Museu Marítimo de Rotterdam mostra que cidade e porto podem ser um power couple
Passado e presente se encontram em uma exposição emocionante sobre mulheres protagonistas no maior porto da Europa
Entre o final do século XIX e o começo do século XX, Rotterdam emergiu como o ventrículo do coração cafeinado da Europa. A relação entre a cidade holandesa e Santos configura o que chamamos de amizade “das antigas”.
É um aperto de mãos simbólico e constante estendido sobre o abismo do Atlântico. Naquele contexto histórico, operava-se uma divisão de trabalho quase metabólica: enquanto Santos fornecia a energia bruta – o grão que moveria a modernidade -, Rotterdam providenciava a porta de entrada para o velho continente através de seu porto. Era uma coreografia de tráfego marítimo industrial que precedeu a nossa era de contêineres e algoritmos.
Essa memória reside, palpável, no Museu Marítimo de Rotterdam, espaço que realiza a alquimia reservada às instituições mais brilhantes: ele transcende a função estática de um depósito de relíquias para operar como um instrumento do nosso próprio reconhecimento existencial.
Foto: Marco de Swart para Maritiem Museum
E o que nos conduziu às docas chuvosas do Museu Marítimo de Rotterdam não começou com um sextante, mas com o tipo de deriva digital acidental que define uma pesquisa moderna. O vetor inicial foi o Uit Agenda Rotterdam, uma plataforma que opera, espiritualmente, como o primo gringo do Juicy Santos, catalogando a vida e a agenda urbana com a mesma minúcia local. O site iluminava a agenda de 2025 com um marco: a celebração do cinquentenário do Ano Internacional da Mulher, estipulado pela ONU naquele distante 1975.
Rotterdam, com sua eficiência, aproveitou a data para instituir o “Ano da Mulher em Rotterdam”. Enfim, tínhamos a cidade com o maior porto da Europa, que foi o maior do mundo até 2004, celebrando uma importante pauta de gênero.
Uma conversa necessária
Quando pensamos na intersecção entre porto e mulheres, o lugar reservado ao adjetivo-substantivo Lendárias & Portuárias já pulsa em nossas mentes.
Desde a sua estreia, em 2024, o Juicy Santos tem apoiado essa produção, viabilizada pelo Promicult e, desde o princípio, com o suporte da DP World, com a constância de quem entende que a identidade de uma cidade não se constrói apenas com contêineres e RTGs (guindastes móveis sobre pneus), mas com narrativas transformadoras.
Para a terceira temporada, a curadoria do podcast operou um salto metafórico audacioso, enquadrando a complexa relação porto-cidade sob a ótica da instituição do casamento. A premissa inicial é: em uma união saudável, as mulheres prosperam, realizadas e detentoras de seu próprio poder.
No entanto, a peça mergulha nas águas turvas do que a psicóloga Ingrid Clayton, em seu recente estudo sobre o comportamento de adulação traumática, diagnosticaria como uma perda do “eu” em função da segurança oferecida pelo outro.
O casamento entre a cidade e o porto
A conversa sobre este casamento cívico expõe uma assimetria de poder que é, ao mesmo tempo, econômica e existencial. Nesta temporada, Lendárias & Portuárias tocaria na ferida da co-dependência: o momento em que a mulher (ou a cidade) abandona sua carreira autônoma para subsistir à sombra do dinheiro do cônjuge (o porto). Quando isso ocorre, a felicidade familiar não é distribuída; ela é racionada. A dinâmica reflete o perigo descrito por Ingrid Clayton, em que a necessidade de agradar ou depender de uma figura poderosa resulta não em parceria, mas em uma submissão que apaga a identidade.
O Museu Marítimo de Rotterdam (Maritiem Museum) é um símbolo desse casamento próspero entre o porto e a cidade. A começar por onde ele está, ocupando o endereço Leuvehaven 1, com a autoridade de quem é o guardião do tempo. Estar ali é habitar o local exato onde o porto começou a desenvolver-se no século XVI, local que serviu como o epicentro comercial da cidade até o final dos anos 1960.
Hoje, a infraestrutura pesada, apesar dos guindastes históricos ainda presentes, cedeu lugar a um equipamento cultural que preserva memórias com a mesma diligência que os capitães traçaram suas rotas. A visita, contudo, adquire uma gravidade adicional quando lembramos que, durante a Segunda Guerra Mundial, os edifícios ao redor de Leuvehaven foram atingidos por bombardeios.
A presença do museu neste local hoje simboliza a resiliência de Rotterdam, uma cidade que reconstruiu sua identidade em torno de sua força elementar: a cultura marítima.
