Clique aqui e confira também nosso tema da semana

Maker Space em Santos: um laboratório onde ideias saem do papel

No Ânima Lab, estudantes de diferentes cursos criam projetos juntos, aproximam a comunidade e mostram que aprendizado também acontece fora da sala de aula

Tempo de leitura: 5 minutos

Uma conversa no corredor, um projeto que deu errado antes de dar certo ou uma pessoa que enxergou o problema de um ângulo que você jamais teria sozinho. 

Todas essas opções também fazem parte do processo de aprendizagem.

Foto: Gustavo Nascimento

As pesquisas já sabem disso há algum tempo. Ideias inovadoras e projetos interdisciplinares surgem com frequência em conversas informais, em espaços de convivência que impulsionam a criatividade e o aprendizado colaborativo. 

Maker Space

Na prática, um espaço maker funciona como um ambiente voltado à experimentação e ao aprendizado na prática. É o tipo de lugar onde ideias saem do papel e viram protótipos, projetos e soluções reais, usando desde ferramentas tradicionais até tecnologias como impressão 3D, corte a laser e softwares de criação. Tudo isso dentro de uma lógica colaborativa, em que diferentes pessoas e áreas trabalham juntas para testar, construir e resolver problemas.

Quando as universidades começaram a instalar laboratórios maker, a ideia era boa. Impressoras 3D, cortadoras a laser, bancadas para prototipagem. O problema, na maioria dos casos, era que o espaço existia mas ninguém articulava o que acontecia dentro dele.

No Brasil prevalece a criação desses espaços com objetivos de ensino, em detrimento das possibilidades reais de articulação da universidade com a sociedade. Em outras palavras: viravam vitrines. Equipamentos novos numa sala que os alunos não sabiam bem como usar, sem desafios reais, sem conexão com a comunidade lá fora.

Aprendizado

Durante o ensino remoto, ficou evidente o que antes era invisível. Estudantes se mostraram muito saudosos sobre o que era possível experienciar pelas áreas de convivência da universidade, que integravam formação profissional e experiências sociais num único espaço. 

Não sentiam falta das aulas, necessariamente. Sentiam falta do lugar.

A vivência em espaços de convivência é primordial para o bem-estar psicológico, emocional e social, e contribui para o desenvolvimento de um senso de pertencimento e para o fortalecimento de laços que ultrapassam as fronteiras das salas de aula.

Em Santos, isso ganhou forma dentro da universidade

O Ânima Lab, no Centro Universitário São Judas – Campus Unimonte, nasceu da ideia de transformar um espaço pouco usado em um ambiente onde diferentes cursos pudessem trabalhar juntos em problemas reais. E a professora Maria Paula faz parte dessa história.

“É uma folha em branco, mas com um monte de caneta e tintas coloridas em volta”, resume ela.

O laboratório reúne impressão 3D, corte a laser, coworking e salas para metodologias ativas. Mas o diferencial vai além dos equipamentos. Está no encontro entre áreas que normalmente não dividem a mesma mesa.

Foi assim que alunos de medicina veterinária perceberam que a altura dos comedouros poderia causar lesões na coluna de animais. Levaram a questão ao Ânima Lab, encontraram estudantes de design e, juntos, criaram um suporte ajustável. O projeto passou por testes, adaptações e saiu do papel.

Outro exemplo foi o desenvolvimento de uma cadeira para auxiliar na transferência de pacientes acamados para uma posição vertical. A enfermagem entrou com os protocolos de cuidado, a fisioterapia com a biomecânica, a engenharia com a estrutura e o design com a experiência do usuário. Segundo Maria Paula, o produto chegou a um nível pronto para mercado, tudo dentro da graduação.

Quando a comunidade participa, o laboratório muda de escala

O Ânima Lab também recebe oficinas e atividades do projeto de extensão interdisciplinar da São Judas – Campus Unimonte voltado ao público idoso. Os encontros abordam temas como nutrição, cuidados com a pele, imposto de renda e segurança digital, aproximando estudantes de diferentes cursos da comunidade e ampliando a troca de experiências entre gerações.

Em uma dessas oficinas, a proposta era personalizar ecobags usando stêncil cortado a laser. A mesma máquina utilizada para protótipos industriais foi adaptada para criar moldes que facilitassem a pintura para pessoas com menor precisão motora.

O espaço também virou ponto de encontro para desafios da cidade. Recentemente, a Ecofábrica levou materiais que seriam descartados e propôs uma pergunta: o que poderia ser feito com aquilo? Em uma semana, os alunos pesquisaram, criaram protótipos e apresentaram ideias para lixeiras públicas em Santos.

Até o protótipo da Lagoa da Saudade, passou pelo laboratório. Alunos de design desenvolveram a maquete que depois foi aprovada pela Prefeitura e instalada no espaço público.

Convivência também faz parte do aprendizado universitário

Além dos equipamentos e protótipos, o Ânima Lab ajuda a mostrar que o aprendizado também acontece fora do formato tradicional. Afinal, muitas vezes é na troca de experiências, nas conversas informais e até nos projetos que dão errado antes de funcionar que surgem as ideias mais interessantes.

Ao mesmo tempo, o espaço aproxima universidade e comunidade de uma forma prática, conectando diferentes cursos, gerações e pontos de vista. E, justamente por isso, o laboratório acaba funcionando como mais do que uma sala cheia de tecnologia: vira um ambiente onde colaboração, convivência e criatividade caminham juntas.