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Gabi Rolemberg: a estilista da Baixada que transforma moda em manifesto

Da costura aos 15 anos ao ateliê próprio, ela representa uma nova geração de criadores que enxergam a moda como ferramenta de transformação social e sustentabilidade

Tempo de leitura: 6 minutos

Há pessoas que nascem com propósito e levam anos para descobrir. Outras simplesmente crescem dentro dele. Gabi Rolemberg pertence ao segundo grupo. Conhecida na Baixada Santista como “a garota que faz moda”, ela não apenas cria roupas — ela tece histórias, identidades e um novo jeito de pensar na indústria têxtil brasileira.

Aos 15 anos, quando a maioria dos adolescentes ainda está descobrindo o que quer ser, Gabi já tinha agulha e linha na mão. Formada em Design de Moda pela renomada Faculdade Belas Artes de São Paulo, ela construiu uma trajetória que passa por grandes marcas, artistas e desfiles, mas que encontrou seu verdadeiro lar no ateliê próprio e nas parcerias com coletivos culturais da região.

Quando a vocação chega antes da consciência

A história de Gabi com a moda é daquelas que parece roteiro de filme, mas é pura realidade. A típica criança que fazia roupas para bonecas, organizava desfiles imaginários e vestia as amigas, não estava apenas brincando — estava construindo seu futuro sem saber.

“A moda já era minha carreira antes mesmo de eu saber o que era de fato uma carreira”, conta Gabi, com a leveza de quem relembra uma infância onde criar era mais instinto do que profissão.

Aos 14 anos, veio o curso de corte e costura e não houve retorno. Mesmo entre bicos e trabalhos paralelos, a criação sempre foi protagonista. Mas havia um problema: ela não entendia, na época, que aquilo poderia realmente ser uma profissão e mudar sua realidade.

“Era apenas muito leve, muito meu, muito único.”, comenta

A bolsa integral conquistada na Belas Artes foi o divisor de águas. Uma das melhores faculdades de moda do Brasil abriu não apenas portas, mas mundos. O convite para trabalhar na própria instituição veio em seguida, e a partir daí a trajetória ganhou novos contornos: grandes marcas, artistas, passarelas. O tal lado “glamuroso” da indústria.

Mas foi justamente conhecer esse universo que fez Gabi entender o que não queria.

O glamour que esconde a essência

Quando você vê a moda de dentro, percebe que ela tem facetas curiosas — e nem todas brilhantes. Da criação e costura até o camarim de um artista, a engrenagem é dura. E para quem vem da periferia, manter-se fiel ao propósito inicial, ao fazer por amor, sem se entregar à superficialidade, é um desafio diário.

“Conhecer o mercado, o lado ‘glamuroso’ foi muito importante, justamente para entender que não era o que eu queria”, reflete Gabi.

Essa consciência trouxe um dos maiores desafios da sua carreira: empreender. Mais especificamente, lidar com números, valores e, principalmente, com a própria autoestima profissional.

“Quando você vem de uma realidade periférica, dificilmente você aprende a lidar com dinheiro de forma empresarial e a ter autoestima profissional”, explica.

É um ciclo cruel: estilistas talentosíssimas, que dominam técnicas complexas e criam peças autorais, sofrem diariamente com a autossabotagem. Entender quanto seu trabalho vale e não ter medo de defender isso é um processo difícil, doloroso, mas necessário.

Criar para quem ninguém criou

No ateliê Gabi Rolemberg, cada peça é um universo. Criar sob medida é algo complexo, mas é também o que a estilista mais ama fazer. O processo começa muito antes das primeiras linhas no tecido — começa na escuta.

“No meu ateliê recebo pessoas que transitam pelo mundo da arte e da moda, mas também pessoas que zero fazem parte desse universo. Então criar é sempre muito único, singular, a cada nova pessoa que chega.”, explica

O método é simples e profundo: entender quem é o cliente, saber a ocasião para qual ele quer se vestir, conhecer suas partes favoritas do corpo e suas inseguranças. A partir dessa escuta ativa, Gabi cria unindo suas referências pessoais — texturas, camadas, mescla de materiais e muitos acabamentos — com o que colhe de informações da pessoa.

“Moderna, sim, mas artesã também”, brinca, deixando claro que tradição e contemporaneidade caminham juntas em seu trabalho.

Além das criações sob encomenda, ela tem lançado coleções cápsulas mais reduzidas, onde se joga com força no estudo de manipulação de tecidos e reaproveitamento têxtil. É a moda sustentável saindo do discurso para virar prática.

Moda como manifesto

Se tem algo que Gabi deixa claro é que seu trabalho vai muito além de vestir corpos. É sobre transformar realidades. A meta é ambiciosa, mas absolutamente necessária: alinhar moda, arte, educação e sustentabilidade, tanto na trajetória da marca Gabi Rolemberg quanto na sua vida pessoal.

“Acredito demais na moda como ferramenta de transformação social”, afirma, com a convicção de quem já viu o poder disso na prática.

Trabalhar com coletivos audiovisuais da Baixada, como o Olhar Marginal, permitiu a ela ver de perto a quantidade de pessoas com talento nato que existem escondidas pela região. E é justamente aí que entra o futuro que ela está construindo.

O plano é repensar e transformar os modos de operar do próprio negócio, ao mesmo tempo em que soma com outras pessoas. Trazer mais estilistas e artistas para esse movimento, especialmente artistas natos da Baixada, fortalecendo as raízes, o modo caiçara de criar e construindo juntos um cenário de moda e cultura mais consciente, diverso e coletivo.

“Quero me aprofundar cada vez mais no estudo dos têxteis, no descarte consciente e no reaproveitamento correto não apenas de tecidos, mas também de plásticos e outros materiais.”

A revolução silenciosa

O que Gabi Rolemberg representa vai além de um ateliê de sucesso. Ela é parte de uma geração de criadores periféricos que estão reescrevendo as regras da moda brasileira. Não é sobre chegar aos grandes centros e esquecer de onde veio — é sobre transformar a própria origem em potência criativa.

É sobre provar que a moda pode ser, sim, uma ferramenta de mudança social. Que é possível criar com consciência, com propósito, com respeito ao meio ambiente e às pessoas. Que o luxo não está apenas no preço da peça, mas na história que ela carrega, nas mãos que a fizeram, no impacto que ela gera.

Gabi não está sozinha nessa jornada. Ela está construindo pontes, formando redes, inspirando outras pessoas a acreditarem que é possível viver de arte sem abrir mão da ética. E isso, em um país onde a moda periférica ainda luta por reconhecimento, é revolucionário.

Conheça o trabalho de Gabi Rolemberg em @atelie.gabirolemberg no Instagram e acompanhe de perto essa estilista que está redefinindo o que significa fazer moda com propósito, identidade e transformação.

Vitor Fagundes
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