Jacaré da Alemoa em Santos: o que acontece quando a cidade se sobrepõe à natureza?
Vídeo de jacaré cercado por lixo em Santos expõe os impactos da degradação ambiental e os riscos da aproximação e alimentação de animais silvestres
Santos tem vários limites físicos. A faixa de areia, a ciclovia, a avenida, o canal, o mangue, o Porto. Cada espaço carrega uma função, uma regra e, em algum momento, alguém responsável por ele.
A natureza, curiosamente, não recebeu esse mapa.
Foto: Reprodução vídeo Instagram @luizfernandovaz1987
Um jacaré pode atravessar uma área alagada, aparecer perto de uma avenida e transformar uma lagoa escondida da rotina em assunto de cidade. Enquanto isso, restos de comida e plástico chegam ao mesmo lugar sem pedir autorização para ninguém.
É nesse território meio confuso, entre a cidade que Santos construiu e a natureza que continuou por ali, que existe uma lagoa conhecida como “lagoa do jacaré”.
Ela fica Lago da Alemoa fica às margens da Avenida Engenheiro Augusto Barata, bem perto da área portuária.
O vídeo que colocou a lagoa de novo no radar
Quem acompanha os vídeos de Luiz Fernando Vaz já deve ter visto.
O motoboy costuma registrar os jacarés que vivem na região da Alemoa. Desta vez, porém, o encontro chamou atenção por outro motivo: o animal apareceu em meio a uma quantidade considerável de lixo.
No vídeo, Vaz mostra os resíduos espalhados pela lagoa e comenta as condições do local. Em determinado momento, também procura um jacaré que havia encontrado anteriormente com uma sacola plástica presa ao corpo.
Na nova gravação, ele encontra outro animal, maior, e decide alimentá-lo.
A cena é um tanto quanto curiosa. Até para a cidade de Santos. E também levanta algumas questões que não cabem nos poucos segundos de uma publicação nas redes sociais.
Afinal, o que aquele lixo representa para um animal que vive ali? E o que acontece quando um jacaré começa a associar pessoas à comida?
Para entender essa parte da história, conversamos com Daniella França, doutora em Biologia, especialista em répteis e pesquisadora colaboradora do Museu de Zoologia da USP.
A experiência dela ajuda a olhar para o vídeo por outro ângulo. O jacaré que aparece na gravação é um animal visível. Os impactos ambientais que podem existir naquele espaço, nem sempre.
O jacaré até pode estar bem. A lagoa, nem tanto
A presença de um jacaré costuma passar uma impressão curiosa: se o animal continua ali, talvez o ambiente ainda dê conta de sustentá-lo.
Na prática, a conta pode ser bem mais complicada.
Os jacarés são animais resistentes e conseguem sobreviver em ambientes bastante alterados. Isso não significa, porém, que estejam vivendo em condições ideais.
“É importante não confundir resistência com ausência de impacto”, explica Daniella.
Alguns problemas podem aparecer apenas depois de meses ou anos. Alterações na reprodução, no crescimento, na condição corporal e a exposição contínua a contaminantes nem sempre ficam evidentes em uma filmagem.
Por isso, encontrar jacarés em uma lagoa degradada não funciona como um selo de qualidade ambiental.
Pelo contrário.
Animais excessivamente magros ou debilitados podem indicar problemas. Ferimentos frequentes, alterações de pele e mortalidade sem causa evidente também merecem atenção.
O comportamento também dá sinais. Animais muito apáticos ou com pouca resposta de fuga, por exemplo, podem estar sob estresse ambiental e precisam de avaliação.
É uma diferença importante: o jacaré pode continuar aparecendo sem que isso signifique que o ambiente esteja saudável.
Para eles, uma sacola plástica não é apenas lixo
Se você passa pela lagoa, o lixo é uma imagem de sujeira. Para a fauna, ele vira parte do problema.
Plásticos e outros resíduos são ingeridos diretamente ou junto com alimentos naturais. Isso pode provocar lesões e obstruções no trato gastrointestinal.
Em situações graves, o animal deixa de se alimentar adequadamente.
Além disso, resíduos presentes em ambientes urbanos e industriais podem aumentar a exposição da fauna a contaminantes.
“Em locais urbanos ou industriais, isso se soma à possibilidade de exposição a metais pesados, esgoto e outros poluentes”, explica Daniella.
Isso não significa que o jacaré registrado no vídeo esteja contaminado ou doente.
Seria necessário um estudo específico para afirmar isso.
