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O dia que a cidade de Santos recebeu uma “carga” de noivas em 1959

Santos mais uma vez virou cenário de uma história improvável

Tempo de leitura: 4 minutos

Em abril de 1959, o Porto de Santos parou! Mas não por causa do café, dos contêineres ou da correria típica do cais. Naquela manhã, o que fez o porto parar vinha do outro lado do mundo e carregava um detalhe que parecia roteiro de filme. Tudo isso faz parte das incríveis histórias da cidade de Santos.

Doze mulheres japonesas desembarcaram em Santos para encontrar maridos que ainda não tinham abraçado no Brasil.

Foto: Memória Santista 

O boato correu rápido entre os trabalhadores do porto, curiosos e jornalistas. Afinal, o navio “America Maru” trazia uma “carga” diferente. Quando o inspetor da Alfândega perguntou ao comandante o que havia no porão, ouviu uma palavra pouco comum: “hanayome”.

Em japonês, significa “noivas”.

E foi assim que Santos virou cenário de uma das histórias mais curiosas da imigração japonesa no Brasil.

Desembarque ou cena de novela?

A quinta-feira, 23 de abril de 1959, amanheceu movimentada no cais santista. O “America Maru” chegava após 53 dias de viagem desde Yokohama.

No porto, dezenas de famílias aguardavam ansiosamente. Além disso, fotógrafos, cinegrafistas e repórteres tentavam registrar cada detalhe daquele encontro que parecia improvável até para a época.

Muita gente acreditava que os casamentos tinham sido totalmente às cegas. Porém, a realidade era menos dramática e mais organizada, mas mesmo assim um tanto quanto incomum. 

Os noivos já se conheciam do Japão. Alguns haviam estudado juntos. Outros tinham famílias próximas. A maioria dos homens desembarcou no Brasil anos antes, principalmente para trabalhar em fazendas ligadas à Cooperativa Agrícola de Cotia.

Depois de estabilizar a vida por aqui, eles enviaram procurações de casamento para oficializar a união no Japão e trazer as esposas ao Brasil.

Hoje isso parece roteiro de dorama, mas naquele tempo era projeto de vida.

Nada de beijo cinematográfico

Quem esperava uma cena digna de filme romântico  acabou encontrando um encontro muito mais discreto.

Sem beijo de cinema ou chuva de arroz. 

As recém-casadas cumprimentaram os maridos com reverências e acenos respeitosos. Ainda assim, a emoção não faltou.

As lágrimas apareciam dos dois lados. Afinal, aquelas mulheres deixavam família, país e rotina para começar uma vida completamente nova em um Brasil que conheciam apenas por cartas e fotografias.

E convenhamos: atravessar o oceano por amor já seria coragem suficiente. Fazer isso depois de 53 dias dentro de um navio merece respeito extra.

Santos virou ponte entre Japão e Brasil

A história dessas noivas ajuda a entender um pedaço importante da construção cultural da Baixada Santista.

Santos sempre foi muito mais do que porto. A cidade virou porta de entrada para milhares de imigrantes que ajudaram a moldar bairros, comércios, feiras, culinária e tradições da região.

Até hoje, a influência japonesa aparece em diferentes pontos da cidade. Está nos restaurantes, nas associações culturais, nos festivais e até na rotina de famílias que mantêm tradições há gerações.

As 12 noivas

Entre as doze noivas, uma chamou especialmente a atenção dos jornalistas.

Yumiko Nibino, de 21 anos, desembarcou sorrindo, usando um chapéu elegante e segurando uma máquina fotográfica. Diferente das demais, ela correu para encontrar o marido, Katsuhiko Nibino, que trabalhava em São Roque.

Foto: Memória Santista 

Pronto. Bastou isso para ganhar o apelido de “vedeta do Porto de Santos”.

Os fotógrafos adoraram. E, honestamente, Santos sempre teve uma queda por personagens carismáticos.

Para o almoço: sashimi, discursos e um pouco de Santos

Depois do desembarque, os casais seguiram para o Hotel Ushio, na Rua Braz Cubas, onde funcionava a sede do Atlanta Futebol Clube.

Ali aconteceu um almoço oferecido pela colônia japonesa de Santos.

O cardápio incluía makizushi, sashimi, camarão gigante e outros pratos típicos japoneses. Além disso, autoridades brasileiras e representantes japoneses fizeram discursos celebrando a chegada das novas famílias.

Mais tarde, as recém-chegadas conheceram a cidade antes de seguirem para o interior paulista, Paraná e Rio de Janeiro.

Para muitas delas, aquele primeiro passeio por Santos seria também a primeira memória do Brasil.

Mais de seis décadas depois, essa história continua chamando atenção porque fala sobre algo muito atual: recomeços.

Santos sempre recebeu gente de fora. Portugueses, espanhóis, japoneses, árabes, italianos e migrantes de diferentes partes do Brasil ajudaram a construir a cidade que existe hoje.

E talvez seja justamente por isso que histórias como essa ainda emocionam.

No fim das contas, o Porto de Santos não desembarcava apenas mercadorias. Desembarcava futuros inteiros. 

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Vitor Fagundes
Texto por

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