O que falta para o mercado de trabalho em Santos abrir as portas para pessoas trans?
Visibilidade é mais que existência. Significa respeito, dignidade e valor
Dizem por aí que Santos sempre foi uma cidade de portas abertas. Não à toa, é conhecida como a cidade que acolhe e transforma. Porém, quando o assunto é mercado de trabalho para pessoas trans, a história – que, no caso é realidade – não é bem assim.
Essas portas estão realmente abertas para todos? Ou, ao contrário, continuamos perpetuando uma exclusão cruel? Uma exclusão que condena parte da população ao desemprego e à vulnerabilidade.

Por que falar de empregabilidade trans em Santos?
O Dia Nacional da Visibilidade Trans, celebrado em 29 de janeiro, existe justamente para jogar luz nessa realidade. Aliás, os números são contundentes e não deixam margem para romantização. Dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) revelam um cenário alarmante. Apenas 25% das pessoas trans no Brasil possuem emprego formal.
Pois é: 3 em cada 4 pessoas trans estão fora do mercado de trabalho formal. Esse índice fica 6,8 pontos percentuais abaixo da média nacional.
A situação se agrava quando analisamos especificamente as mulheres trans e travestis.
Pesquisas da Fapesp realizadas em sete cidades paulistas — incluindo Santos — apontam um dado chocante. Somente 13,9% das mulheres trans e travestis conseguem inserção no mercado formal. Portanto, estamos falando de uma população empurrada para a informalidade. Ou, na pior das hipóteses, para atividades de sobrevivência.
Da escola ao mercado de trabalho
A discriminação começa cedo. Muitas pessoas trans enfrentam violência já no ambiente escolar. Como consequência, isso resulta em evasão e baixa escolaridade. Assim, sem formação adequada e com documentos que não refletem sua identidade, essas pessoas enfrentam barreiras intransponíveis.
Mesmo quando conseguem emprego, a discriminação persiste. Relatos de proibição de uso de banheiros adequados são comuns. Além disso, há desrespeito ao nome social e casos frequentes de assédio no dia a dia corporativo.
Na Baixada Santista, essa realidade não é diferente. Um estudo do Projeto Muriel incluiu Santos entre as cidades pesquisadas. Identificou-se que apenas 16,7% das pessoas trans da região tinham vínculo formal de trabalho. Esse número fica muito abaixo dos 55,3% da população geral da Região Metropolitana de São Paulo. Portanto, enquanto Santos se orgulha de ser referência em diversas áreas, no quesito inclusão trabalhista para pessoas trans, ainda há um longo caminho pela frente.
Contratações que não se sustentam
Contudo, não basta contratar em janeiro e esquecer em fevereiro. Taiane Miyake é coordenadora de Políticas para a Diversidade da CODIVER. Ela alerta para um problema recorrente:
“Muitas empresas focam em ‘bater metas’ de contratação no mês da visibilidade, mas falham em manter esses profissionais.”
Esse fenômeno é conhecido como “transwashing”. Ele transforma a causa em peça de marketing sem gerar mudança real. Taiane defende que a solução passa por ações concretas:
“Para evitar o ‘transwashing’, as empresas devem adotar políticas de inclusão real, com ações contínuas e transparentes.” afirma.
Além disso, ela destaca expectativas para os próximos anos. Entre elas, estão mais acesso à qualificação profissional, suporte psicológico e flexibilidade no ambiente de trabalho. Principalmente, representatividade em cargos de liderança.
Pilares para uma carreira de longo prazo
Mas afinal, o que torna um ambiente corporativo seguro o suficiente? Como garantir que uma pessoa trans não apenas entre, mas construa uma carreira de verdade? Segundo Taiane, existem pilares essenciais.
“Ter líderes que promovem a diversidade e criam um ambiente seguro para pessoas trans e travestis, onde possam contribuir plenamente e implementar programas de formação para gestores sobre pronomes, políticas inclusivas e desafios trans e travestis no trabalho.” explica.
Ela ainda reforça a necessidade de mecanismos de proteção.
“Estabelecer um código de ética (compliance) claro contra discriminação trans e travesti”, defende. Também é importante “incentivar a candidatura de pessoas trans e travestis a cargos de liderança.”
Portanto, não se trata apenas de abrir a porta. É preciso garantir que essas pessoas possam subir as escadas da empresa. Com os mesmos direitos e oportunidades que qualquer outra.
Raça e classe, recortes que aprofundam a exclusão
A experiência de uma pessoa trans no mercado de trabalho não é universal. Mulheres trans negras enfrentam barreiras diferentes de homens trans brancos. Da mesma forma, pessoas trans de periferia têm desafios distintos daquelas de bairros centrais.
“Pessoas trans e travestis no Brasil ainda enfrentam altos índices de vulnerabilidade social. Como a inserção no mercado de prostituição e a baixa escolaridade”, explica Taiane
O caminho, segundo ela, passa por sensibilização.
O desafio é sensibilizar as empresas a contratar essas pessoas em funções que não exigem um currículo formal. Criando uma porta de entrada para que possam sair da marginalização. As empresas precisam entender que a experiência de cada pessoa trans e travesti é diferente. Influenciada por raça, classe e gênero. Para garantir uma inclusão real, é importante ajustar os processos seletivos. Tornando o mercado de trabalho mais acessível e justo para todos os perfis.” finaliza.
