses para o primeiro turno das eleições municipais. A partir do dia seguinte, a engrenagem da legislação eleitoral imporia um silêncio sobre a máquina pública. Até o pleito que culminaria na reeleição de Rogério Santos (hoje licenciado por motivos de saúde, com Audrey Kleys como prefeita em exercício), estariam terminantemente proibidas as condutas mais estimulantes do funcionalismo: nomeações de última hora,  exonerações estratégicas e, acima de tudo, a participação ostensiva de agentes públicos em inaugurações e eventos.

No drama particular do futebol brasileiro, essa manobra é descrita pelo popular “gol aos quarenta e cinco minutos do segundo tempo”. É o instante exato em que as decisões estratégicas se misturam ao desespero do cronômetro.

Com o tempo bom, o encantamento da primeira vez e figuras proeminentes da política local distribuindo apertos de mão, lembrou-se de algo importante: por décadas e décadas, o encontro entre um pedestre que vive em Santos e o seu próprio porto não era sequer visual.

Edifício moderno com fachada de vidro espelhado refletindo guindastes portuários e navios sob céu nublado.

Santos sempre preferiu cultivar sua vaidade voltada para a orla da praia, observando nos fins de tarde ou manhãs melancólicas o curso lento dos navios que apareciam à distância no canal, mas de costas para as barreiras que separavam a cidade do maior porto da América Latina, como dizemos com orgulho.

Por muito tempo, essa linha d’água foi mais curiosidade do que conexão real. Aquela parte da cidade que muita gente via, mas não podia pisar.

Desde que foi anunciado, o projeto do Parque Valongo carregava a promessa de uma reparação: a devolução do horizonte e da vista do canal para Santos.

Tratava-se de resgatar ruínas corroídas pelo abandono, transformando o que antes eram pedaços em um espaço público vivo, ocupado e deliberadamente ancorado em referências globais de revitalização. Uma estratégia impecável, na teoria.

Essa reaproximação, ainda que tardia, tem tudo para ser bonita e significativa. Só que ela também vem cheia de expectativas. Porque, como toda intervenção urbana de fôlego, ela carrega o desafio inescapável de funcionar na menor e mais delicada engrenagem da vida pública: as pessoas.

Sonhando com a vista para o mar

A ideia de usar de forma mais ampla e democrática a zona portuária de Santos não nasceu com o Parque Valongo. Afinal, as grandes promessas de progresso e as molduras arquitetônicas são apenas cenários vazios se não conseguirem acolher os passos de quem caminha à beira-d’água, buscando, na simplicidade do cotidiano, um breve momento de permanência e pertencimento.

Ela vinha sendo maturada pelo menos desde o início dos anos 2000, quando a cidade passou a discutir com mais ênfase como modernizar o porto sem romper a relação com o Centro Histórico e com a vida urbana ao redor.

Nos anos 2000, iniciativas ligadas à modernização do porto, como o programa Santos 2000 e, depois, o Plano de Desenvolvimento e Zoneamento do Porto de Santos (PDZ) de 2005 foram essenciais para essa virada de chave, ao incluir a possibilidade de usos mistos e a noção de porto-cidade como parte do planejamento.

Navios cargueiros da Maersk em porto industrial com guindastes de contêineres, montanhas e céu nublado sobre a água calma.

Vale lembrar que esse período também marcou a revitalização do bairro central em vários aspectos – do arquitetônico ao cultural e econômico – com a implementação do programa Alegra Centro.

Pensar o território portuário não mais como um duto logístico interditado ao olhar e ao passo da população, mas como a costura viva que reconcilia a paisagem, a economia e o cotidiano tornou-se o grande desejo urbanístico e político de Santos. Uma tentativa de guiar a cidade rumo a um amanhã que não exija, como taxa de entrada, a amputação de sua própria história. Um movimento quase lírico: levar a cidade de Santos para o futuro sem deixar de olhar para o passado que justifica sua própria existência e prosperidade.

A parte insular de Santos, já então reconhecida como área rara e pressionada por ocupação, sempre exigiu soluções que conciliassem operação portuária, requalificação urbana e recuperação de áreas degradadas. O que vemos hoje já estava sendo desenhado muito antes, ainda que de forma fragmentada e lenta.

