O navio Besnard reflutua, mas seu futuro ainda é incerto
Depois de quase 90 dias parado no fundo do estuário, o navio venceu a água. Agora enfrenta um adversário mais difícil de vencer: a falta de um propósito
“O Besnard voltou a respirar.”
Foi assim que o presidente da Autoridade Portuária de Santos (APS), Anderson Pomini, descreveu o momento em que o navio Professor W. Besnard voltou à superfície, depois de quase três meses encostado no fundo do estuário, no cais do Parque Valongo.
Foto: Gustavo Nascimento
A frase resume bem o alívio do momento, mas deixa de fora a parte mais delicada da história. Respirar não é viver, o navio saiu da água sem que ninguém tenha decidido, ainda, o que fazer com ele.
Da lama de volta ao ar
A reflutuação marca o fim da primeira fase da operação de resgate, iniciada em abril e baseada inteiramente nas bombas de sucção e na paciência dos mergulhadores da Marfort Serviços Marítimos. Pomini comemorou o resultado, mas evitou cravar respostas sobre o que vem agora.
“Houve um empenho de toda a autoridade portuária, de toda a diretoria e dos funcionários da empresa contratada, a Marfort. Como vocês acompanharam, não é um desafio tão simples”, afirmou.
O próximo passo depende de outra instituição: a Capitania dos Portos. É ela quem vai dizer se o Besnard está em condições de navegar até um estaleiro, etapa indispensável antes de qualquer decisão sobre restauração.
“Esses estudos serão analisados agora pela Capitania dos Portos, que é a instituição responsável pela navegabilidade. A empresa já cumpriu o seu papel principal, que é reflutuar o navio”, explicou o presidente da APS.
Inteiro, em partes ou só na memória
No estaleiro, uma perícia vai responder a pergunta que ninguém quer fazer em voz alta: o Besnard será recuperado por completo, ou só parte dele vai sobreviver?
Pomini foi direto sobre o dilema: restaurar o navio inteiro custa caro, e mantê-lo navegando depois disso custaria ainda mais. Como a embarcação pertence ao Instituto do Mar (Imar), a APS afirma atuar apenas como intermediária do processo, sem assumir o papel de pagadora.
“A dúvida é o alto custo da recuperação total; se ele ficar navegando, o custo é ainda maior. Como o navio é privado, a autoridade portuária está intermediando essa recuperação”, disse.
Apesar dessa indefinição toda, uma decisão já está tomada. O Parque Valongo vai abrigar uma homenagem permanente ao navio, qualquer que seja o veredito técnico do estaleiro. Resta saber se essa homenagem será um casco inteiro ou apenas fragmentos dele.
Um navio sem função volta a apodrecer
A reflutuação resolveu o problema técnico mais urgente, mas deixou intacto o problema estrutural que levou o navio a afundar: a falta de uma função clara que justifique sua manutenção contínua. Um patrimônio sem uso definido tende a repetir a própria história de abandono.
Foi exatamente isso que aconteceu depois do incêndio de 2008, quando o navio ficou anos à deriva entre USP, Ilhabela e o Imar, sem ninguém assumir de verdade a responsabilidade por ele. O caso do SS Rotterdam, navio que se tornou hotel, restaurante e museu numa cidade portuária europeia, mostra como um propósito bem definido evita esse mesmo destino. Lá, o patrimônio sobreviveu porque ganhou um uso diário, capaz de pagar a própria manutenção.
Sem essa definição, museu, espaço educativo, marco turístico, o Besnard corre o risco de se tornar apenas um monumento caro de manter no Parque Valongo.
Pomini pede ajuda, sem prazo fechado
Já em março, antes mesmo da reflutuação, Pomini havia sinalizado à imprensa que a recuperação dependeria de parceiros, já que a APS não pode custear obras de um bem que não é seu. O discurso se mantém agora, com mais urgência.
“O custo para o desmonte sairá de onde? A história pertence a todos nós. Peço o apoio da comunidade portuária e dos empresários para que, em conjunto, façamos um trabalho pela recuperação desse navio”, declarou.
A boa notícia financeira é que o atraso na reflutuação não inflou a conta. O contrato com a Marfort segue em R$ 8,6 milhões, sem reajuste.
“Custo zero. O valor é exatamente o mesmo. Contratamos a prestação de um serviço e não um prazo específico”, garantiu Pomini.
Para desenhar o projeto final, a APS promete consultar especialistas e a comunidade ligada ao navio. Uma enquete pública vai colher sugestões sobre o destino da embarcação, e Pomini prometeu reunir proprietários, associações e defensores da história do Besnard dentro de dois ou três meses, já no estaleiro.
Cinco meses para decidir o que vem depois da água
O Besnard tem, segundo Pomini, pelo menos cinco meses para que essa definição aconteça. O prazo só vai resultar em algo concreto se empresas, associações e o poder público responderem ao chamado que ele fez nesta coletiva.
Santos conseguiu tirar o Besnard do fundo do canal. Resta saber se a cidade vai conseguir decidir, com a mesma disposição, o que fazer com ele a partir de agora.