Lista de boicote em Santos transforma divergência política em pressão econômica
Relações que circulam após as eleições incentivam a exclusão comercial de negócios associados à esquerda. Embora os contextos sejam muito diferentes a estratégia tem um precedente histórico inquietante
Não compre, não contrate, não frequente. Parecia ser só mais uma corrente de WhatsApp nos dias que se seguiam ao segundo turno das eleições presidenciais de 2026. Mas esses imperativos têm um outro significado quando a intenção é identificar pessoas e comércios por suas posições políticas e mobilizar terceiros para prejudicar seus negócios.
Em diferentes cidades brasileiras, grupos ainda não identificados passaram a divulgar listas de empresas e profissionais associados a Luiz Inácio Lula da Silva (PT), acompanhadas de incentivos ao boicote.
Em alguns casos, as mensagens vão além do consumo e defendem que apoiadores do presidente não sejam contratados ou mantenham relações comerciais.
Na Baixada Santista, estabelecimentos de Santos e Guarujá apareceram em listas que circulam pelo WhatsApp. O episódio provocou manifestações públicas e levantou uma questão bem maior do que a disputa entre eleitores: por que identificar e expor pessoas para estimular sua exclusão econômica voltou a ser tratado como estratégia política?
Quando olhamos para o passado, tudo fica ainda mais incômodo. Em 1933, o regime nazista organizou um boicote contra comerciantes e profissionais judeus na Alemanha. E isso aconteceu em um contexto de perseguição antissemita institucionalizada, muito diferente do Brasil atual. Ainda assim, quase 100 anos depois, o mecanismo de identificar alvos, divulgar seus nomes e incentivar a população a cortar relações comerciais ainda choca.
Mas a gente nem precisa ir tão longe no tempo para ver um comportamento similar acontecer. Nas eleições de 2022, quando Lula venceu o pai de Flávio, Jair Bolsonaro, houve um ensaio dessa mesma peça de mau gosto.
Pós-eleição
Uma lista de estabelecimentos pode compilar recomendações, organizar denúncias ou divulgar dicas de interesse público. O Juicy Santos, inclusive, faz esse tipo de publicação desde o seu início como plataforma de conteúdo, em 2011.
A diferença é que as mensagens enviadas após o pleito em grupos bolsonaristas pedia um boicote como forma de punição pelo posicionamento de pessoas e empresas que apoiaram um projeto democrático de país.
E não foi só em aqui no litoral de SP que isso rolou. Em Lucas do Rio Verde, no Mato Grosso, reportagens registraram conversas em grupos de WhatsApp nos quais participantes articulavam sanções a empresas supostamente ligadas a apoiadores de Lula. As mensagens também incluíam propostas de demissão de trabalhadores identificados com a esquerda e manifestações contra migrantes de outros estados. A Gazeta Digital detalhou o conteúdo das conversas.
Em Ponta Grossa, no Paraná, uma relação com cerca de 60 empresas, estabelecimentos e profissionais também passou a circular em grupos de WhatsApp. Segundo o D’Ponta News, os nomes foram associados ao campo político da esquerda, mas não havia comprovação dos posicionamentos atribuídos a todos os citados. A reportagem registrou ainda a reação de empresários e entidades do setor.
O movimento é nacional
Um dos grandes incentivadores dessa prática é o deputado federal Nikolas Ferreira (PL). De boicote a Havaianas a pessoas que comemoraram a morte do ativista de extrema-direita norteamericano Charlie Kirk, ele utiliza essa ferramenta de mobilização há anos entre seus seguidores.
Neste mais recente caso, após a reeleiçõa de Lula, Nikolas desafiou comerciantes que apoiam o presidente a colocarem a bandeira do PT em seus estabelecimentos e incentivou seus eleitores conservadores a não coonsumir de quem apoia o governo.
Pois é, a circulação de listas não se limita a uma cidade ou a um estabelecimento específico. Em diferentes locais, mensagens atribuídas a grupos de direita tentam transformar a preferência política, real ou presumida, em critério para decidir de quem comprar, quem contratar e com quem fazer negócios.
Na Baixada Santista, a inclusão de estabelecimentos que não se posicionaram publicamente nas eleições levanta outra questão: quem decide quais negócios devem ser expostos e com base em quais informações?