Portanto, é importante enxergar o Parque Valongo como a etapa mais concreta (literalmente) até agora de um processo de mais de 20 anos. Na cronologia das cidades, afinal, 20 anos são apenas um parágrafo breve, uma vírgula quase imperceptível no tempo de maturação do espaço urbano. Mas isso não acontece com as pessoas, que se tornam céticas diante de tanta espera de conciliar a vocação portuária com o direito do acesso à linha d’água e ao convívio público.

O desafio, desde então, nunca foi apenas abrir essa “fresta” de acesso ao canal, mas construir esse modelo urbanístico que fizesse sentido, simultaneamente, para para o Centro Histórico, para o porto e sua logística bruta e para a população que apenas deseja um lugar para ocupar, caminhar e existir.

A linha do tempo do Parque Valongo

Naquele dia 5 de julho de 2024, a tão esperada primeira fase do Parque Valongo foi inaugurada, começando pelo Armazém 4. Com playground, quadras, fonte interativa, tinha um acesso inicial apenas pela passarela ao lado da Alfândega (Praça da República).

A obra começou em maio de 2023, resultado de um Termo de Responsabilidade de Implantação de Medidas Mitigadoras e/ou Compensatórias (Trimmc) entre a Prefeitura de Santos e a COFCO International Brasil, arrendatária de uma área portuária no Paquetá que abriga o Terminal STS 11.

Passeio público com edifício amarelo, cais, navios cargueiros e montanhas sob céu azul com nuvens

Um ano depois, surgiu a Passarela Porto-Cidade Engenheiro José Colla, um bulevar aéreo que conecta a Rua XV de Novembro diretamente ao Armazém 4. A megaestrutura de R$ 60 milhões foi uma contrapartida construída pela Rumo Logística em parceria com a Ferrovia Interna do Porto de Santos (FIPS) e a Autoridade Portuária de Santos (APS).

E, convenhamos, passar a pé por cima da Avenida Perimetral nesse trajeto causa um impacto visual e emotivo gigante para qualquer pessoa, bem diferente da entrada e saída da Alfândega.

Em 26 de junho de 2026, veio o Armazém 3, voltado para grandes shows e eventos, com capacidade para até 4 mil pessoas. Repetindo a mesma dinâmica de 2024, um gol feito antes das restrições do período de “defeso eleitoral”.

Fluxo, pertencimento e uma sala de estar

Cidades com perfil similar mostram caminhos inspiradores para Santos. Os projetos portuários mais bem-sucedidos foram aqueles que apostaram no uso misto e no acesso popular, além de criar economia local de verdade, como Barcelona (Port Vell) e Buenos Aires (Puerto Madero) e, no Brasil, Rio de Janeiro (Porto Maravilha) e Belém (Porto Futuro II).

Ao redor do mundo, a linha d’água costuma ser tratada como uma grande “sala de estar”, esse lugar de encontro, lazer, cultura e contemplação, e não só um cenário bonito para fotos. Ela desempenha um papel fundamental nas cidades, atuando tanto como o núcleo da identidade e prosperidade econômica urbana quanto como um refúgio essencial para a saúde mental coletiva.

Sob a perspectiva do design e da construção de identidade local e turística, Alex Krieger afirma que a própria “aura” e a essência de uma cidade residem e perduram ao longo de sua linha d’água.

Já quando o assunto é saúde pública, as pesquisadoras Jenny Roe e Layla McCay demonstram que a integração ativa desses espaços azuis promove benefícios terapêuticos profundos, comprovando que a proximidade e o caminhar ao longo de frentes de água (waterfronts) reduzem de forma imediata o estresse fisiológico, melhoram a regulação emocional e mitigam os riscos de depressão. Já colhemos esse benefício com a praia, mas nunca é demais colocar a linha d’água no cotidiano das pessoas.

O contato com o ambiente aquático, um motor de desenvolvimento socioeconômico destacado por economistas clássicos como Adam Smith até pesquisadores contemporâneos como Richard Florida, consolida as orlas urbanas não apenas como um ativo de lazer, mas como uma infraestrutura de bem-estar indispensável para a resiliência das populações.

A waterfront bem-sucedida quase sempre mistura três fatores: acesso fácil, usos mistos e permanência. Não basta abrir a vista para a água. É preciso dar motivos para as pessoas irem, ficarem e circularem durante a semana inteira.

Quando isso acontece, a linha d’água vira parte integrante da vida na cidade.

