O trote está chegando: saiba a diferença entre diversão e crime
Com o início do ano letivo, universidades se preparam para receber novos estudantes. Legislação municipal e estadual proíbe práticas violentas e pune agressores
As aulas estão voltando para os universitários e estudantes do ensino superior. Naquele misto de ansiedade, emoção e frio na barriga, os calouros, carinhosamente apelidados de “bixos”, se preparam para um dos rituais mais tradicionais (e temidos) da vida acadêmica: o trote.
Foto: Agência Senado/Saulo ToméCabelo raspado, corpo pintado, cabeça cheia de ovo, pedir dinheiro na rua com placas criativas e, claro, aquela cervejinha (ou várias) para selar a entrada oficial no ensino superior. Para muitos, essas memórias bizarras e divertidas marcam o início de uma nova fase da vida. Afinal, quem nunca viu um futuro médico ou advogado todo pintado de guache verde?
A tradição existe há décadas e, quando feita com bom senso e consentimento, pode ser uma forma divertida de integração. O problema começa quando a “brincadeira” deixa de ser engraçada para quem está participando.
Quando a diversão vira pesadelo
É aqui que mora o perigo. A linha entre uma recepção animada e um trote violento é mais fina do que parece. O que para alguns pode ser “só uma zueira”, para outros pode se transformar em trauma, humilhação e até crime.
Em Santos, a preocupação com o tema é tão séria que desde 2015 existe a Semana de Consciência Universitária Contra o Trote Violento, instituída no calendário oficial do município. E não é para menos: o Estado de São Paulo sancionou em 2024 uma lei que pune duramente quem pratica e quem permite trotes violentos.
A legislação é clara: coação, agressão, humilhação, racismo, capacitismo, misoginia e qualquer constrangimento físico ou moral são proibidos. E as punições vão desde desligamento da instituição até processos criminais.
O que pode e o que não pode?
Aqui vai o resumo para ninguém pisar na bola:
Pode: Pintar o rosto com consentimento, fazer brincadeiras leves, organizar gincanas divertidas, promover festas de recepção, criar tradições engraçadas da turma.
Não pode:
- Forçar consumo de bebidas alcoólicas
- Obrigar beijos ou atos sexuais
- Agredir verbal ou fisicamente
- Dar apelidos ofensivos
- Impor vestimentas ou proibir roupas
- Forçar calouros a pedir dinheiro
- Raspar cabelo à força
- Proibir acesso a áreas da faculdade
- Forçar consumo de alimentos
As consequências são reais
Não é mimimi nem exagero: trote violento pode configurar crimes como injúria (até 6 meses de detenção), injúria racial (2 a 5 anos), ameaça, constrangimento ilegal, lesão corporal (até 8 anos nos casos graves), racismo e, em situações extremas, até homicídio.
Os crimes mais comuns associados aos trotes violentos incluem:
Injúria: Ofender a dignidade ou honra de alguém. Pena de até seis meses de detenção, podendo chegar a um ano se houver violência. Na injúria racial, a punição é de dois a cinco anos de prisão.
Ameaça: Intimidar alguém verbalmente ou por gestos pode levar à prisão de um a seis meses.
Constrangimento ilegal: Constranger mediante violência ou ameaça resulta em detenção de três meses a um ano.
Lesão corporal: Ferir alguém pode resultar em penas de três meses a oito anos, dependendo da gravidade.
Racismo: Discriminação por raça, cor, etnia, religião ou procedência. Pena de dois a cinco anos de reclusão.
Homicídio: Em casos extremos que resultem em morte, a pena vai de seis a 20 anos de prisão, podendo aumentar em casos de homicídio qualificado ou feminicídio.
A palavra mágica é consentimento
No fim das contas, o trote pode ser uma experiência incrível de integração, cheia de histórias para contar (e rir) depois. O segredo está no respeito e no consentimento. Se o calouro está se divertindo, topando as brincadeiras e participando voluntariamente, maravilha. Se não está, é obrigação dos veteranos pararem na hora.
Afinal, a ideia é receber os novos colegas com alegria, criar vínculos e começar uma jornada acadêmica juntos, não traumatizar ninguém no primeiro dia de aula.
Como denunciar
Se você presenciar ou for vítima de trote violento, denuncie à instituição de ensino, registre boletim de ocorrência na Polícia Civil e procure o Ministério Público. A omissão também é crime.
A conscientização é o primeiro passo para transformar a cultura universitária e garantir que todos os estudantes sejam recebidos com dignidade e respeito.
Bem-vindos, bixos! Que sua jornada no ensino superior seja repleta de aprendizados, amizades e histórias engraçadas, mas sempre com respeito e dignidade.