O alerta, no entanto, é ambiental. Quanto mais degradado o habitat, maiores podem ser os riscos para os animais que dependem dele.
E aquela esfirra?
A cena do motoboy oferecendo comida é provavelmente a parte mais curiosa da gravação.
A intenção, aparentemente, é de aproximação e até de cuidado.
O jacaré, naturalmente, não interpreta a situação dessa forma.
Ele aprende associações.
“Quando uma pessoa oferece uma esfirra para um jacaré, ela pensa estar fazendo um bem e até um carinho no animal”, explica Daniella.
O problema é quando essa oferta deixa de ser um episódio isolado.
Pães, massas e alimentos ultraprocessados não fazem parte da dieta natural desses animais. A composição nutricional também é muito diferente das presas que eles normalmente consumiriam.
Uma oferta ocasional não significa necessariamente que o animal ficará doente. A repetição, entretanto, pode alterar a dieta e o comportamento.
O jacaré aprende que gente também serve comida
Daniella explica que o termo mais adequado não é necessariamente “dependência”.
O que pode acontecer é um processo de habituação e condicionamento alimentar.
O animal relaciona a presença humana à comida. E, então, com o tempo, pode reduzir a resposta natural de afastamento e começar a procurar esses encontros.
Isso faz com que se aproxime de margens, passarelas, pescadores, casas e outros locais com circulação de pessoas.
“Não significa que todo jacaré alimentado vai se tornar agressivo, mas ele pode se tornar mais insistente na aproximação e passar a buscar alimento ativamente junto às pessoas”, afirma.
E um jacaré que passa a procurar comida perto de gente cria um problema para os dois lados.
Existe o risco de acidentes. Também existe o risco de o próprio animal passar a ser considerado perigoso ou problemático.
Ou seja, um encontro que começa com alguém tentando alimentar o animal pode terminar justamente com o afastamento dele daquele ambiente.
Por isso, não alimentar a fauna silvestre também é uma forma de proteger o próprio animal.
A lagoa é de quem?
Essa é a parte da história que pode passar despercebida para quem olha apenas para o vídeo.
A lagoa está na Alemoa, em uma região cercada pela atividade portuária. Mas isso não significa que ela esteja dentro da área de jurisdição da Autoridade Portuária de Santos.
Segundo a APS, a lagoa conhecida como “lagoa do jacaré” não integra a Poligonal do Porto de Santos.
Por isso, a área não está sob jurisdição da autoridade portuária.
A APS informa que a responsabilidade pela área é da Secretaria de Patrimônio da União, a SPU.
Ao mesmo tempo, a Avenida Augusto Barata, que passa pela região, está sob responsabilidade da APS. É ali que a autoridade instalou lixeiras e uma grade para impedir o acesso dos jacarés à via e também limitar a entrada de pessoas na área da lagoa.
A APS afirma ainda que realiza ações de Educação Ambiental na região.
Panfletos e faixas educativas são colocados em pontos estratégicos. A autoridade também afirma que recebe relatos recorrentes de descarte de lixo e marmitas na lagoa e em seu entorno.
A fronteira administrativa, portanto, não acompanha exatamente a fronteira que o olho enxerga.
Para quem está na avenida, é tudo Alemoa. Para a gestão pública, cada pedaço pode responder a uma estrutura diferente.
Colegas ilustres na cidade
Santos não tem jacaré só na Alemoa. Suba o Morro da Nova Cintra e você vai ouvir falar – e até ver, se tiver sorte – desse ícone da Lagoa da Saudade.
O réptil, carinhosamente batizado em versões diferentes como Filomena, Florentina ou até Tiririca, virou lenda viva do bairro e já foi registrado em vídeos e fotos que circulam há anos pelas redes sociais.
A Prefeitura de Santos confirma a presença do animal e diz que as secretarias de Meio Ambiente e Prefeituras Regionais monitoram a área, com placas proibindo a entrada de pessoas na água.
Diferentemente da lagoa da Alemoa, cercada por atividade portuária e lixo, a Lagoa da Saudade é um ponto de lazer, com quiosques, trilhas e eventos. Ou seja, há um monitoramento municipal constante que sinaliza riscos e educa a população ao redor.