A amnésia conveniente

A reocupação dos armazéns deveria devolver um patrimônio que estava não só distante, mas também se degradando mais e mais com o passar dos anos. Porém, como aponta a arquiteta e urbanista Jaqueline Fernandez Alves, especialista em patrimônio histórico, essa memória sequer foi preservada, já que as 3 construções inauguradas até julho de 2026 são galpões modernizados, sem qualquer conexão com o passado do nosso porto.

E não dá pra falar de memória sem lembrar do caso do Navio Professor W. Besnard.

Testemunha ocular da ciência brasileira, ele saiu ao mar pela primeira vez nos anos 1960. Incorporado ao Instituto Oceanográfico da USP, tornou-se protagonista da pesquisa marinha no país, com dezenas (ou centenas, segundo algumas fontes) de expedições científicas, além de uma participação pioneira na primeira missão brasileira à Antártida. Por isso, ele nunca foi só um enfeite no Parque Valongo. Estava lá para nos lembrar da vocação marítima e de pesquisa da cidade.

www.juicysantos.com.br - navio besnardFoto: Luiz Buscapé 

Depois de passar por provações variadas ao longo dos anos, como um incêndio em 2008, o Besnard ancorou no Parque Valongo.

Em março de 2026, a situação ficou ainda mais dramática quando a embarcação adernou e ficou parcialmente submersa no cais em decorrência de uma inundação no casco e problemas de manutenção, o que expôs de forma dura o abandono operacional do navio.

Essa tragédia da memória serviu para mostrar que até mesmo um patrimônio histórico pode virar passivo técnico e ambiental.

Mesmo assim, o Besnard ainda resiste e luta para cumprir seu destino. Já houve defesa pública para que ele se transforme em museu, navio-escola ou equipamento cultural permanente, com visitação e programação voltadas à ciência, à educação e ao turismo. E em que outro lugar isso funcionaria melhor do que no Parque Valongo, onde a cidade está tentando reconectar porto, memória e uso público?

O Besnard poderia ser muito mais do que uma peça de acervo e se tornar uma personagem-chave da narrativa porto-cidade-ciência-cultura. A alma da nossa waterfront.

Ser ocupado ou parecer ocupado?

Desde a sua inauguração,em 5 de julho de 2024, o Parque Valongo virou um dos principais palcos de programação em Santos, com feiras, festas e festivais de grande porte, como Festa Inverno, Santos Festival Geek, Crema Cultural e até mesmo uma parte da programação do festival internacional de artes cênicas MIRADA, do Sesc Santos.

Mas o verdadeiro teste de qualquer intervenção urbanística reside na melancolia do dia seguinte, quando as comitivas se retiram, as luzes  se apagam, a música abaixa e o palco é desmontado.

No silêncio das manhãs e tardes no Centro, o Parque Valongo vive o vazio de um uso diário tímido.

Nem mesmo a Passarela Porto-Cidade, desenhada como uma costura física para romper o isolamento do parque, conseguiu cumprir sua promessa prática.

Ela paira sobre a paisagem como uma escultura de aço bem-intencionada, mas que, no andar rotineiro do cidadão, ainda parece um caminho abstrato, uma travessia que encurta distâncias no mapa, mas que não foi suficiente para convencer a população de que aquele território do outro lado, espremido entre o mar, ferrovia e o asfalto, pertence também a ela.

Fabrício Ribeiro dos Santos Godoi, arquiteto e doutor em Arquitetura e Urbanismo pela USP e um dos coordenadores do Polo Regional Baixada Santista e Vale do Ribeira do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IABsp), aponta algumas hipóteses para essa baixa adesão.

“Urbanisticamente falando, sem dúvidas, a nova passarela permite uma caminhada mais fluida. A passarela antiga é muito problemática, já que os elevadores são lentos e de baixa capacidade e as escadarias inviabilizam o uso para uma quantidade enorme de pessoas que ali circulam e que possuem alguma limitação ou mesmo estão fatigadas de um dia de trabalho. Há um problema de fundo: qual é a relação possível entre porto e cidade? É essencial que a cidade faça uma profunda reflexão sobre isso, antes de propor estruturas multimilionárias ou obras bilionárias. Seja para manter a priorização das atividades portuárias, sem alterações no eixo ferroviário; seja para realizar essa conexão de modo menos traumático para a cidade, mas impactando em serviços que inviabilizaram o uso da ferrovia por algum tempo. Não haverá solução fácil e o mais importante é envolver – e priorizar – a participação social”.