Isso significa repensar requisitos e flexibilizar exigências de formação quando possível. Acima de tudo, enxergar potencial onde o mercado tradicionalmente só via exclusão.
Empresas grande podem (e devem) liderar pelo exemplo
Trazer mais diversidade para as equipes de trabalho não é bom apenas para uma minoria, e sim ajuda toda a cadeia produtiva e a população.
É justamente nesse contexto que empresas como McDonald’s se tornam boas referências. A empresa, operada pela Arcos Dorados, possui mais de 900 colaboradores trans no Brasil. Quase um terço utiliza nome social.
A companhia garante o uso do nome social em todos os sistemas internos. Isso ocorre independentemente da retificação de documentos. Além disso, oferece uniformes não binários e programas de apoio psicológico. Também investe na promoção de cargos de liderança. Atualmente, 1,5% das posições de gestão são ocupadas por pessoas trans.
Recentemente, a empresa passou a apoiar o mutirão “Meu nome de verdade”. A iniciativa é promovida pelo Fórum de Empresas e Direitos LGBTI+. Ela auxilia na retificação de nome civil. Um processo ainda burocrático e custoso que exige até 17 documentos. Consequentemente, impede muitas pessoas de terem sua identidade reconhecida oficialmente.
Empresas grandes na Baixada Santista e em todo o Brasil podem – e devem – seguir esse modelo. Não se trata de favor ou caridade. Mas sim de justiça social e aproveitamento de talentos sistematicamente desperdiçados. E tem mais: quando grandes corporações adotam políticas efetivas de inclusão, criam um efeito cascata. Isso inspira pequenas e médias empresas a fazerem o mesmo.
Ações e eventos locais
Felizmente, Santos não está parada nessa discussão. Nesta quarta-feira (29 de janeiro), a CODIVER promove o evento “RESPEITO TRANSforma!”. O Conselho Municipal LGBT (CONLGBT) também participa da organização.
O encontro acontece às 9h30 na Universidade São Judas – Campus Unimonte. O endereço é Rua Comendador Martins, 52, Vila Mathias. Convidadas e convidados trans compartilharão suas histórias, vivências e trajetórias. Trata-se de um momento de escuta, troca e reflexão. Serão discutidos desafios, conquistas e a luta por direitos, respeito e dignidade. A entrada é gratuita e aberta para todas as pessoas.]]
Em maio de 2025, a São Judas Unimonte inaugurou o Ambulatório Transdisciplinar de Cuidado e Acolhimento LGBT+. O espaço funciona como fruto de uma parceria entre a Prefeitura (Secretarias de Saúde e da Mulher/Cidadania) e a universidade.
O foco está no atendimento psicológico humanizado e saúde mental para jovens, adultos e familiares que buscam apoio sobre identidade de gênero e orientação sexual.
Professores e estudantes do curso de Psicologia, oferecem escuta qualificada (individual ou em grupo). As pessoas são encaminhadas pelas unidades da Secretaria Municipal de Saúde (policlínicas/UBS).
Segundo Nina Barbosa, titular da Secretaria da Mulher, a iniciativa é um marco histórico para garantir dignidade e respeito às singularidades da comunidade na região.
Além disso, a cidade vizinha de São Vicente oferece o também um ambulatório de assistência para pessoas trans da Baixada Santista. O local não só atende questões de saúde. Também oferece acesso à empregabilidade, cursos profissionalizantes e retificação de nome social e gênero.
Iniciativas como essas mostram que é possível construir uma rede de apoio. Uma rede que vá além do assistencialismo e efetivamente prepare pessoas trans para o mercado de trabalho.
A transformação começa com oportunidade
O Dia da Visibilidade Trans não pode ser apenas uma data no calendário. Precisa ser um chamado à ação concreta.
Empresas, governos e sociedade civil têm o dever de derrubar barreiras. Barreiras que impedem pessoas trans de exercerem plenamente sua cidadania através do trabalho digno.
A verdadeira transformação acontece quando deixamos de apenas “aceitar” diferenças. E passamos a reconhecer talentos. Santos precisa ser pioneira nessa mudança. Afinal, respeito não é favor, é direito.
E visibilidade é muito mais que existência. É a garantia de que todas as pessoas tenham as mesmas oportunidades. Independentemente de sua identidade de gênero. Para construir uma vida com dignidade, autonomia e prosperidade.
Serviço
Evento: RESPEITO TRANSforma!
Data: 29 de janeiro de 2026
Horário: 9h30
Local: Universidade São Judas (Campus Unimonte) Rua Comendador Martins, 52 – Vila Mathias, Santos/SP
Entrada: Gratuita e aberta ao público
CODIVER – Coordenadoria de Políticas para a Diversidade Secretaria da Mulher, Cidadania, Diversidade e Direitos Humanos de Santos Coordenação: Taiane Miyake
Ambulatório Trans – São Vicente Informações sobre atendimento, empregabilidade e cursos: Secretaria dos Direitos Humanos e Cidadania de São Vicente (Sedhc-SV) Rua José Bonifácio, 404 – Sala 13 – Centro