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Muito mais que canções: como o chorinho virou parte da identidade santista

O porto, a boemia e o carnaval ajudaram a trazer o choro para Santos, que hoje também abriga grupos tradicionais, rodas e novos músicos

Tempo de leitura: 12 minutos

Quando eu era criança, por volta de 2013, lembro que todo sábado de sol meu pai vinha com a mesma proposta: “vamos à praia ouvir um chorinho?”

Não vou mentir, não era o meu rolê favorito. Na época, eu com meus 12 anos e meu irmão com 6, preferíamos ficar no sofá jogando videogame. Mas éramos facilmente convencidos por um churro na Praça do Aquário. Além disso, tínhamos a possibilidade de chutar uma bola com outras crianças.

E então, de repente, estávamos na Ponta da Praia. Escutando chorinho, comendo o tal churro e curtindo o pôr do sol com a família. Ao lado de outros santistas, geralmente bem mais velhos, que se encontravam ali toda semana.

Eu nunca fui com muita vontade para o Chorinho no Aquário. Mesmo assim, as boas memórias ficaram. Aos poucos, aquele som começou a entrar nos meus ouvidos. E, assim, passou a fazer sentido, para além de uma música sem letra.

www.juicysantos.com.br - público vendo o choroFoto: Isabela Carrari/Prefeitura de Santos

Foi dessa forma que comecei a me conectar com o gênero. Ele se tornou porta de entrada para outros estilos, como o jazz. Essa conexão passava também pelo lugar. Eu via os meus vizinhos ali, em suas cadeiras de praia, conhecia gente nova e, assim, me sentia parte dessa comunidade.

Essa ligação que o chorinho criou entre a cidade e eu vem, contudo, de uma história bem mais antiga. Ela atravessa o porto, os salões da elite carioca e os quintais da periferia.

Uma praça, 670 apresentações e quase duas décadas de sábados

O projeto que me rendeu tantas tardes de churros completou 19 anos em julho. Por isso, a comemoração lotou a Praça Vereador Luiz La Scala. A programação especial reuniu a Roda de Samba do Ouro Verde, recém-reconhecida como patrimônio cultural de Santos, com a cantora Simone Ancelmo. Teve também um espetáculo dedicado a Carmen Miranda, com o contratenor Edson Cordeiro e o Trio Gato com Fome.

www.juicysantos.com.br - chorinho no aquário 19 anos

Foto: Raimundo Rosa/ Prefeitura de Santos

Foram, ao todo, mais de 670 apresentações gratuitas à beira-mar desde 2007. Naquele ano, a Prefeitura de Santos formatou o projeto após a reurbanização da praça do Aquário, a pedido do então prefeito João Paulo Papa. O secretário de Cultura, Rafael Leal, resumiu o peso simbólico da iniciativa:

“O Chorinho no Aquário faz parte da memória afetiva de Santos. Há quase duas décadas, reúne gerações em torno da boa música em um dos cartões-postais mais bonitos da cidade.”

Reduzir a relação de Santos com o choro a esse projeto, porém, deixa de fora uma história bem mais antiga. Uma história entranhada na própria formação cultural da cidade.

O porto como porta de entrada

Marcos Canduta, violonista, guitarrista e integrante do duo Choro de Bolso há mais de 25 anos ao lado da flautista Débora Gozzoli, resume a força do gênero na cidade a partir de três fatores.

“A questão da conexão da cidade com o choro, acredito que são três coisas: o porto, a vida boêmia e o carnaval”, explica.

Segundo ele, o porto funcionou como porta de entrada não só de mercadorias, mas também de cultura. Assim, formou-se um intercâmbio forte com o Rio de Janeiro, berço do choro.

Boemia e carnaval no litoral

A vida boêmia, além disso, completava o quadro. Nos anos 1920 a 1950, as boates da zona portuária tocavam samba, jazz, bolero e choro lado a lado. Uma efervescência que o próprio Canduta descreve como intensa. Os primeiros blocos de carnaval da cidade também nasceram ligados ao gênero, desfilando ao som dos chorões.

Essa raiz histórica, portanto, ganhou nomes concretos. O violonista Luizinho 7 Cordas, considerado uma das principais referências do choro no Brasil, nasceu em Marília em 1946. Contudo, chegou recém-nascido a Santos e construiu ali toda a sua base artística.

O Grêmio Carnavalesco Cultural e Recreativo Chorões Santistas, fundado em dezembro de 1962 a partir de encontros na casa de Ayrton do Violão, tornou-se patrimônio cultural da cidade. É, hoje, o grupo de choro mais longevo e tradicional de Santos.