A lista não serve apenas para expressar discordância, porque ela tenta mobilizar um grupo para fazer pressão econômica em quem pensa diferente.
Boicote a negócios progressistas em Santos
A circulação dessas informações também levou representantes de negócios e agentes da comunicação local a se manifestarem. Ludmilla Rossi, CEO do Juicyhub, publicou uma sequência de vídeos criticando a iniciativa e questionando a lógica de incentivar consumidores a abandonar estabelecimentos por posições políticas atribuídas a seus responsáveis.
Até mesmo escolas de samba e espaços culturais constavam nesse conjunto de organizações a serem boicotadas.
Na avaliação dela, a estratégia pode atingir negócios que fazem parte da rotina da cidade, sem que a lista necessariamente comprove a orientação política de seus proprietários. Ludmilla também destacou que os estabelecimentos citados não são todos iguais e que a associação a um campo político não significa, automaticamente, militância partidária.
Na rede social de Ludmilla, a maioria dos seguidores prestou solidariedade a quem consta na lista ou sofreu algum tipo de sanção em mais de 1.300 comentários (até o fechamento desta matéria).
Leia a legenda do post na íntegra:
“Regimes autoritários sempre souberam que o jeito mais covarde de silenciar alguém é tirando o pão da mesa da sua família. Quando a birra política chega ao ponto de PEDIR BOICOTE onde você consome na sua própria cidade, a sociedade perdeu o básico da convivência democrática. Santos cresce pelo trabalho de quem empreende (COMO EU!), investe e gera riqueza. Dinheiro que acaba caindo no bolso de pessoas de TODAS AS IDEOLOGIAS. Se você empreende em Santos, marque seu @ nos comentários. Acima de qualquer divisão, a prioridade é a economia local e a liberdade de quem produz. DIRETA E ESQUERDA CONTRA FANÁTICOS VALENTÕES DE REDE SOCIAL! Dicas: siga os negócios corajosos que aparecerem aqui, avalie os negócios que você conhece no Google, conheça um lugar novo ainda essa semana”
Entre os empreendedores impactados, está Kauê Lima, que conta ter percebido a dimensão da circulação quando começou a receber mensagens de pessoas perguntando se havia visto a lista e se pretendia se posicionar.
“Quando liguei, vi pessoas que eu nem sabia que tinham o meu WhatsApp me perguntando se eu tinha visto, se eu ia falar alguma coisa”, relata.
Ele afirma que ainda não sabe qual será o efeito sobre seus negócios.
“Saberemos nas próximas semanas ou até mesmo no médio e longo prazo.”
Kauê acredita que a percepção sobre o perfil de determinados estabelecimentos pode ter contribuído para a associação. Ele, porém, não afirma conhecer a origem da lista nem confirma a motivação de seus organizadores.
“Eu acho que as pessoas identificam o Ativa House como um lugar de esquerda”, diz. Sobre outras casas que administra, acrescenta: “Eu sinceramente não sei o espectro político das pessoas que frequentam lá”.
Antes da lista
O Tarantino Coffee não arreda o pé no poscionamento quando se fala de temas políticos e sociais. Em 2018, ano em que Jair Bolsonaro foi eleito, o estabelecimento esteve associado ao movimento #EleNão. Em 2022, promoveu uma ação chamada “promoção democrática”, com preço de R$ 13, em meio a uma campanha de avaliações negativas no Google.
A cafeteria, que fica no Shopping Parque Balneário, também recebeu ataques após um episódio de LGBTfobia motivado pela bandeira LGBT exposta no local. Na ocasião, uma pessoa que passava diante do estabelecimento gritou: “quem lacra não lucra”. O caso ganhou repercussão nacional e provocou uma onda de mensagens de ódio, mas também manifestações de apoio.
Leandro Garcia, do Tarantino Coffee, afirma que as posições da cafeteria se conectam à construção de um senso de comunidade.
“Quando inauguramos em 2016, as cafeterias da cidade tinham um perfil mais conservador, e não nos sentíamos confortáveis com isso. Então resolvemos montar um ambiente mais acolhedor para todos os públicos. No começo foi bem difícil, mas com o tempo fomos ganhando nosso espaço.” explica.