Para os pequenos negócios que apostam no Centro Histórico, o Parque Valongo consegue atrair um público interessante quando recebe eventos, em especial os gratuitos e abertos ao público.

Segundo Marina Paes, empreendedora da Futrica Economia Criativa (que fica quase em frente à entrada do bulevar aéreo do parque), há um reflexo positivo tanto no comércio quanto no interesse das pessoas pelas ativações culturais e criativas.

“A construção do bulevar foi super positiva. É como um portal de conexão com um ativo relevante da cidade, que é o porto, para além da vista da Serra do Mar, com um enorme potencial de lazer. Porém, há clientes meus que atravessam para o parque em dias em que não há evento por lá e voltam dizendo “não tem nada do outro lado”. Ou então, em dias muito quentes, não conseguem permanecer na área, dadas as poucas zonas arborizadas e com sombra. Então, o parque em si precisaria receber uma infraestrutura mais completa, com jardinagem, permacultura, serviços em funcionamento permanente, como restaurantes, bares, lojas, áreas de lazer e de artes e cultura, com mediação. E nós adoraríamos poder contribuir e temos muito a oferecer nesse sentido”.

Conversamos também com Fábio Ferraz, secretário de Governo da Prefeitura Municipal de Santos, que disse que a ocupação do complexo ainda está em andamento, com novos usos e restauros chegando em breve, como a Casa de Pedra e os armazéns 1 e 2.

“Nossa avaliação é positiva para este primeiro momento do parque. Temos uma agenda repleta de atividades não só abertas ao público, mas também institucionais de vários setores públicos e privados, visitas de escolas, entidades de classe e outras organizações que movimentam o local”, diz Ferraz.

Embora Ferraz diga que existam “dezenas e dezenas de pessoas” que utilizam o parque para passear durante a semana, uma visita em qualquer tarde atesta que não é bem assim.

Edifício abandonado e dilapidado visto através de um portão de metal trancado, com entulho no chão e vegetação crescendo.Ruínas da Casa de Pedra, uma das próximas etapas do Parque Valongo

O fato é que, hoje, o Parque Valongo vive de um calendário de eventos públicos e privados organizado pela Prefeitura. Fora disso, o movimento espontâneo é bastante escasso.

Marina acredita que a administração municipal pode se comunicar melhor com a vizinhança do Parque para que essa agenda seja benéfica para todos os envolvidos.

“Atualmente, as informações que nos chegam (quando chegam) se dão a partir de nossa procura por saber quais eventos estão agendados, como funcionarão, qual a proposta curatorial, etc. Cidades com rico patrimônio histórico como Santos, a exemplo de Paraty, São Luís e outras, liberam o calendário de eventos com antecedência, de forma pública, favorecendo os empreendimentos locais. Se tivéssemos essa previsibilidade, isso nos ajudaria demais, porque poderíamos nos preparar melhor para acolher a população local, além dos turistas, até para suplementar a estrutura de apoio de recepção e também melhorando a experiência de vida na cidade”.

Para Marina, uma cidade que tem a economia criativa como política pública ganharia muito ao trazer os empreendedores, coletivos e produtores culturais para a discussão para ajudar a pensar o presente e o futuro do Parque Valongo.

Trilhos de trem com vagões azuis e amarelos, edifícios de pedra e porto com guindastes e navios ao fundo, em Santos.

Esquecemos as árvores e quem já estava lá?

É preciso confrontar o fantasma daquilo que as teorias de planejamento urbano chamam de inclusão incompleta, quando as promessas de modernização parecem parar exatamente na fronteira da segregação socioespacial.

Para os trabalhadores e moradores que dependem diariamente das barcas para Vicente de Carvalho e à Ilha Diana, o cotidiano acontece às margens da recém-chegada opulência. A infraestrutura de transporte precária e sua quase absoluta desconexão com o novo parque expõem essa assimetria de acessibilidade urbana. É como se a própria intervenção física na cidade tivesse sido acometida por uma espécie de amnésia conveniente, projetando um espaço público redesenhado para um novo perfil de público enquanto empurra para a invisibilidade justamente as populações que já habitavam, trabalhavam e davam vida a esse local antes de qualquer projeto.

