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O fim da escala 6×1 em Santos vai trazer desastre ou progresso?

A mudança na escala é o novo capítulo de uma história que o país repete toda vez que um direito trabalhista aparece no horizonte

Tempo de leitura: 8 minutos

É considerado desastroso para o Brasil segundo especialistas e empresários. Uma mudança desse tipo vai diminuir ainda mais a renda do país. Quem insiste nessa luta populista continua com esse discurso de que somos muito ricos, mas estão cegos e não conseguem ver a realidade. 

Parece familiar?

Então vamos de chá revelação… Esse texto não saiu em coluna de opinião em 2026 nem em comentário de vídeo do YouTube. Essa é uma adaptação temporal das matérias que os jornais de 1884 publicaram a respeito do fim da escravidão. Poderia ser sobre a escala 6×1, mas não é.

E o chororô da entidade sagrada denominada de “mercado” não parou por aí. O discurso foi semelhante com o salário mínimo, com o descanso semanal, com o décimo terceiro salário.

Agora, a bola da vez é o fim da escala 6×1 e estamos ouvindo muita gente por aí – de jornalistas e empresários – chamando a medida de populismo puro.

Mas e aí, por que tanto desespero pela incerteza da mudança?

www.juicysantos.com.br - O fim da escala 6x1 em Santos, desastre ou progresso

O Brasil tem um talento histórico para transformar direitos trabalhistas em catástrofe iminente. Mas, enquanto o país discute, Santos já está se mexendo.

De um desabafo numa farmácia ao Congresso Nacional

Tudo começou em 2023, quando Rick Azevedo, ex-atendente de farmácia, postou nas redes sociais sobre sua rotina exaustiva.

O vídeo viralizou, e daquele desconforto nasceu o Movimento VAT – Vida Além do Trabalho. Mais de 1,5 milhão de pessoas assinaram o abaixo-assinado digital pedindo o fim do modelo de seis dias de trabalho para um de descanso.

@rickazzevedo

Até quando essa escravidão?? 😡 #clt #escala6x1 #fy

♬ som original – Rick Azevedo

Para Azevedo, que posteriormente se tornou vereador pelo PSOL no Rio de Janeiro (RJ), as pessoas precisam viver além do trabalho. A geração passada foi ensinada a anular a própria vida em nome de uma escala que ele mesmo chama de escravagista. Desse incômodo pessoal nasceu um movimento que conectou milhões de pessoas com o mesmo cansaço.

A bagunça política

O movimento ganhou força política com a deputada Érika Hilton (PSOL-SP), que propôs uma PEC para alterar a jornada na CLT. A proposta inicial defendia 36 horas semanais, no modelo 4×3. A ideia gerou rejeição inicial, depois aceitação. O chamado centrão resolveu tomar a pauta para si, de olho nas eleições, mas empurrando uma versão mais tímida: a escala 5×2, de 40 horas semanais.

Há quem defenda uma mudança gradual ou transição imediata. Há disputa de autoria, de formato, de velocidade.

O governo Lula, percebendo a capacidade de mobilização do tema, entrou no jogo e prometeu encaminhar um projeto próprio com pedido de urgência.

Antes disso, articulou com Érika Hilton, com o senador Paulo Paim (PT), autor de um projeto de 2015 sobre redução de jornada, e com o deputado Reginaldo Lopes (PT), que propõe a mudança ao longo de 10 anos.

O resultado concreto disso tudo? Ainda não se sabe qual será a nova escala. A proposta mais recente em discussão fala em 40 horas semanais no modelo 4×3, com possibilidade de negociação via convenções coletivas. Mas o formato final pode mudar várias vezes antes da votação.

O que dá para afirmar com segurança é uma coisa só: a escala 6×1 vai acabar. A dúvida não é mais se a mudança vai acontecer, mas quando e em qual formato ela chegará.

O que diz a ciência

Sempre que uma mudança trabalhista aparece, surge o coro da produtividade perdida.

“O Brasil vai ficar para trás.”

“As empresas vão quebrar.”

Só que os dados apontam exatamente o oposto.

Um estudo da Unicamp (Cesit/IE) simulou cenários de redução de 44 para 36 horas semanais e chegou a um resultado inconveniente para os catastrofistas: a mudança pode gerar 4,5 milhões de novos postos de trabalho e elevar a produtividade em cerca de 4%. O próprio histórico brasileiro confirma isso. Quando a jornada caiu de 48 para 44 horas com a Constituição de 1988, a produtividade cresceu a uma taxa média anual de 6,5% na década seguinte.