Segundo Garcia, o estabelecimento enfrenta tentativas de boicote há 8 anos. Após o episódio de LGBTfobia, a cafeteria decidiu manter a bandeira fixa na fachada, em vez de recuar diante das críticas.
“Então, recebemos muito mais apoio e incentivo para continuar. A gente só quer existir, mas quando somos provocados, reagimos para mostrar que somos muitos e estamos no caminho certo”, afirma.
Diante da nova lista, o empreendedor acredita que a reação pode dar mais visibilidade a esses locais. Segundo ele, clientes têm se mobilizado para frequentar ainda mais os estabelecimentos citados.
“A lista vai provocar efeito inverso ao objetivo. Estamos observando e incentivando uma grande mobilização para valorizar ainda mais esses lugares”, diz.
Ele reconhece que alguns negócios podem perder clientes, mas avalia que também podem conquistar um novo público com uma visão de mundo parecida e que quer consumir com significado. Para ele, o importante é manter a calma no início do processo, inclusive diante de possíveis perdas de seguidores nas redes sociais.
Os relatos mostram como a disputa política não se limita ao aplicativo verde no celular. O que essa iniciativa vai fazer com a reputação de estabelecimentos reais ainda não está claro. É cedo para calcular eventuais perdas financeiras ou saber quanto tempo vai durar essa ação orquestrada.
Consumidores têm liberdade para escolher onde gastar seu dinheiro
E isso vale, inclusive, para razões políticas. Um boicote individual ou coletivo pode ser uma forma legítima de protesto, desde que não envolva práticas ilegais.
Além disso, os efeitos de um eventual boicote não ficam necessariamente restritos ao proprietário. Funcionários, fornecedores e prestadores de serviço também dependem dessa roda girando. Quando a campanha se espalha, as consequências se espalham indiretamente, mesmo sem terem participado de qualquer manifestação política.
A ex-deputada federal Manuela D’Ávila também se pronunciou sobre listas que circulavam no Rio Grande do Sul. Em vídeo, ela orientou pessoas e empresas atingidas a guardar capturas de tela, registrar links e perfis responsáveis pela divulgação e buscar orientação jurídica. A manifestação reforça a preocupação com a exposição de nomes e com o incentivo à exclusão profissional e comercial.
O que aconteceu na Alemanha em 1933?
Em 1º de abril de 1933, menos de três meses depois de Adolf Hitler chegar ao poder, o regime nazista promoveu um boicote nacional a estabelecimentos comerciais de propriedade judaica e aos consultórios e escritórios de profissionais judeus.
A ação foi organizada para afastar consumidores desses negócios. Para isso, os nazistas prepararam listas de estabelecimentos que identificavam como judaicos e posicionaram integrantes uniformizados das Tropas de Assalto, conhecidas como SA, e membros da Juventude Hitlerista diante de lojas e outros locais de trabalho.
Cartazes com mensagens como “Não comprem de judeus” foram espalhados, enquanto vitrines recebiam inscrições antissemitas. A presença dos militantes intimidava clientes e expunha publicamente os comerciantes.
O Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos documenta o boicote como a primeira ação coordenada nacionalmente pelo regime nazista contra a população judaica alemã. A iniciativa durou oficialmente um dia, mas representou o início de uma campanha mais ampla para excluir judeus da economia e de outros espaços da sociedade.
Nos anos seguintes, a perseguição avançou por meio de assédio, restrições legais, perda de negócios e confisco de propriedades.
Em 1938, a violência antissemita se intensificou ainda mais.
Hanne Hirsch Liebmann descreve assédio e comportamento anti-semitas na Alemanha
Há uma diferença importante aqui. A perseguição nazista tinha como alvo os judeus por sua identidade étnica e religiosa e fazia parte de um projeto de exclusão promovido pelo próprio Estado, que culminaria no Holocausto. As listas políticas que circulam hoje no Brasil não são comparáveis com o que ocorreu no passado no país europeu, seja pela natureza dos alvos, pelo contexto político ou pela escala de violência.
Só que não se pode negar a concidência que está em escolher e segregar um grupo considerado indesejado, tornar seus integrantes ou seus negócios publicamente reconhecíveis e estimular que não se consuma mais dele.
Ninguém precisa concordar com o voto do vizinho ou de quem serve o café no seu bairro. Mas devemos, sim, reconhecer que a cidade também pertence a quem pensa diferente.