Godoi acredita que a intervenção realizada poderia ter sido mais inclusiva.

“Antes de tudo, seria essencial ter ampla participação da população para a definição do programa de necessidades do parque, ou seja, quais as funções e os usos que viriam a existir ali. Esse debate praticamente não existiu e as novas fases seguem sendo realizadas sem participação amplamente franqueada a quem usa. Outro aspecto é relativo a esse público em particular, que faz uso das barcas, que segue sendo atendida por uma estrutura muito precária, sem amenidades, sem cobertura, sem plena integração com as demais funcionalidades do parque ou mesmo sem uma conexão adequada e acessível com o centro da cidade. As vantagens seriam muitas. Inclusive, seria evitada a sensação de esvaziamento do parque”.

E uma das principais perguntas é: dá pra existir um parque sem árvores?

Um parque sem árvores falha em modular o microclima urbano de maneira eficaz, pois são elas que reduzem o estresse térmico por meio do resfriamento da temperatura da superfície, amortecem a poluição sonora urbana e sustentam a biodiversidade que potencializa as experiências restauradoras. Privar um espaço público como o Parque Valongo da presença delas significa, portanto, anular os principais mecanismos biológicos e psicológicos de redução de estresse.

Estudos populacionais importantes, como os de Astell-Burt e Feng (2019), demonstram que uma cobertura de copa de árvores de pelo menos 30% está diretamente associada a menor sofrimento psicológico, enquanto espaços verdes compostos apenas por gramados planos não oferecem os mesmos ganhos de saúde mental. Isso ocorre porque as árvores fornecem estímulos visuais ricos em “fascinação suave”, que ativam nossa atenção involuntária, reduzem a ruminação mental e restauram a nossa fadiga cognitiva.

“Santos é uma cidade quente, como registrado há muito na literatura sobre a cidade, além dos dados disponíveis a qualquer pessoa. Ignorar esse fator é realmente um grande erro.

Uma boa arquitetura da paisagem poderia oferecer soluções para que as pessoas possam desfrutar do espaço em condições de conforto. Soluções temporárias são possíveis, considerando que o paisagismo tem um tempo de desenvolvimento lento. Então, dá sim para melhorar as condições ambientais”, explica Godoi.

Será possível corrigir isso agora?

Uma nova forma de encarar o paisagismo pode resolver isso no curto, médio e longo prazos, seja com a ajuda de sombras artificiais e árvores de crescimento rápido no imediato; espécies de grande porte e corredores verdes no médio prazo; e elementos que reduzam o aquecimento do piso, como materiais mais permeáveis.

Só isso já aumenta a vontade de ir e permanecer.

O secretário de Governo reconhece que o conforto ambiental é insuficiente e afirmou que melhorias devem ser colocadas em prática até o fim do ano.

O entorno também representa um problema para quem acessa o Parque Valongo. Embora tenha passado por uma reforma urbanística, a Rua Tuiuti não deixou de transmitir uma sensação de insegurança para quem passa por ali fora do horário comercial.

A zeladoria é outro ponto crítico da experiência de ir ao Parque Valongo, o que inclui limpeza, conservação, banheiros, manutenção de piso, iluminação e resposta rápida a problemas de estrutura.

Roda-gigante branca com várias cabines contra um céu azul claro, exibindo um letreiro verde central 'A Gigante de Santos'Foto: Carlos Nogueira/PMS

Na época da inauguração, em 2024, instalou-se uma roda-gigante turística, uma daquelas estruturas de aço que vemos em cidades turísticas como Gênova, Viena ou o Rio de Janeiro. Mas a atração chegou a partir de um arranjo frágil, uma parceria temporária com uma empresa privada que durou pouco mais que o entusiasmo das primeiras comitivas.

Poucos meses depois, a roda-gigante foi desmontada e levada embora, deixando para trás um vazio no parque, expondo uma sustentação operacional cronicamente incerta.

A retirada precoce do brinquedo serve como uma parábola sobre as ilusões do urbanismo de impacto: em um parque que ambiciona se infiltrar no andar diário e na rotina de seus habitantes, não basta inaugurar o salão com uma festa se os convidados decidem ir embora cedo, deixando os anfitriões sozinhos na escuridão do dia seguinte.

