Gaviões asa-de-telha tomam conta dos céus de Santos
Ave nativa das Américas se adaptou aos centros urbanos e atua como controladora natural de pombos na cidade
É um pássaro? É um avião? Algum marketing do Corinthians?
Não, é o novo dono do céu de Santos: o gavião-asa-de-telha (Parabuteo unicinctus). Nos últimos meses, a presença dessas aves de rapina tem chamado atenção dos santistas, que registram avistamentos frequentes pela cidade. Inclusive, alguns munícipes chegaram a sofrer ataques das aves, o que gerou preocupação e curiosidade sobre a espécie.

De ameaçada à abundante
Segundo o ornitólogo Rodrigo Passos, o gavião-asa-de-telha enfrentava ameaça de extinção no estado de São Paulo há mais de uma década. Hoje, porém, a espécie vive fora de perigo, graças à sua grande adaptabilidade aos centros urbanos.
“Essa espécie tem uma estrutura de corpo muito adaptada a diversos lugares. Não são pequenos demais para serem afugentados por outras aves e nem grandes demais para não se adaptarem aos espaços pequenos e à agilidade que os ambientes urbanos exigem”, explica Passos.
Além disso, outras espécies também têm aparecido nas redes sociais, como o falcão-peregrino (Falco peregrinus) e o quiri-quiri (Falco sparverius).
Do desmatamento à cidade
Dois fatores principais explicam a chegada dos gaviões aos centros urbanos. Primeiramente, a adaptabilidade física da espécie. Em segundo lugar, e paradoxalmente, o desmatamento. Ao contrário do que acontece com a maioria dos animais silvestres, que desaparecem localmente quando perdem habitat, o gavião-asa-de-telha enxergou no desmatamento uma oportunidade de conquistar um novo nicho ecológico.
Originalmente, pesquisadores observavam essas aves na caatinga e no cerrado. Na Baixada Santista, as pessoas avistavam os gaviões principalmente nos manguezais de Cubatão. Entretanto, com a expansão urbana, as aves migraram para as cidades.
População em crescimento exponencial
Atualmente, Santos abriga cerca de 15 ninhos mapeados na área urbana. Além disso, os números continuam crescendo rapidamente. Cada ninho produz, em média, dois filhotes que chegam à fase adulta. Como as aves procriam pelo menos duas vezes por ano, a população praticamente dobra anualmente.
“De 15 ninhos teoricamente fomos para 30 de um ano para o outro. Percebemos que os bichos estão procriando pelo menos duas vezes por ano. Portanto, em um ano, temos teoricamente 60 bichos novos”, calcula Passos. “Muitos morrem, ou são resgatados para reabilitação no Orquidário, mas eles estão crescendo de forma exponencial.”
No entanto, o ornitólogo explica que esse crescimento tem limite.
“Isso vai parar em algum momento, porque não vai ter mais território para eles. Consequentemente, vão migrar para Guarujá, São Vicente, Praia Grande ou vão criar estratégias novas, como fazer ninhos em prédios ao invés de árvores”.
Controladores naturais de pombos
Longe de serem vilões, os gaviões desempenham papel importante no ecossistema urbano. Sua presa favorita? Pombos.
“Eles atuam como um grande controlador de natalidade de pombos na cidade e ajudam a entender patógenos que os pombos carregam. Dessa forma, funcionam como sentinelas da saúde pública”, destaca Passos. “Aqui no Canal 5 tem um ninho há cerca de 4 anos e as pessoas perceberam que não tem mais pombo ali.”
Aliás, os gaviões caçam pombos com tanta eficiência que aeroportos utilizam essas aves para controlar a população de pombos, por meio da falcoaria.
Apesar dos benefícios, os gaviões podem sim atacar pessoas, mas apenas em situações específicas: durante o período reprodutivo, quando há filhotes muito pequenos no ninho.
“Os gaviões só representam risco caso não haja uma mediação efetiva dos conflitos. Se você estiver na altura do ninho dele, ele vai atacar.”
Campanha de educação ambiental
Para orientar a população sobre a coexistência com as aves, a Prefeitura de Santos iniciou na terça-feira, 3 de fevereiro, uma campanha de educação ambiental nos locais de avistamento.
Segundo a veterinária Michelle Vieira, da Secretaria de Meio Ambiente (Semam), especialista em aves silvestres, os gaviões-asa-de-telha são nativos das Américas. As pessoas avistam essas aves em Santos há mais de 20 anos.
“Em razão do desmatamento, fragmentação de habitats, mudanças climáticas e expansão urbana, elas buscam alimentos nas cidades. Portanto, é importante lembrar que são animais silvestres protegidos por lei. Assim, ferir, maltratar, matá-los ou modificar e destruir ninhos configura crime ambiental.”
Recomendações para a população
A Semam orienta os munícipes a:
- Evitar aproximação com as aves
- Não deixar restos de alimentos nas proximidades dos locais de incidência, pois isso atrai presas (ratos e pombos) e, consequentemente, amplia a oferta de alimento para os gaviões
- Em caso de ferimentos causados pelas aves, procurar atendimento em unidade de saúde para profilaxia e vacinas
- Se encontrar gaviões ou outros animais feridos, ligar para o Grupamento Ambiental da Guarda Civil Municipal (153) ou Corpo de Bombeiros (193)
- Para denunciar crime ambiental, ligar para a Polícia Militar Ambiental (190)
Ferramenta de educação ambiental
Para além do controle de pombos, Passos acredita que os gaviões podem se tornar importantes aliados na educação ambiental.
“Eles podem trazer as pessoas para mais perto da natureza de forma geral e da natureza da sua região. No Clube de Observadores de Aves de Santos, temos sempre essa ideia de usar o gavião para gerar debates sobre meio ambiente e políticas públicas de conservação de áreas verdes.”
A campanha de educação ambiental começou no cruzamento entre a Avenida Washington Luiz e a Rua Minas Gerais (Boqueirão).
Para observar registros de gaviões e outras aves no Brasil, você pode entrar no Wikiaves.