Um clube que resistiu até encontrar seu lugar

O Clube do Choro de Santos nasceu em 23 de abril de 2002, Dia Nacional do Choro e data de homenagem a Pixinguinha, nas dependências do Sesc Santos. Foi fundado por um grupo de amigos ligados à música, entre eles Marcello Laranja, Luiz Antonio Pires, Jorge Maciel e Obed Zelinschi.

A trajetória do clube, contudo, nunca foi simples. A primeira sede funcionou numa sala cedida pela Sociedade Humanitária, na Praça José Bonifácio. Mas o horário comercial da entidade acabou inviabilizando a permanência. Em 2008, uma nova sede foi inaugurada no calçadão da Rua XV de Novembro, no centro histórico, depois de quase oito meses de trabalho voluntário da diretoria. Três ou quatro meses depois, porém, o prédio foi vendido, e o clube perdeu o espaço mais uma vez.

Quase 25 anos de resistência

Hoje, no entanto, o clube tem endereço fixo. A sede atual fica na Rua XV de Novembro, 68, no centro histórico, próxima ao Museu do Café e à Bolsa do Oficial.

Além disso, mantém uma parceria direta com o Chorinho no Aquário, que caminha ao lado do clube desde 2007. Jamir Lopes, coordenador do projeto, descreve essa relação: oficinas de capacitação musical, rodas de choro e shows conjuntos acontecem tanto na Rua XV quanto na Ponta da Praia.

www.juicysantos.com.br - Chorinho muito mais que uma música, parte da identidade santista

Foto: Isabela Carrari/Prefeitura de Santos

Para Lopes, o impacto do projeto vai muito além da música em si.

“Ao democratizar a música instrumental brasileira, o choro, os sambas antigos e a nossa MPB, o Chorinho no Aquário consolida a ocupação semanal do espaço público com arte, cultura e boa convivência”, afirma.

A praça do Aquário, segundo ele, é o ponto de encontro preferido de moradores e turistas de diferentes gerações. Assim, eles chegam no fim das tardes de sábado com família, crianças, idosos e pets.

Sobre o legado dos quase 20 anos de projeto, Lopes é direto:

“O Chorinho no Aquário foi criado com a missão de resgatar e consolidar o tradicional choro como patrimônio cultural brasileiro.”

Dessa forma, o projeto já se tornou referência estadual e nacional. Isso porque ocupa, semanalmente, um espaço público, de forma gratuita, havia quase duas décadas.

Da escola tradicional à molecada que também improvisa

Canduta observa que a cena santista de choro vive em transformação constante. Ele veio do jazz e só começou a tocar choro quando passou a se apresentar com Débora Gozzoli, parceria que completa 27 anos em 2026.

“Eu percebo, entre os chorões mais antigos que conheci e a molecada que tem agora, algumas mudanças bem interessantes no jeito de tocar e no modo de encarar a música”, diz.

Para ele, a geração mais nova é mais profissional e mais dedicada. Também é, portanto, mais aberta a receber outras influências.

Questionado sobre a existência de um jeito santista de tocar o gênero, Canduta hesita. Mas  identifica duas escolas convivendo na cidade. Uma mais próxima da tradição carioca, rígida e com pouco espaço para improviso. Outra ligada à turma de Brasília, mais aberta à criação espontânea dentro da estrutura da música. Segundo ele, muitos músicos da região transitam entre esses dois polos.

Espaço para novos nomes

O projeto também aposta na renovação de plateia homenageando compositores de diferentes estilos da MPB, de Chico Buarque a Luiz Gonzaga, passando por Noel Rosa, Belchior, Milton Nascimento e Paulinho da Viola.

Ao mesmo tempo, abre espaço para grupos jovens como o Quarteto Tétrade, formado por ex-alunos da Escolinha de Choro e Cidadania Luizinho 7 Cordas. Também participam o grupo Boêmios da Praia Grande e o Choro das Três.

Quando perguntado sobre o lugar que mais representa o choro na cidade, Canduta escolhe a Livraria Realejo. Ali, toca com Débora todas as sextas-feiras há 22 anos. Cita também as rodas do Clube do Choro, que acontecem às quintas-feiras.

Sobre a relação da juventude santista com um gênero centenário, ele se mostra otimista. Lembra de oficinas que ele e Débora levaram pelo interior de São Paulo e por outros estados, incluindo a periferia da capital, onde a aceitação surpreendeu positivamente.