Há, ainda, Jaque, a jacaré-de-papo-amarelo que mora no Orquidário Municipal desde 2008. Com cerca de 1,80 m e 39 kg, Jaque vive num recinto pensado para manter comportamentos naturais, como tomar sol, ficar na água, descansar em área seca. Ela divide o espaço com garças, cágados e socós sem virar jantar. No parque, Jaque ajuda a explicar o papel dos jacarés como predadores e indicadores da saúde de rios, lagoas e manguezais, e virou exemplo de como cuidado e infraestrutura transformam um animal que, em outro contexto, como na Alemoa, pode virar um grande problema de saúde pública.
Monitoramento
A APS possui programas ambientais vinculados à Licença de Operação 1382/2017, emitida pelo Ibama. Entre eles estão os Programas de Monitoramento de Biota Aquática, que acompanham comunidades planctônicas e bentônicas.
O trabalho ocorre no canal de navegação e no entorno, incluindo trechos dos canais de São Vicente, Bertioga e Piaçaguera.
A licença também prevê o Monitoramento de Quelônios, voltado ao uso do canal por tartarugas marinhas, com acompanhamento semanal. Além disso, o Plano de Contingência do Porto de Santos prevê o acionamento de equipes diante da presença de fauna terrestre nas vias de acesso.
Já os jacarés da lagoa não são alvo de monitoramento específico da APS.
Assim, existe monitoramento ambiental relacionado às operações portuárias, mas não um acompanhamento específico daquela população de jacarés.
Então basta tirar os jacarés de lá?
Seria uma solução bastante tentadora.
Tem lixo, tem circulação de pessoas, tem um animal silvestre. Captura, mudança de endereço e problema resolvido. Só que a natureza raramente trabalha com esse tipo de mudança de endereço.
Para Daniella, a mudança não deveria ser a primeira medida apenas porque existem jacarés em uma área degradada.
Antes disso, seria necessário entender o que acontece naquele ambiente. Qual é a qualidade da água? De onde vem a poluição? Existe habitat suficiente? Quais riscos existem para os animais? E quais riscos existem para as pessoas?
A partir dessa avaliação, entram medidas como retirada de resíduos, recuperação ambiental, controle de acesso, sinalização e educação ambiental.
“A captura e a translocação devem ser avaliadas caso a caso e realizadas pelos órgãos e profissionais autorizados”, explica.
A remoção pode fazer sentido quando existe risco imediato para pessoas ou animais. Também pode ser necessária diante de indivíduos feridos ou debilitados.
Outro cenário seria quando o habitat se torna incompatível com a permanência daquela fauna.
Porém, existe uma pergunta que costuma desaparecer quando a captura parece uma solução fácil: para onde vai o jacaré?
Translocar não significa simplesmente colocar o animal em outro corpo d’água. É preciso avaliar o ambiente que receberá aquele indivíduo, além de questões sanitárias, territoriais e populacionais.
Uma mudança mal planejada pode apenas levar o problema para outro lugar.
O jacaré não precisa de uma esfirra
O caso da Alemoa reúne uma combinação pouco comum.
O animal não escolheu a localização da lagoa. Muito menos escolheu o lixo que chegou até a água. E certamente não sabe que uma esfirra oferecida por um humano pode mudar sua relação com as pessoas.
Por isso, a solução passa por mais de uma frente.
A bióloga defende entender e corrigir a degradação ambiental, reduzir o conflito entre pessoas e fauna e monitorar os animais.
Cercamento, sinalização e educação ambiental também fazem parte desse caminho.
A APS, por sua vez, orienta que as pessoas não se aproximem nem alimentem os jacarés.
Caso um animal seja avistado na avenida ou em terminais, a recomendação é acionar a Guarda Portuária pelo telefone (13) 3202-6570. A equipe pode chamar a Polícia Militar Ambiental para avaliar a situação.
Santos cresceu ocupando espaços que já eram usados pela natureza. Agora, vez ou outra, ela aparece para lembrar que não desapareceu.
O jacaré já encontrou uma maneira de viver perto da cidade. Só que, agora, precisamos descobrir se a cidade consegue fazer sua parte para que ele não precise escolher entre lixo, comida humana e as poucas áreas que ainda consegue chamar de casa.
Encontrou um jacaré? Faça isso
A recomendação da Autoridade Portuária de Santos é não se aproximar e não alimentar o animal.
Se houver um jacaré na Avenida Augusto Barata, em terminais ou em outro ponto de circulação, a orientação é acionar a Guarda Portuária pelo telefone (13) 3202-6570.
A equipe poderá acionar a Polícia Militar Ambiental.
Também não é recomendado tentar capturar, tocar ou conduzir o animal por conta própria.