Clique aqui e confira também nosso tema da semana

Geni Souza: a escritora que transforma lendas em ferramentas de educação

Lenda de São Vicente fortalece educação e o combate ao bullying nas escolas.

Tempo de leitura: 6 minutos

Geni Souza carrega consigo mais do que caneta e papel. A escritora possui uma missão que começou quando ainda era uma criança curiosa diante da estátua do Ipupiara na Praça 22 de Janeiro, em São Vicente. Hoje, anos depois, ela é autora do “Ipupiara, o Monstro Vicentino”, uma obra infantojuvenil que resgata a lenda regional e as transforma em poderosa ferramenta para discutir identidade, bullying e consciência social nas escolas.

Desde pequena, Geni questionava o final trágico da lenda do monstro marinho. Naquele momento, nascia uma autora contestadora, pronta para recontar histórias à sua maneira. Entretanto, foi apenas com sua participação no PNAB São Vicente que ela conseguiu dar vida ao projeto. Dessa forma, o livro une passado e presente, mantendo viva a memória cultural da Baixada Santista.

A infância que moldou uma contadora de histórias

Visitar a Praça 22 de Janeiro não era apenas um passeio para a pequena Geni. Enquanto outras crianças corriam pelo gramado, ela ficava fascinada pela estátua do Ipupiara e pela lenda contada nas placas. Assim, começava a questionar: por que o monstro precisava ter aquele destino? Logo, sua imaginação criava outros finais, mais esperançosos, mais humanos.

“Desde pequena e já contestadora que só, queria eu mesma poder contar sobre o Ipupiara. Do meu jeito, como eu o enxergava e tudo que transmitia para mim, a criança que só queria conhecer um pouco mais sobre aquele monstro”, relembra a autora.

Portanto, não foi por acaso que Geni se tornou uma escritora comprometida com a valorização da cultura local. Afinal, manter viva a lenda do Ipupiara significa preservar identidade e memória coletiva.

Quando a lenda vira livro

A concretização do sonho aconteceu através de uma junção de fatores. Primeiramente, a participação no PNAB (Política Nacional Aldir Blanc) São Vicente foi determinante. Além disso, Geni percebeu que poderia inserir temas contemporâneos na narrativa antiga, criando pontes entre gerações.

Consequentemente, “Ipupiara, o Monstro Vicentino” nasceu como uma obra que dialoga tanto com a tradição quanto com questões atuais.

Ciclo completo

Para qualquer escritora, existem marcos que ficam gravados na alma. No caso de Geni Souza, esse momento chegou quando ela retornou à escola onde estudou. Porém, agora ocupava outro lugar: estava ali como autora, compartilhando sua obra com os alunos.

“Conversar com os alunos e estar ali, enxergando neles um pouco de mim, com certeza foi o que mais me marcou. Fiquei extremamente emocionada e com um imenso sentimento de dever cumprido”, revela.

Dessa maneira, o ciclo se completou. A menina que sonhava em recontar lendas voltou para inspirar outras crianças a acreditarem em suas próprias histórias.

Além do Ipupiara: uma trajetória literária

Geni não é apenas autora de um único livro. Anteriormente, publicou duas obras em coautoria com a escritora Helena Gomes. A primeira, “Princesas, Bruxas e Uma Sardinha na Brasa – Contos de fadas para pensar sobre o papel da mulher”, recebeu diversos reconhecimentos importantes.

A obra foi contemplada pelo Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) em 2020. Além disso, representou o Brasil na Bologna Children’s Book Fair 2018. Igualmente, recebeu seleção da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. Também foi premiada pela Secretaria Municipal de Educação de São Paulo. Finalmente, integrou o Clube de Leitura ONU, no eixo de Igualdade de Gênero.

Nesse livro, as personagens protagonizam suas próprias histórias. Assim, mostram que cada pessoa pode escrever seu final feliz.

Contos de fadas para discutir temas difíceis

A segunda obra em coautoria, “Sobre Cores e Mundos”, também utiliza contos de fadas como aliados. Contudo, o foco está em temas delicados como identidade, amizades e, principalmente, bullying. Portanto, Geni demonstra que histórias antigas podem ajudar crianças a compreenderem questões contemporâneas.

“Ipupiara, o Monstro Vicentino é o meu terceiro livro, com gostinho de primeiro pois é o primeiro que escrevo sozinha, além de participar ativamente em cada processo da sua criação”, explica a autora.

Essa participação integral no processo criativo marca uma nova fase. Afinal, agora Geni assume completamente sua voz autoral.

O futuro está sendo escrito

Questionada sobre os próximos passos, Geni é categórica: escrever faz parte de quem ela é. Portanto, não pretende parar.

“Há tantos contos de fadas, lendas antigas e finais felizes para escrever. Vou continuar estudando e pesquisando sobre nossa história, nossa cultura com o objetivo de inspirar novos leitores e futuros escritores”, afirma.

Além disso, seu compromisso vai além da produção literária. Ela quer inspirar outras pessoas a verem-se representadas nas histórias. Consequentemente, seu trabalho se torna ferramenta de transformação social.

Literatura como resistência

O trabalho de Geni Souza representa mais do que livros nas prateleiras. Na verdade, representa resistência cultural, preservação de memória e, sobretudo, a crença de que histórias podem mudar vidas. Quando uma criança se identifica com um personagem, quando questiona finais injustos, quando reconhece sua própria cultura nas páginas, algo profundo acontece.

Seguindo para onde as palavras conduzem

Geni Souza não sabe exatamente para onde suas palavras a levarão. Entretanto, sabe que continuará escrevendo. Afinal, escrever a alimenta como pessoa, a motiva e a conecta com aquela menina que ainda vive dentro dela.

“Seguindo por onde minhas palavras irão me conduzir”, finaliza a escritora.

Essa frase resume perfeitamente sua jornada: uma autora que se deixa guiar pela paixão pelas histórias, pelo compromisso com a cultura e pelo desejo de inspirar novas gerações. Geni está provando que lendas antigas podem ganhar novos significados quando contadas por vozes comprometidas com educação e transformação social.

Autoras como Geni são fundamentais. Elas mantêm vivas as lendas locais, valorizam a identidade regional e, ao mesmo tempo, discutem questões universais. Seja combatendo o bullying, promovendo a igualdade de gênero ou fortalecendo a identidade, suas histórias educam enquanto encantam.

Vitor Fagundes
Texto por

Contato