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O porto de Santos também é lugar de criança e a Camila Genaro pode provar

Artista lidera projeto que insere a atividade portuária no cotidiano de estudantes da rede municipal de ensino

Tempo de leitura: 4 minutos

Se você fizer essa pergunta para um técnico de segurança do trabalho, a resposta vai ser um “não” bem firme. Porto é zona alfandegada. É lugar de capacete, guindaste suspenso e caminhão que não para. Mas Camila Genaro faz essa pergunta de outro ângulo — e a resposta dela muda tudo.

A contadora de histórias, arte-educadora e escritora santista acredita que o problema não é o perigo do cais. O problema é o muro. Não o de concreto, mas o simbólico. Aquele que faz com que uma criança nascida na Baixada Santista cresça olhando navios no horizonte sem entender o que eles carregam — nem o que poderiam carregar para a vida dela.

www.juicysantos.com.br - relação porto-cidade - camila genaro - o porto vai à escola

Camila é uma das líderes do projeto “O Porto Vai à Escola”, iniciativa que une contação de histórias e tecnologia de realidade virtual para traduzir a complexidade do Porto de Santos para alunos da rede pública. E no novo episódio do Lendárias e Portuárias, ela conta como a imaginação pode ser a ponte que nenhuma obra de infraestrutura ainda conseguiu construir.

“Somos vestidos de história” – Santos não sabe conta a sua

Camila ocupa a Cadeira 18 da Academia Brasileira de Contadores de Histórias. Ganhou o Troféu Baobá, considerado o “Oscar” da contação no Brasil. Participou do programa Quintal da Cultura, da TV Cultura. Mas é nas escolas públicas de Santos que ela encontra o trabalho mais urgente da carreira.

Acontece o que estudiosos internacionais chamam de “analfabetismo portuário”. Santos é o maior porto da América Latina. Bate recordes de movimentação. Fala uma língua cheia de siglas — TEUs, Draft, Demurrage. Mas, para a maioria das crianças que crescem aqui, esse vizinho bilionário é, no máximo, o motivo do trânsito na perimetral ou da poeira na janela.

O que Roterdã e Melbourne já endenderam

Esse movimento tem nome no mundo acadêmico: port literacy — letramento portuário. E não é novidade fora do Brasil.

Em Roterdã, existe o Portlantis, centro educativo interativo onde crianças a partir de 9 anos exploram o ambiente portuário por meio de exposições imersivas. O foco está nos grandes temas da transição: automação, energia sustentável, oportunidades de carreira.

Já em Melbourne, o porto oferece um programa educacional alinhado ao currículo escolar, com planos de aula prontos para disciplinas como Humanidades, Economia e Geografia — do ensino fundamental ao superior. As crianças aprendem a jornada das mercadorias e conectam a logística portuária à vida cotidiana.

Santos, contudo, ainda não tem um equipamento permanente com essa função. O que existe são projetos como o de Camila — relevantes, premiados, mas que dependem de apoio contínuo para sobreviver.

O porto não é conto de fadas

A parte mais honesta do trabalho de Camila é justamente essa: ela não romantiza o porto.

Para muitas crianças que vivem no Dique da Vila Gilda ou em outras áreas vulneráveis da cidade, a relação com o estuário não é de encantamento.

Assim, o desafio de Camila não é apenas encantar — é equilibrar. Transformar a narrativa sem apagar a realidade. Falar sobre impacto ambiental sem culpabilizar quem já carrega o peso de viver na vulnerabilidade. Inserir personagens femininas para que as meninas se vejam como futuras trabalhadoras portuárias, não apenas como espectadoras.

E ouvir o que as crianças devolvem. Porque elas dão muita coisa de volta.

Camila Genaro não tem todas as respostas, mas tem histórias. E, por enquanto, talvez seja por aí que começa a mudança.

Assista ao episódio completo no YouTube

O podcast tem apoio de DP World e ABTRA, e incentivo da Lei Municipal de Apoio à Cultura Alcides Mesquita (Promicult).

Vitor Fagundes
Texto por

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