No exterior, o caminho é o mesmo. Islândia, Bélgica e Reino Unido testaram jornadas reduzidas e colheram resultados positivos em saúde mental, bem-estar e produtividade. Um projeto piloto nos EUA e na Irlanda, avaliado por pesquisadores das Universidades de Boston, Dublin e Cambridge, mostrou que empresas participantes viram suas receitas crescerem 8% durante o período, com queda nos níveis de burnout e de afastamentos.

O argumento da “improdutividade” não se sustenta

O economista e professor José Kobori resume bem o equívoco dos críticos: quem trabalha na escala 6×1 é, majoritariamente, o setor de comércio e serviços. E, nesse setor, a produtividade não depende de robôs ou bens de capital. Depende de pessoas.

Um garçom no Brasil atende a mesma quantidade de clientes que um garçom nos Estados Unidos. Um barbeiro aqui corta o mesmo número de cabelos que um barbeiro em qualquer país rico. Não há como ter “ganho de escala” nesse tipo de trabalho. Comparar a produtividade do setor de serviços brasileiro com a indústria americana é, nas palavras do professor, falar um monte de besteira.

Os ganhos reais de produtividade vêm de investimentos em tecnologia, robótica e automação. Isso acontece na indústria, não no balcão da farmácia. Um trabalhador de fábrica nos EUA produz mais porque tem robôs à disposição, não porque trabalha mais horas. Essa distinção básica é ignorada toda vez que alguém tenta usar o argumento da produtividade para atacar a redução de jornada no comércio e serviços.

Santos já está mudando antes da lei

Enquanto Brasília debate o formato, Santos já viu a conta chegar antes do boleto.

A hamburgueria Seven Kings não esperou o Congresso. Fernando Russel, um dos sócios, conta que a preocupação com o bem-estar dos colaboradores sempre foi parte da cultura do negócio desde a abertura, em 2017. Os três sócios vieram do regime CLT e sempre souberam o que uma folga de verdade representa na vida de alguém.

O laboratório foi a unidade de Moema. Em junho do ano passado, a Seven Kings implementou a escala 5×2 na menor unidade, abrindo também às segundas-feiras para compensar o dia de folga. Depois de meses de análise, o modelo foi expandido para as demais unidades. O resultado: sem colapso financeiro, com melhora no ambiente de trabalho.

“Eu entendo que alguns restaurantes queiram adotar a 5×2 e tenham receio de o modelo não se sustentar. Restaurantes operam com margem bem pequena e isso dificulta mudar a operação. Mas eu também sei que tem uma parcela que não quer fazer essas mudanças e só vai se adaptar se virar obrigatório”, diz Russel.

Outro nome querido da cidade também está nessa direção. Américo Vieira Júnior, o Meco, comanda a histórica Cantina Babbo Américo. Após um ano difícil com a perda do pai, ele segue buscando melhorias na qualidade de vida dos colaboradores, não apenas como estratégia, mas por valores.

Organizar escalas mais humanas e folgas duplas mais frequentes é um desafio real no setor de alimentação. Meco não ignora isso. Mas também não desiste.

Já vivemos outras escalas

Nas nossas redes sociais, um seguidor do Juicy Santos lembrou de um detalhe curioso: o Miramar Shopping fechava aos domingos no início da sua operação. A assessoria não confirmou os detalhes, mas a memória coletiva está lá. Se até um shopping conseguiu se reorganizar, por que seria impossível imaginar trabalhadores com dois dias seguidos de descanso?

A cidade já passou por diferentes modelos ao longo dos anos. E Santos não quebrou nenhuma vez.

Dados do Cesit/Unicamp mostram que 76 milhões de trabalhadores brasileiros seriam diretamente impactados por uma mudança para a escala 4×3. Na escala 5×2, seriam 45 milhões de pessoas.

Santos é uma cidade de comércio, serviços, turismo e porto. Exatamente os setores onde a escala 6×1 é mais comum, e onde o impacto de uma mudança seria mais sentido, tanto para quem trabalha quanto para quem empreende. O debate não é abstrato aqui. É sobre o vendedor da Rua XV, o atendente do balcão no José Menino, o garçom da orla, a funcionária da farmácia da madrugada.

São pessoas que, segundo o dossiê da Unicamp, precisam de mais tempo para saúde, família, lazer e cultura. Esferas que uma escala de seis dias por semana simplesmente não comporta.

A velha dança do progresso

Voltemos àquele parágrafo do início. Em 1884, os jornais chamavam a abolição de desastrosa para o Brasil. Em 1943, a CLT foi chamada de populismo. O 13º salário? Ameaça à sobrevivência das empresas. O FGTS? Inviável.

Nenhum desses direitos quebrou o país. O país se adaptou. As empresas que só existiam à custa da exploração sem limite tiveram que se reinventar ou fechar.

A mudança vai acontecer e a pergunta mais importante aqui é: as empresas locais vão liderar esse movimento ou ser arrastadas por ele?

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