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O menino do canal de Santos: o jovem que colocou a realidade dos canais no feed

Um menino entrou no canal de Santos. E agora?

Tempo de leitura: 6 minutos

Santos vive uma contradição curiosa. A cidade vende qualidade de vida, praia, turismo e bem-estar. Cartão-postal de um lado. Água escura, lixo boiando e cheiro forte do outro. E talvez o mais inquietante nisso tudo seja justamente a capacidade coletiva de se acostumar.

Quem anda pela orla da Praia de Santos olha apenas para o mar, os canais viraram parte invisível da paisagem. Estão ali, cortando a cidade, mas quase sempre só voltam ao debate quando a chuva aperta, a água sobe ou algum trecho alagado viraliza nas redes sociais.

Foi nesse cenário que um garoto conhecido como o menino do canal de Santos de apenas  17 anos decidiu fazer o caminho contrário da maioria: em vez de ignorar o problema, entrou nele.

Pedro Luís começou a ganhar atenção nas redes depois de publicar vídeos recolhendo lixo dentro dos canais de Santos.
A cena chama atenção porque parece errada. Mas é exatamente por isso que funciona.

Enquanto muita gente já naturalizou o lixo acumulado, Pedro transformou o desconforto não só em conteúdo, mas em pressão pública.

A praia bonita e tudo aquilo que vem antes dela

Pedro cresceu vendo o mar. Mas também cresceu vendo o lixo que chega até ele.

Em uma dessas idas à praia, se deparou com um acúmulo absurdo de resíduos e decidiu entender de onde vinha tanta sujeira. A resposta levou o adolescente para uma realidade que muita gente prefere não enxergar.

Grande parte do lixo encontrado no mar passa pelos manguezais e áreas de palafitas. Só que, diferente do discurso simplista das redes sociais, Pedro faz questão de apontar uma camada mais profunda do problema.

“Eles não jogam por falta de consciência ambiental, mas pela falta de estrutura para destinar o lixo corretamente.” comenta.

A frase desmonta uma narrativa confortável para muita gente. Porque é mais fácil culpar individualmente quem mora à margem da cidade do que discutir ausência histórica de saneamento, coleta adequada e infraestrutura básica.

Santos conhece essa desigualdade há décadas. Ela só não aparece nos folders turísticos.

O canal poluído não é apenas um problema ambiental. É um retrato urbano que virou sintoma social. Essa é uma conta empurrada há anos para baixo da ponte.

Dentro da água, na frente da câmera

A virada de chave de Pedro não veio depois de um grande projeto ambiental ou de uma campanha institucional. Veio da inquietação.
Ele começou a pesquisar, participou de palestras, ações voluntárias e decidiu transformar aquilo em vídeo. Afinal, se a internet consegue viralizar qualquer coisa, por que não usar esse alcance para gerar desconforto coletivo?

Pedro não fala como especialista ambiental, não tenta parecer ativista profissional e não usa discurso ensaiado.

Ele entra no canal e pergunta: “O que será que tem no canal de Santos hoje?”

A partir daí, o vídeo mistura humor, curiosidade e indignação. Enquanto retira lixo da água, comenta sobre consumo, descarte e impacto ambiental na linguagem da própria geração.

 

“Um jovem de 17 anos dentro do canal sujo, limpando, não é a solução. Mas a mensagem por trás disso, por si só, já diz muito.”

E diz mesmo.

Porque existe algo extremamente simbólico em ver um adolescente fazendo, sozinho, o tipo de cena que deveria constranger uma cidade inteira.

Sustentabilidade não é estética de feed

Tem uma coisa que Pedro não compra: a ideia de que sustentabilidade virou artigo de luxo.

“Me irrita quando sustentabilidade vira palavra de marca de cocô e pote de vidro.”

A fala vem carregada de ironia, mas também de verdade.

Durante muito tempo, parte da internet ajudou a transformar sustentabilidade em estética. Produtos caros, embalagens minimalistas e discursos bonitos que, muitas vezes, ignoram a realidade de quem mal consegue acesso básico a saneamento.

Pedro segue outro caminho e para ele, sustentabilidade está muito mais ligada ao cotidiano. Reutilizar sacolas, economizar água, separar resíduos e consumir menos.

Simples, direto e possível. E isso é justamente o que aproxima tantos jovens do conteúdo dele. Não existe tom professoral, mas existe identificação.

O alvo nunca foi o morador da palafita

Existe uma maturidade impressionante no discurso de Pedro para alguém de 17 anos. Ele sabe que limpar o canal sozinho não resolve nada. E nunca tentou vender essa ideia como solução definitiva.

O objetivo é outro.

“Eu resolvi divulgar tudo isso na internet como um jeito de dar um gatilho nos órgãos públicos para agirem de forma mais séria e constante.”

A frase muda completamente o peso do conteúdo.

Porque o ideia nunca foi falar de quem vive em situação precária. O objetivo é pressionar quem tem poder de transformar estruturalmente essa realidade. Falta coleta adequada, infraestrutura, política pública contínua. E falta também coragem de tratar o problema além da maquiagem urbana da orla.

O futuro de Santos é sustentável?

Pedro ainda é um adolescente tentando equilibrar escola, rotina, redes sociais e expectativas pessoais. Enquanto o público cresce, a cobrança interna cresce junto.

“A cobrança minha é enorme, enquanto não tem muita cobrança externa.”

Ele fala disso sem personagem.

Nem sempre existe motivação. Nem sempre sobra tempo para produzir o conteúdo que gostaria. E talvez essa honestidade seja parte da força que conecta tanta gente aos vídeos.

Pedro ainda não sabe exatamente onde tudo isso vai chegar. Expandir projetos para outras cidades? Criar novos formatos? Por enquanto, a meta é mais simples: continuar.

Postar vídeos toda semana. Fazer no próprio ritmo. Não abandonar aquilo que começou quase como um impulso.

O menino entrou no canal. E agora?

A história de Pedro incomoda porque ela escancara uma pergunta difícil: quantas vezes a cidade inteira passou pelos canais fingindo que aquilo era normal?

Durante anos, Santos aprendeu a conviver com o problema sem necessariamente enfrentá-lo. O lixo virou paisagem. O cheiro virou detalhe.

A desigualdade virou pano de fundo.

Até aparecer um garoto entrando na água suja e lembrando todo mundo de que aquilo nunca deveria ter sido aceitável.

Certa vez perguntaram para Pedro por que ele entrava no canal. A resposta veio curta, direta e impossível de ignorar:

“Porque alguém tem que entrar.”

É exatamente aí que essa história deixe de ser apenas sobre limpeza urbana.

Porque, no fundo, Pedro não está tentando salvar os canais sozinho. Ele está tentando impedir que a cidade de Santos continue olhando para o outro lado.