Segundo Ferraz, os próximos passos para o Parque Valongo são, como mencionado anteriormente, as entregas dos armazéns 1 e 2 e a Casa de Pedra. Em breve, está previsto também o funcionamento de um hub de inovação ligado ao Parque Tecnológico de Santos.

A agenda de eventos promete ser ainda mais recheada. E as licitações para a exploração comercial dos novos pontos que surgirão ali devem ser abertas neste segundo semestre de 2026, incuindo a Casa de Pedra.

Fachada de um edifício de pedra histórico com guarnição azul e um banner 'Casa de Pedra: Próxima Fase do Parque Valongo'.

E não temos como deixar de mencionar a “menina dos olhos” da atual gestão: o novo terminal de cruzeiros.

“É o nosso sonho e o sonho da cidade para mudarmos a lógica da região central”, diz Ferraz.

Com muita lucidez, Marina se pergunta quanto tempo isso vai levar.

“A percepção geral é de que quando o terminal de cruzeiros for transferido para o Valongo, tudo vai melhorar. Mas quando isso vai acontecer? Em 5, 10, 15 anos? Não podemos depender de uma perspectiva futura se não trabalharmos o presente da cidade. Ainda padecemos de dias muito esvaziados no Centro”, conta.

Será que essas soluções se alinham com o que o santista e o turista querem? Por que não complementar o potencial econômico e social com gastronomia com identidade caiçara, valorizando chefs da região ou com economia criativa real, com feiras regulares, ateliês coletivos, oficinas, museus e uma agenda cultural mais diversa?

“É importante envolver a sociedade santista e o público usuário no debate. As decisões não podem ser tomadas somente dentro dos gabinetes. É evidente a ausência de um espaço cultural diversificado, com uso contínuo e não dependente de uma programação de eventos terceirizados.

Os armazéns possuem esse potencial, pois são espaços que permitem a montagem de exposições grandes ou a construção de oficinas culturais variadas. E, como Santos também se apresenta como um polo gastronômico, parte destes espaços poderia ser concedida a marcas santistas. Mas penso que essas iniciativas precisam caminhar junto com o interesse da sociedade, cuja manifestação deve estar garantida no processo”, defende Godoi.

Nos seus dois primeiros anos de funcionamento, o Parque Valongo já teve um efeito urbano empiricamente perceptível. Essa vitalidade prometida avançou de um jeito muito mais lento do que a narrativa institucional propagandeava (sem muitas surpresas aqui).

No cotidiano e no imaginário das pessoas, porém, o projeto ainda escancara a distância entre a revitalização simbólica e a utilização democrática do território. Por isso, precisamos nos perguntar: será que, na prática, um parquinho moderno, galpões multiuso e uma quadra de beach tennis longe das areias da praia são suficientes para essa apropriação?

Para Godoi, há muitas possibilidades para a ocupação mais assertivo do Parque Valongo.

“Os armazéns são edifícios flexíveis, que permitem diferentes usos. O mais importante, sem dúvidas, é provocar uma discussão ampla com toda a sociedade santista e – por que não? – com os turistas.

Mas há alguns indícios, considerando a dinâmica econômica atual da cidade, como a implantação de um polo gastronômico associado a uma estrutura turística receptiva, incluindo passeios de barco, esportes náuticos, comercialização de artesanatos e lembranças, envolvendo turismo comunitário em todas essas atividades.

Manter os eventos é importante, claro. Mas todos esses usos comerciais e de serviços devem complementar o complexo e não se tornar o seu eixo principal. Por esse motivo, um restauro que dê relevo à arquitetura original dos armazéns seria muito atraente. Também por isso é importante que a doca seja efetivamente usada, com movimento vivo de embarcações, afinal o parque ainda é um porto”.

O Parque Valongo precisa ser mais do que uma marca, que é a maneira como, por vezes, a administração municipal parece querer vender o projeto. Não dá para esquecer que são as pessoas, e não os lugares que elas frequentam que, de fato, tornam uma localidade interessante. E as pessoas desejam segurança, acessibilidade, conexões, diversão e conforto.

Santos está apenas ensaiando a sua ambicionada reconquista territorial na franja do porto, tendo o Parque Valongo como o primeiro capítulo de sua nova imagem pública.

A gente voltou a enxergar o porto. Agora seguimos com otimismo daquilo que, um dia, pode se tornar indistinguível da promessa de campanha.

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