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O trote está chegando: saiba a diferença entre diversão e crime

Com o início do ano letivo, universidades se preparam para receber novos estudantes. Legislação municipal e estadual proíbe práticas violentas e pune agressores

Tempo de leitura: 4 minutos

As aulas estão voltando para os universitários e estudantes do ensino superior. Naquele misto de ansiedade, emoção e frio na barriga, os calouros, carinhosamente apelidados de “bixos”, se preparam para um dos rituais mais tradicionais (e temidos) da vida acadêmica: o trote.

www.juicysantos.com.br - O trote está chegando saiba a diferença entre diversão e crimeFoto: Agência Senado/Saulo Tomé

Cabelo raspado, corpo pintado, cabeça cheia de ovo, pedir dinheiro na rua com placas criativas e, claro, aquela cervejinha (ou várias) para selar a entrada oficial no ensino superior. Para muitos, essas memórias bizarras e divertidas marcam o início de uma nova fase da vida. Afinal, quem nunca viu um futuro médico ou advogado todo pintado de guache verde?

A tradição existe há décadas e, quando feita com bom senso e consentimento, pode ser uma forma divertida de integração. O problema começa quando a “brincadeira” deixa de ser engraçada para quem está participando.

Quando a diversão vira pesadelo

É aqui que mora o perigo. A linha entre uma recepção animada e um trote violento é mais fina do que parece. O que para alguns pode ser “só uma zueira”, para outros pode se transformar em trauma, humilhação e até crime.

Em Santos, a preocupação com o tema é tão séria que desde 2015 existe a Semana de Consciência Universitária Contra o Trote Violento, instituída no calendário oficial do município. E não é para menos: o Estado de São Paulo sancionou em 2024 uma lei que pune duramente quem pratica e quem permite trotes violentos.

A legislação é clara: coação, agressão, humilhação, racismo, capacitismo, misoginia e qualquer constrangimento físico ou moral são proibidos. E as punições vão desde desligamento da instituição até processos criminais.

O que pode e o que não pode?

Aqui vai o resumo para ninguém pisar na bola:

Pode: Pintar o rosto com consentimento, fazer brincadeiras leves, organizar gincanas divertidas, promover festas de recepção, criar tradições engraçadas da turma.

Não pode:

  • Forçar consumo de bebidas alcoólicas
  • Obrigar beijos ou atos sexuais
  • Agredir verbal ou fisicamente
  • Dar apelidos ofensivos
  • Impor vestimentas ou proibir roupas
  • Forçar calouros a pedir dinheiro
  • Raspar cabelo à força
  • Proibir acesso a áreas da faculdade
  • Forçar consumo de alimentos

As consequências são reais

Não é mimimi nem exagero: trote violento pode configurar crimes como injúria (até 6 meses de detenção), injúria racial (2 a 5 anos), ameaça, constrangimento ilegal, lesão corporal (até 8 anos nos casos graves), racismo e, em situações extremas, até homicídio.

Os crimes mais comuns associados aos trotes violentos incluem:

Injúria: Ofender a dignidade ou honra de alguém. Pena de até seis meses de detenção, podendo chegar a um ano se houver violência. Na injúria racial, a punição é de dois a cinco anos de prisão.

Ameaça: Intimidar alguém verbalmente ou por gestos pode levar à prisão de um a seis meses.

Constrangimento ilegal: Constranger mediante violência ou ameaça resulta em detenção de três meses a um ano.

Lesão corporal: Ferir alguém pode resultar em penas de três meses a oito anos, dependendo da gravidade.

Racismo: Discriminação por raça, cor, etnia, religião ou procedência. Pena de dois a cinco anos de reclusão.

Homicídio: Em casos extremos que resultem em morte, a pena vai de seis a 20 anos de prisão, podendo aumentar em casos de homicídio qualificado ou feminicídio.

A palavra mágica é consentimento

No fim das contas, o trote pode ser uma experiência incrível de integração, cheia de histórias para contar (e rir) depois. O segredo está no respeito e no consentimento. Se o calouro está se divertindo, topando as brincadeiras e participando voluntariamente, maravilha. Se não está, é obrigação dos veteranos pararem na hora.

Afinal, a ideia é receber os novos colegas com alegria, criar vínculos e começar uma jornada acadêmica juntos, não traumatizar ninguém no primeiro dia de aula.

Como denunciar

Se você presenciar ou for vítima de trote violento, denuncie à instituição de ensino, registre boletim de ocorrência na Polícia Civil e procure o Ministério Público. A omissão também é crime.

A conscientização é o primeiro passo para transformar a cultura universitária e garantir que todos os estudantes sejam recebidos com dignidade e respeito.

Bem-vindos, bixos! Que sua jornada no ensino superior seja repleta de aprendizados, amizades e histórias engraçadas, mas sempre com respeito e dignidade.

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