“O jovem é aberto, já vem aberto a receber conhecimento”, resume.

E aponta que, às vezes, é o próprio poder público que limita as ações, ao não perceber essa abertura.

Da vadiagem ao patrimônio cultural

O choro nasceu no Rio de Janeiro em meados do século XIX. Surgiu, assim, da mistura entre danças de salão europeias, como polca, valsa, mazurca e schottisch, com a ginga das matrizes africanas do lundu e do batuque. Sem piano para dar sustentação harmônica nos quintais e botequins da periferia carioca, os violonistas desenvolveram as baixarias. Contrapontos improvisados nas cordas graves que se tornaram marca registrada do gênero.

www.juicysantos.com.br - grupo de choro

Foto: Arquivo Almirante/MIS

A elite da época via aquilo como imitação vulgar das polcas europeias. Tocar violão com calo na mão podia render prisão a um músico negro no início do século XX.

Os nomes que consolidaram o gênero

Nomes como Joaquim Callado, autor da polca Flor Amorosa e professor de flauta do Conservatório de Música do Rio de Janeiro, ajudaram a dar forma ao gênero apesar desse cenário. De seu grupo fazia parte Chiquinha Gonzaga, considerada a primeira chorona e também a primeira pianista do estilo. Décadas depois, Ernesto Nazareth sofisticou ainda mais essa linguagem. Sua obra, porém, só foi plenamente incorporada ao repertório dos chorões nos anos 1940 e 1950, através das gravações de Jacob do Bandolim e Garoto.

Foi Pixinguinha, contudo, quem deu ao choro sua forma definitiva. Ele introduziu elementos afro-brasileiros e rurais nas polcas e valsas europeias. Choros como Carinhoso, composto em 1917 e só gravado em 1928, enfrentaram resistência de críticos conservadores da época. Décadas mais tarde, o gênero se consolidaria de vez com Jacob do Bandolim e suas rodas caseiras dos anos 1950 e 1960. Além disso, Waldir Azevedo, com seu cavaquinho, popularizou clássicos como Brasileirinho.

O reconhecimento tardio, assim, culminou no título de Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil. Hoje, o gênero é estudado com rigor quase erudito nas universidades.

Um ciclo que a música popular brasileira repete

Anos atrás, ninguém imaginava o choro tocando em teatros. Era considerado som de botequim, coisa de gente sem instrução, segundo os salões da elite carioca.

Esse ciclo não é exclusividade do choro. O funk carioca nasceu décadas depois, nos bailes de favela do Rio, também sob suspeita. As batidas do tamborzão e as letras diretas do gênero foram tratadas, por muito tempo, como sinal de falta de técnica e proximidade com a criminalidade, exatamente como aconteceu com os primeiros chorões.

A diferença está no ritmo dessa mudança. O choro levou quase um século entre o botequim e o título de patrimônio cultural imaterial, concedido pelo Iphan em 2005. O funk percorre esse caminho de forma mais acelerada, puxado pelas plataformas digitais e pela projeção internacional de artistas do gênero, ainda que enfrente resistência semelhante em parte da crítica e da política.

Os dois gêneros também compartilham uma mesma lógica de invenção. O choro pegou emprestadas a polca e a valsa europeias e as recriou com a sonoridade africana, criando algo que a Europa nunca tinha ouvido. O funk fez o equivalente com o electro-funk e o freestyle americanos, moldando uma batida que hoje é ouvida, sampleada e estudada fora do Brasil. Em ambos os casos, o que a crítica chamou de falta de refinamento era, na prática, um jeito novo de tocar com o que se tinha à mão.

O mesmo roteiro, décadas depois

Por mais que o  funk siga um caminho parecido, não é possível igualar as duas histórias ponto a ponto. O choro se consolidou dentro do circuito institucional, com selo do Iphan e se tornou sinônimo de música erudita.

O funk, por outro lado, segue disputando reconhecimento nas ruas, nos tribunais e nas redes, num embate ainda em aberto. O paralelo serve, sobretudo, para mostrar que Santos, ao abraçar o choro hoje como parte da sua identidade, talvez esteja repetindo com décadas de atraso um gesto que a cidade poderia ter feito antes.

Volto, então, para aquela criança entediada na Ponta da Praia. Se o chorinho levou anos para virar tradição consolidada , talvez o som que incomoda hoje nos bailes e nas ruas de Santos seja, daqui algumas décadas, parte da mesma memória afetiva que hoje reúne famílias inteiras aos sábados.

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