Mulheres Marítimas, um assunto fundamental
Coroando a experiência de um casamento que não deixa nenhum assunto importante em suspenso, está a exposição Mulheres Marítimas. Foi nesse cenário de reparação histórica que encontramos Irene Jacobs, uma holandesa de fala calma e profundidade marítima que nos guiou pelos detalhes da exposição com a familiaridade de quem apresenta a própria casa. Ao aceitar o convite para participar do Lendárias & Portuárias, Jacobs confirmou que, no vasto oceano da memória cultural, as correntes de Rotterdam e Santos se encontram mais uma vez.
Foto: Maurício Matias
Ela é a curadora do Museu Marítimo há mais de duas décadas. Para essa mostra, Irene e seus colegas pesquisaram esse acervo por mais de um ano e abriram a exposição em outubro de 2025, em estratégia curatorial liderada por ela. Com a precisão de quem corrige um erro geográfico em um mapa antigo, Jacobs prova, através de documentos inéditos, que as mulheres estiveram presentes em todas as facetas do setor marítimo nos últimos séculos.
Foi através da exposição que conheci a história de Kenau Hasselaer, que não era apenas uma figura histórica, mas também uma visionária audaciosa e obstinada. Empresária de sucesso, armadora e comerciante de madeira no Rio Spaarne, em Haarlem, Kenau operava com uma autonomia rara, recusando-se a sucumbir às expectativas de gênero do século XVI.
Isso é muito Kenau
Quando o exército espanhol sitiou sua cidade, ela mobilizou um batalhão de 300 mulheres para defender as muralhas, armadas com machados, alcatrão fervente e uma determinação que transcendia a sobrevivência. Essas mulheres resistiram a soldados fortemente armados, transformando a defesa doméstica em um ato de guerra.
Foto: Ludmilla Rossi
No entanto, a história subsequente tratou Kenau com a mesma ambivalência reservada às mulheres poderosas que desafiam a expectativa de gênero conservadora. Seu nome migrou do registro heroico para o insulto, tornando-se sinônimo de mulher “firme” no sentido pejorativo, o equivalente holandês para “megera” ou “mandona”.
Durante séculos, ser chamada de Kenau era uma ofensa, uma tentativa de patologizar a liderança feminina. Graças a uma onda de políticas afirmativas e a um despertar coletivo sobre as dinâmicas de poder, o adjetivo Kenau está sendo reivindicado.
Ser uma “Kenau” hoje é a prova de que, quando o cerco se fecha, a resposta correta não é servir o chá. Assim como essa empresária do passado, nessa exposição as mulheres não figuram como exceções exóticas, mas como parte integrante da economia naval, desafiando a narrativa tradicional.
Irene Jacobs contou algumas dessas histórias no primeiro episódio do Lendárias & Portuárias, no qual também falou da cidade de Rotterdam, do lugar da arte e da cultura em cidades portuárias e da importância do Museu para o território.
Santos e Rotterdam
Em muitos casos, a relação porto-cidade é um contrato que precisa ser renegociado para que nenhuma das partes seja apenas espectadora da outra. A cultura, o senso de pertencimento e o domínio da própria história são elementos essenciais para que essa revisão seja justa. Resgatar as vozes do passado e do presente é a fundação necessária para que a comunidade se reconheça no cais, transformando a barreira física entre o urbano e o marítimo em um horizonte compartilhado.
Um dos exemplos mais legais que vimos na Holanda foi o SS Rotterdam, um navio que ajudou a ancorar também a identidade local.
Ao iluminarmos trajetórias essenciais para a construção econômica de ambas as cidades, deixamos de enxergar o porto apenas como um local de passagem de cargas para vê-lo como uma força cultural. E essa trajetória jamais foi (ou deveria ser) um monólogo masculino.
Como nos alerta Claudia Goldin, Nobel de Economia, as mulheres nunca estiveram ausentes do desenvolvimento econômico; elas foram, historicamente, sub-registradas. A força de trabalho feminina não é um acessório moderno, mas um pilar estrutural que sempre sustentou, ainda que nas sombras, a riqueza das nações.
É nesse contexto que iniciativas como o Museu Marítimo de Rotterdam e o podcast Lendárias & Portuárias, em Santos, desafiam a estrutura vigente ao perguntar: ‘quem estava lá?’.
Existe uma ligação inegável no Atlântico Sul: assim como na Holanda, a história do Porto de Santos é repleta de figuras invisibilizadas, das antigas catadeiras de café às modernas operadoras de guindastes. Ambas as iniciativas compartilham uma sinergia e uma missão de revisão, criando precedentes para que o setor investigue seus próprios arquivos e criem futuros possíveis para tantas mulheres.
Porém, o desafio vai além. Mais do que perguntar ‘quem já esteve’, é urgente refletir sobre ‘quem vai escrever essas histórias’ daqui em diante.