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Leandro Marçal: conheça o cronista que transforma banalidades em literatura

Escritor vicentino está colocando a Baixada Santista no mapa da literatura brasileira

Tempo de leitura: 5 minutos

Sabe aquele momento em que você está na fila da padaria, ouvindo conversas alheias, e pensa “isso daria um conto”? Leandro Marçal vive disso. Nascido e criado em São Vicente, o escritor transformou o cotidiano da Baixada Santista em matéria-prima para livros que fogem do cartão-postal e mergulham nas entranhas da região.

Nada de pôr do sol no Gonzaguinha: aqui, a literatura acontece no ponto de ônibus, na vizinhança, nas ruas que todo mundo conhece, mas ninguém costuma enxergar como cenário de ficção.

Ler Leandro Marçal é entender que a Baixada Santita vai muito além das praias e do café. É reconhecer expressões como “me vê dez médias” — título do seu livro mais recente — e perceber que nossa identidade também se constrói nas padarias, nos botecos, nos condomínios fechados e nas contradições de quem vive “de frente pro mar, mas de costas pra favela”.

Da resistência ao abraço: quando São Vicente virou protagonista

No começo da carreira, em 2017, Leandro evitava nomear as cidades onde seus textos aconteciam.

“Eu pensava: essa ficção poderia acontecer em qualquer cidade média, em qualquer ambiente urbano brasileiro”, conta.

A virada veio pela crônica, gênero que ele define como “observação do cotidiano” e porta de entrada para “drogas mais pesadas da literatura”.

Aos poucos, o escritor percebeu que nomear a região gerava mais conexão com os leitores.

“Tanto para quem mora na Grande São Vicente (vou patentear esse termo), como para quem enxerga ainda mais realismo nas ruas, praças e avenidas”, explica.

A ambientação deixou de ser mero cenário e ganhou status de personagem fundamental. Hoje, Leandro vê histórias brotando do dia a dia.

“Em família ou na vizinhança, vejo histórias e penso ‘cacete!, isso é literatura acontecendo'”. Não significa que vai ambientar tudo na região, “mas quase sempre devo fazer isso”. diz. 

Me vê dez médias

A expressão mais santista que existe virou título do livro mais recente justamente para marcar território.

“De Peruíbe a Bertioga, qualquer cidadão da nossa província sabe que essa frase é muito nossa”, afirma Leandro.

Mas há uma pegadinha: quem vê a capa pode imaginar um livro “fofinho” sobre as belezas locais. Não é.
O livro traz contos marcados por violência e masculinidade tóxica, com cenários do cotidiano transformados em palco de brutalidade. A expressão inclusive faz parte de uma cena violenta dentro de uma padaria. Na epígrafe, Leandro usa Planet Hemp para deixar claro o recado: “É muito fácil falar de coisas tão belas / De frente pro mar, mas de costas pra favela”.

Do jornalismo à ficção: virando a chave entre textos

Formado em Jornalismo, Leandro sempre foi “ligado ao texto escrito”. Mas confessa que demorou para se desapegar da rigidez dos textos informativos e caminhar para os artísticos. Hoje, também trabalha como ghostwriter (escreve textos assinados por outras pessoas, sob sigilo contratual).

“Quando escrevo para ganhar a vida, não deixo de criar ficções, de um jeito ou de outro”, revela. A escrita profissional ajudou a ter mais tempo para projetos pessoais e aprimorar a construção de personagens. Nunca são 100% bons ou ruins, e isso aprendi na raça”, diz.

Ocupar espaços sem choramingar

Desde 2018, Leandro mantém o blog Tirei da Gaveta e publica também no Substack, geralmente às segundas-feiras. Para ele, quem quer ser lido precisa fazer divulgação mínima.

“Não adianta chorar as pitangas com papos do tipo ‘ninguém lê mais’ sem marcar presença”, critica.

O autor questiona quem bota a culpa nas redes sociais pela baixa leitura sem dar exemplo aos mais novos.

“Conheço muitos adultos que não leem nem uma bula de remédio. Quero ser lido mais do que ser visto”. Dispara.

O que vem por aí?

Com cinco livros publicados — incluindo o premiado conto “Condomínio Fechado” no 3º Concurso de Crônicas do Museu do Futebol (2024) — Leandro já tem três projetos de romance em andamento. Todos no estilo “pé no chão”, ambientados em ruas conhecidas da região.

O objetivo? “Tentar mostrar a humanidade dos personagens, para o bem e para o mal”. Enquanto isso, segue publicando crônicas semanais, mantendo aquela acidez e o olhar para a literatura do cotidiano que o consagrou.

Do escritor Leandro Marçal : Caso te interesse, escrevi as respostas no meu quarto, onde trabalho, ao som de “Nos braços do povo, vol. 2”, recém-lançado pelo Xande de Pilares, chovia muito. Laurinha, a gata da casa (o gato é o Scar), estranhamente não estava rondando minha mesa.

Saiba mais sobre Leandro Marçal
Blog: www.tireidagaveta.com.br
Substack: tireidagaveta.substack.com
Redes sociais: linktr.ee/marcal_91
Último livro: “Me vê dez médias” (2025)

 

Vitor Fagundes
Texto por

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